Novidade na China: cartão de crédito

Neil Gough

© 2016 New York Times News Service

Kunshan, China – Bancos e outros credores geralmente observam o histórico de crédito, o imposto de renda e outras informações financeiras dos mutuários para determinar quais são as chances de receberem o dinheiro de volta. Mas na China, os credores também conferem o estado de seus banheiros.

Os credores precisam ser criativos. Com a desaceleração da economia, o governo quer fomentar uma cultura de crédito para que as famílias comecem a gastar ao invés de poupar.

Entretanto, julgar a solvabilidade de quem pega dinheiro emprestado é uma tarefa complicada em um país onde o dinheiro em espécie ainda dita as regras, as fraudes são abundantes e é difícil verificar até mesmo os detalhes mais simples. Apesar do tamanho e da riqueza da China, a maioria das pessoas nunca entrou em uma hipoteca nem usou um cartão de crédito, o que significa que os credores não contam com muitas informações confiáveis sobre seus clientes potenciais.

Para preencher essas lacunas, a startup de empréstimos China Rapid Finance complementa a análise de dados com trabalho de campo. Os investigadores da empresa em mais de 90 cidades conferem o número de escovas de dente e toalhas nos banheiros dos clientes para determinar quantas pessoas vivem na casa. Além disso, veem a quantidade de louça suja na cozinha e também tiram fotos dos potenciais mutuários no trabalho, para confirmar que estão empregados.

Um número crescente de empresas tenta resolver os mistérios do crédito na China. Gigantes da internet como Alibaba, Tencent e Baidu estão desenvolvendo sistemas de ranqueamento de crédito baseados nas transações on-line e no histórico de pesquisa dos clientes. Outro credor de nicho, a Jubao Internet Technology, leva em conta dezenas de variáveis para criar sua fórmula de previsão de crédito, incluindo se os clientes utilizam suas contas em redes sociais para se conectar com celebridades.

“Esse provavelmente é o maior mercado de finanças global ainda não explorado”, afirmou o fundador e executivo-chefe da China Rapid Finance, Zane Wang, que passou anos como gestor de análise de dados da subsidiária de crédito da Sears, a rede varejista norte-americana.

Compreender o crédito é fundamental para os planos econômicos chineses. O governo tenta aumentar o nível de consumo dos cidadãos com o objetivo de contrabalancear o declínio em setores produtivos fundamentais que estavam por trás do crescimento econômico do país. A China precisa aumentar o uso de crédito para facilitar o gasto, sem se deixar afetar pelos problemas que surgem com uma dívida pública grande demais.

As mudanças nas dinâmicas geracionais têm um papel central, à medida que a geração Y da China não vê os mesmos problemas em usar crédito que seus pais viam. Entretanto, os credores também precisam vender os produtos certos.

Ainda que a riqueza do país tenha crescido, o sistema financeiro não acompanhou o ritmo.

Muitos consumidores ainda não têm acesso a cartões de crédito, empréstimos, e outros produtos tradicionalmente oferecidos pelos bancos. O Banco Mundial estima que 79 por cento da população chinesa com mais de 14 anos têm conta em banco, ao passo que apenas 10 por cento já fez algum empréstimo no sistema financeiro formal.

Os bancos chineses emprestam pouco dinheiro para os consumidores. Em geral, as instituições preferem fazer grandes empréstimos para estatais.

Por isso, empresas que oferecem empréstimos pela internet estão surgindo como pioneiras, oferecendo produtos para a classe consumidora emergente da China. A afiliada financeira do Alibaba realiza pequenos empréstimos para consumidores e vendedores de sua plataforma de e-commerce. A JD.com oferece empréstimos para pequenas compras e gastos com educação. Além disso, outras startups unem investidores a consumidores e pequenas empresas, criando esquemas de empréstimo direto.

Essas empresas estão tentando atrair a próxima geração de consumidores, como Mao Yiting, pesquisadora do escritório de antiguidades local, na cidade de Haining.

Mao, de 27 anos, nunca teve cartão de crédito nem fez empréstimos. Entretanto, ela frequentemente empresta pequenos valores de no máximo US$ 90 na Huabei, uma financeira criada pela Ant Financial, afiliada do Alibaba. Ela utiliza o dinheiro para pagar compras on-line, como livros, comida para cachorro, ou ingredientes para as sobremesas que ela gosta de preparar.

“Sempre pago em dia meus débitos com a Huabei”, afirmou Mao, que paga em prestações. “É mais conveniente que os cartões de crédito do banco”.

Contudo, os empréstimos na China ainda tem aquele ar de velho-oeste, tanto para os credores, quanto para quem pega dinheiro emprestado.

As plataformas de empréstimo direto se mostraram extremamente populares no país, com empréstimos pendentes na casa dos 600 bilhões de yuans (cerca de US$ 90 bilhões), de acordo com números da Moody’s Investors Service e da Wangdaizhijia. Contudo, a reputação do setor foi manchada por escândalos como o colapso da Ezubao, chamada pelas autoridades de uma pirâmide de US$ 7,6 bilhões.

Depois disso, as agências regulatórias passaram a supervisionar mais de perto as empresas de empréstimo on-line, incluindo o estabelecimento de limites nos empréstimos. O controle mais rigoroso é “como um pastor que traz seu rebanho para espaços cada vez menores”, afirmou Mark Natkin, fundador e diretor-executivo da Marbridge Consulting, com sede em Pequim.

Os credores também estão se metendo em um buraco negro financeiro, com pouco ou nenhum histórico financeiro de quem quer pegar dinheiro emprestado.

Nos Estados Unidos, as três grandes empresas de proteção ao crédito – Equifax, Experian e TransUnion – compilam os registros de empréstimo e pagamento. As instituições financeiras contam com esses dados para tomar decisões.

A China não tem nenhum equivalente direto. A principal base de dados do banco central inclui dados do histórico de crédito de menos de um terço da população do país.

“Se comparado com a base de consumidores, ainda há muito espaço para crescer”, afirmou Paul Wang, um dos fundadores e executivo-chefe da Happyfi.com, uma startup de Xangai que orienta credores on-line sobre gestão de risco.

Sem um repositório de informação mais completo, o setor procura novas formas de preencher essas lacunas.

A empresa de empréstimos on-line, WeLab, usa dados coletados em smartphones, com a permissão dos usuários, para processar automaticamente milhões de detalhes sobre os hábitos on-line e off-line de quem deseja pegar dinheiro emprestado. Para decidir se o dinheiro deve ser emprestado, os dados se tornam granulares: por exemplo, a hora do dia em que o pedido é feito. Pedidos feitos entre 1 e 6 da manhã têm maior correlação com inadimplência, de acordo com Simon Loong, fundador e executivo-chefe da WeLab.

“Conseguir acesso mais eficiente a empréstimos baratos ainda é uma forma fundamental para que as pessoas melhorem sua qualidade de vida”, afirmou Loong, banqueiro veterano cuja startup conta com o financiamento do bilionário de Hong Kong Li Ka-shing, além da Sequoia, investidora de risco do Vale do Silício.

A China Rapid Finance conta com dados de transações e outros registros de dezenas de empresas on-line, incluindo a Baidu e a Tencent. A empresa utiliza os dados para alimentar algoritmos que identificam potenciais clientes.

Com base nessa informação, primeiro a empresa oferece pequenos empréstimos pré-aprovados com o objetivo de criar um histórico. A China Rapid recentemente firmou uma parceria com a plataforma de mensagens QQ, da Tencent, para oferecer empréstimos de US$ 75.

Depois que um cliente paga vários desses empréstimos, a empresa passa a oferecer valores maiores. Nesse ponto, os investigadores entram em ação para analisar mais a fundo o perfil dos clientes.

Segundo a empresa, um cliente potencial desejava emprestar 100.000 yuans por 18 meses com taxa de juros anual de 2,89 por cento. O cliente, um homem solteiro de 28 anos de Changchun, queria o dinheiro para reformar a casa.

O empréstimo não foi aprovado. Durante a inspeção, a empresa descobriu que o cliente havia passado apenas três noites na casa que ele afirmava ser sua. A empresa em que ele dizia trabalhar não tinha registro de sua existência.

“Precisamos de um mecanismo para checar e verificar”, afirmou Wang, do China Rapid Finance. “Precisamos começar de algum lugar”.

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