O debate racial vai às urnas

Poderia ser o domingo sangrento de Selma, na primavera de 1965, mas foi um terça-feira qualquer em Baton Rouge, no verão de 2016. O vendedor de discos Alton Sterling, um homem negro, foi assassinado na madrugada do dia 5 por policiais, em frente a uma loja de conveniência. As câmeras portáteis dos agentes estavam desligadas, mas vídeos registrados pelo estabelecimento se espalharam. Como foi apenas o mais recente episódio de violência policial contra negros, a reação se espalhou pelo país.

Em Dallas, de forma drástica. Na noite de quinta-feira 7, 12 policiais foram baleados por um franco-atirador. Cinco morreram. A polícia informou que o atirador também está morto, e que as investigações mostram que seu único objetivo era “matar brancos”. O racismo, como se vê, ainda mata.

A quatro meses das eleições presidenciais, as mortes viraram a grande pauta política dos Estados Unidos. O presidente Barack Obama precisou fazer dois pronunciamentos à nação num intervalo de poucas horas. Primeiro, para condenar a violência policial – uma consequência de “uma questão maior de disparidade racial que existe no sistema judicial”. Depois, para lamentar as mortes “totalmente injustificadas” de policiais.

O tema já vinha ganhando peso na agenda dos candidatos à Casa Branca este ano por causa da enorme língua do empresário Donald Trump, que não se cansa de fazer comentários racistas de todo tipo. Trump defende a construção de muros contra mexicanos, veto à entrada de muçulmanos, deportações, vigília constante nas mesquitas e já afirmou que odeia quando negros contam seu dinheiro.

No início do último mês, o republicano causou polêmica ao declarar que Gonzalo Curiel, juiz responsável por investigar irregularidades no caso da Universidade Trump, tomaria decisões desfavoráveis a ele simplesmente pela descendência hispânica do magistrado. O episódio foi chamado de “ataque racista” pela candidata republicana Hillary Clinton, e rendeu críticas severas dos próprios republicanos – sobretudo do líder da Câmara dos Deputados, Paul Ryan.

Não à toa, a popularidade do republicano entre as minorias étnicas americanas é baixa: uma pesquisa do jornal Washington Post e da rede de televisão ABC em junho mostrou que apenas 9% dos negros e 11% dos hispânicos entrevistados veem Trump de forma favorável (a porcentagem sobe para 43% entre os brancos). Enquanto isso, Hillary tem reputação positiva para 78% dos negros e 70% dos hispânicos, mas apenas 31% dos brancos têm visão favorável sobre a candidata.

Eleições anteriores já mostraram que os candidatos republicanos, no geral, possuem popularidade baixa entre as minorias. Em 2008, apenas 4% dos negros e 31% dos hispânicos votaram em John McCain na disputa com Obama. Quatro anos depois, os números foram igualmente decepcionantes para Mitt Romney, que obteve 27% dos votos de hispânicos e 6% do eleitorado negro.

Obama e o racismo

Negros e brancos americanos têm direitos iguais perante à lei há apenas 50 anos. A eleição de Obama, na visão de um enorme grupo de analistas, seria um símbolo da tolerância, para mostrar que debates sobre raça não seriam mais determinantes. Graduado em Ciências Políticas por Columbia e em Direito por Harvard, Barack Obama evitava falar sobre racismo em seus discursos, mas ninguém achou isso um problema até sua eleição.

“A maioria dos negros pensava que Obama iria mudar as coisas significativamente – e o amaram”, afirma o sociólogo Eduardo Bonilla-Silva, phD em segregação racial na Universidade Duke. “Porém, alguns críticos argumentavam que seu comprometimento com a política tradicional indicava que ele não entraria muito nas questões raciais e de classe.” Acertaram.

Obama foi eleito, reeleito, mas fez muito pouco pela população negra em seus oito anos de governo. Aos latinos, Obama havia prometido uma reforma na imigração em seu primeiro ano de governo, mas não cumpriu. Pelo contrário: acabou deportando mais imigrantes do que George W. Bush.

Agora, ambas as questões chegaram a momentos críticos. Houve pelo menos nove casos emblemáticos de abusos policiais de julho de 2014 até agora, que levaram a população negra às ruas. Nos primeiros cinco meses de 2015, a polícia matou 385 pessoas, mais de duas por dia, com uma taxa de vítimas negras três vezes maior que a de brancas.

A questão dos imigrantes é outro ponto crítico. Há cerca de 11,4 milhões de imigrantes sem documentação vivendo nas sombras nos Estados Unidos. “O crescimento da desigualdade e da pobreza nos Estados Unidos faz muitos americanos culparem os imigrantes por estarem roubando seus empregos, em vez de culpar o governo”, diz Rebecca Watts, pesquisadora do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas (CEPR). “Donald Trump está jogando com esses medos e frustrações.”

Num livro recém-lançado, White Rage: The Unspoken Truth of Our Racial Divide (algo como Ódio Branco: A Verdade Oculta de Nossa Divisão Racial), Carol Anderson, uma professora de estudos afro-americanos da Universidade Emory diz que o ódio dos brancos faz parte da construção dos Estados Unidos, e que agora ganha força com a ascensão social e econômica dos negros.

As cores da América

No dia-a-dia, a discussão de raças, obviamente, vai muito além de brancos versus negros. Outra obra recém-lançada, The End of Christian America (O Fim da América Critã) mostra que, desde que Bill Clinton assumiu, em 1993, o número de americanos que se consideram brancos e protestantes caiu de 51% para 32%.

Uma pesquisa do Pew Research Center mostra que, entre outubro de 2015 e janeiro de 2016, o número de imigrantes pedindo por cidadania foi o maior dos últimos quatro anos. No dia das eleições, 31% dos cidadãos nas urnas serão hispânicos, negros, asiáticos ou outra minoria racial, contra os 29% de 2012.

As últimas pesquisas raciais realizadas nos Estados Unidos apontam que há mais hispânicos vivendo como americanos do que negros. Em 2014, os que têm ascendência africana somavam 42 milhões ou 13% da população, enquanto que os de origem latina eram 17% – ou 55 milhões.

A contagem oficial do censo é problemática em termos de diversidade. Há apenas seis opções de identificação: branco, negro, ameríndio, asiático, nativo de ilhas do Pacífico, ou mestiços de duas ou mais raças. Por “brancos”, entendem-se todos os árabes, europeus, latinos e os caucasianos. Não à toa, a parcela dos que se declaram brancos no país é esmagadoramente maior: representam 77% das 319 milhões de pessoas que vivem dos Estados Unidos.

Em 2012, o governo criou um programa de proteção que garantia às pessoas o direito de não serem deportadas do país por dois anos. Mais de 700.000 pessoas foram contempladas. Em 2014, foi anunciada uma expansão do plano, que poderia ajudar 5 milhões de pessoas, mas a iniciativa está parada no congresso. O programa também recebe críticas por não apresentar uma solução permanente e por não contemplar nem metade de todos os imigrantes ilegais em solo americano.

Guerra de raças

Há 150 anos a questão racial é um ponto sensível na política americana. Os Estados Unidos, como o Brasil, se criaram como uma nação escravista. Com a expansão da produção de algodão no século 18 e a escravidão ainda forte na América do Sul, o país cresceu economicamente dependente dos escravos, que garantiram a extração de matérias primas e geraram os lucros para impulsionar a expansão industrial.

As eleições de 1860 colocaram Abraham Lincoln no poder, e o debate sobre a escravidão estava em chamas. Em 1862, Lincoln escreveu em sua famosa carta: “Meu objetivo primordial nesta luta é salvar a união, e não salvar ou destruir a escravidão. Se eu pudesse promover unidade sem precisar libertar nenhum escravo, eu o faria; mas se para isso eu precisasse libertar todos eles, eu também o faria”. Em 1865, após uma sangrenta Guerra Civil, a escravidão acabou, mas a igualdade de direitos só veio 100 anos depois.

Nas décadas de 1960 e 1970, o partido republicano, que havia ficado queimado com os brancos após a morte de Abraham Lincoln, adotou um discurso racista. “Na época, o partido afirmava que queria lutar contra um governo nacional exagerado, mas depois admitiu que o objetivo era incitar a animosidade racial para mobilizar eleitores brancos”, diz o professor Alan Singer, especialista em racismo na história americana da Hofstra University.

Durante as décadas seguinte, os republicanos dominaram no norte, enquanto os democratas dominaram o sul. Mas o cenário se inverteu com o democrata Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, que conquistou os estados do norte. De acordo com uma nova pesquisa, publicada em abril pela Associação de Ciência Política Americana, um fator foi crucial para essa virada: a migração interna da população. O sul recebeu muitos imigrantes mexicanos e latinos nas últimas décadas, mas também muita gente do norte do país.

A pesquisa mostra que, nas eleições de 2008 e 2012, enquanto os nativos sulistas tinham tendência de voto de 40% em Obama, 70% dos sulistas criados no norte apoiavam o presidente negro. O estado de Virginia talvez seja mais representativo dessa mudança. A pequena cidade de Manassas Park, pertinho de Washington D.C., historicamente costumava ser dura com os democratas. Michael Dukakis, Bill Clinton, Al Gore, John Kerry: nenhum deles conseguiu maioria na cidade. Porém, quando se candidatou, Obama levou mais de 60% dos votos 2008 e 2012. Ganhar em Manassas Park, para Hillary Clinton, seria um passo enorme para chegar à Casa Branca – e uma rasteira no discurso de ódio racial de seu adversário.

(Camila Almeida) 

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