O FBI vai decidir as eleições?

Lourival Sant’Anna 

“De onde menos se espera, daí é que não sai nada”, ensinava o Barão de Itararé. Mas nada mais inesperado — e contraditório — que as duas intervenções do diretor do FBI, James B. Comey, na corrida presidencial americana. Em julho, Comey, um republicano nomeado pelo democrata Barack Obama, salvou a campanha de Hillary Clinton de uma forma que arranhou a carreira dele, ao anunciar que ela tinha sido “extremamente descuidada” ao usar um servidor de email pessoal quando secretária de Estado americana, mas mesmo assim não devia ser processada. Na sexta-feira, 11 dias antes da eleição, Comey entrou em cena de novo, dessa vez colocando uma espada sobre Hillary, ao enviar uma carta ao Congresso informando que o FBI voltara a investigá-la, depois de encontrar emails dela no computador do ex-marido de sua mais próxima assessora.

Comey explicou que não se sabe se entre esses emails — que segundo uma fonte do FBI somam 650.000 — há informações confidenciais, comprometedoras ou mesmo novas. “Não sabemos a significância dessa nova coleção de emails descoberta”, escreveu ao Congresso. E essa incerteza paradoxalmente tornou seu impacto ainda mais destrutivo: Hillary não tem sequer como se defender, já que não sabe do que está sendo acusada.

Donald Trump deliciou-se: “É muito grave, é maior que o Watergate”, tem repetido ele. Hillary exigiu que o FBI apresse a investigação e divulgue logo o que sabe. Mas, por mais que a polícia federal americana conte com programas de rastreamento de palavras e cotejamento de textos para detectar o que é politicamente sensível e o que é repetição dos 30.000 emails que já havia analisado, dificilmente algo substancial será concluído antes da votação do dia 8, avisam fontes do FBI.

O motivo dessa investigação em si não tem nada a ver com Hillary, mas, por isso mesmo, é incrivelmente constrangedor para sua assessora, Huma Abedin, e para a própria candidata. Seu ex-marido, Anthony Weiner, um ex-deputado e mulherengo incurável, foi flagrado trocando mensagens de cunho sexual com uma menina de 15 anos, o que é crime federal. Seu laptop foi apreendido e, com ele, os tais 650.000 emails, incluindo trocas de mensagens de Abedin com Hillary e a equipe de campanha. Abedin já havia se separado de Weiner em agosto, quando o jornal The New York Post divulgou imagem enviada por ele para outra mulher, exibindo sua virilha, ao lado do filho do casal, Jordan, de 4 anos. Em 2013, seu mandato de deputado e sua candidatura a prefeito de Nova York já tinham sido arruinadas por um escândalo semelhante.

A assessora diz que não entende como os emails dela foram parar no computador do ex-marido — o que comprova a tese dos críticos de Hillary, de que mensagens foram trocadas entre a ex-secretária de Estado e seus assessores sem um mínimo de segurança. Obcecada por privacidade, Hillary optou pelo servidor pessoal, com um provedor instalado no porão de sua casa em Chappaqua (Nova York), aparentemente para escapar do escrutínio do governo e da Lei de Acesso à Informação, frequentemente acionada por jornalistas. Com isso, acabou, ironicamente, desprotegida da criptografia empregada pelos órgãos do governo.

Pesquisa encomendada pela rede de TV ABC e pelo jornal The Washington Post indica que 63% dos eleitores inclinados por Hillary não vão mudar seu voto por causa desse novo escândalo, enquanto 34% reconhecem que o caso diminui as chances de votarem nela; 2% dizem que isso reforça seu apoio a ela e 1% não souberam dizer. Em uma disputa que voltou a ficar acirrada nos últimos dias, esse impacto aparentemente modesto na verdade conta muito. Na série histórica da mesma pesquisa, em uma semana, a vantagem de Hillary sobre Trump caiu de 12 para 1 ponto, depois da carta de Comey.

A reação dos democratas mostra o receio que o caso provoca quanto ao impacto sobre a candidatura de Hillary. Eles afirmam que o diretor do FBI está interferindo na campanha presidencial — uma acusação semelhante à que os republicanos fizeram contra ele, em julho, quando Comey, vice-procurador-geral no governo do republicano George W. Bush, recusou-se a pedir a abertura de processo contra Hillary.

Na noite de domingo, o deputado democrata Steve Cohen, membro do Comitê do Judiciário da Câmara, exigiu a renúncia do diretor do FBI. “Ele deveria saber, qualquer um deveria saber e o Departamento de Justiça sabia, que isso produziria um resultado escandaloso e prejudicial ao processo americano das eleições”, disse Cohen à CNN. “Ele foi longe demais.” À pergunta sobre se o caso poderia levar à derrota de Hillary, o deputado respondeu: “Acho que pode, sim”. A própria Hillary declarou, em seguida à divulgação da carta de Comey ao Congresso: “É muito estranho publicar isso com tão pouca informação pouco antes da eleição. É sem precedentes e profundamente perturbador”.

Quem ficou numa posição delicada foi o presidente Barack Obama, a quem o diretor do FBI está subordinado. “Não vou defender nem criticar o que o diretor Comey decidiu comunicar ao público sobre essa investigação”, disse o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest. À pergunta sobre se achava que Comey estava tentando beneficiar Trump, o porta-voz respondeu que não. “O presidente acredita que é importante que as normas, tradições e diretrizes sejam seguidas”, ressaltou, no entanto, referindo-se à prática do FBI de não divulgar informações sobre investigações em andamento que possam interferir em um processo eleitoral.

A queixa dos democratas é a de que Comey rompeu essa tradição. E também que não está dando a mesma visibilidade às investigações do FBI sobre a ação de hackers russos no vazamento de emails de Hillary, e uma suposta ligação entre Trump e o regime de Vladimir Putin. Fontes do FBI informaram ter identificado o mesmo tipo de programas usado em outras invasões de bancos de dados, feitas por hackers a serviço do Kremlin. “Não sei como o diretor Comey justificará sua decisão de reter as informações sobre Trump enquanto anuncia publicamente passos investigativos sobre sua oponente apenas dias antes da eleição”, disse o líder da bancada democrata no comitê da Câmara que supervisiona os órgãos do governo, Elijah Cummings. E o líder da minoria democrata no Senado, Harry Reid, escreveu uma carta no domingo na qual afirma que Comey pode ter violado a lei.

As pontas soltas de Hillary 

O caso traz à tona uma das principais vulnerabilidades de Hillary. Associada ao uso do servidor privado de emails está a acusação de que ela usou o cargo de secretária de Estado para favorecer doadores da Fundação Clinton e de suas próprias campanhas. O site Wikileaks vazou emails no qual assessores de Hillary, incluindo Abedin, trocam mensagens sobre pedidos de acesso ao Departamento de Estado por parte de doadores. Além disso, transcrições de palestras de Hillary para bancos, em emails de John Podesta, ex-assessor dela no Departamento de Estado e atual chefe de sua campanha, sugerem posições muito mais favoráveis ao mercado financeiro do que as que ela assume publicamente. Em uma dessas palestras, no Goldman Sachs, em outubro de 2013, ela diz que tem “ótimas relações” com os banqueiros, chama-os de “as pessoas mais inteligentes”, e sugere que eles é que devem tirar as conclusões sobre o que deu errado e precisa ser mudado no mercado financeiro, depois da crise de 2008.

Noutra palestra, em maio de 2013 no Banco Itaú, Hillary diz: “Meu sonho é um mercado comum hemisférico, com comércio aberto e fronteiras abertas, em algum momento no futuro com energia que seja tão verde e sustentável quanto possamos conseguir, impulsionando o crescimento e a oportunidade para todas as pessoas no hemisfério”. A palavra “hemisfério” se refere às Américas. Hillary havia deixado o cargo de secretária de Estado quatro meses antes. Nessa campanha, ela teve de assumir uma atitude defensiva em relação ao livre comércio, diante das investidas de Trump e do rival dela nas primárias democratas, Bernie Sanders, que atribuem a queda na qualidade do emprego à exportação de indústrias supostamente causada pela redução das tarifas alfandegárias. E Trump também ganhou apoio condenando a imigração.

No último debate, dia 19, Hillary explicou: “Eu estava falando sobre energia. Você sabe, comercializamos mais energia com nossos vizinhos do que com o resto do mundo somado. E quero que tenhamos uma rede elétrica, um sistema de energia que atravesse fronteiras. Acho que será um grande benefício para nós”.

Trump tem batido na tecla de que Hillary recebe doações de bilionários como ele, que se beneficiam das brechas no sistema tributário que ela critica, e de uma relação promíscua com o governo em Washington, que ele condena. Como um outsider da política, Trump se apresenta como defensor dos interesses dos cidadãos comuns, frente ao lobby das grandes corporações.

Levantamento do jornal Washington Post mostra que a campanha de Hillary, juntamente com os comitês de arrecadação democratas, receberam 1,14 bilhão de dólares em doações até setembro, enquanto Trump obteve 712 milhões de dólares (dos quais, 56 milhões repassados por ele próprio). Entre esses doadores se destacam: Donald Sussman, controlador de fundos de hedge (20,6 milhões de dólares); Jay Robert Pritzker, investidor de risco (16,7 millhões); Haim Saban, presidente da rede de TV Univision (11,9 milhões); o megainvestidor George Soros (9,9 milhões); e Daniel Abraham, criador do programa de dieta SlimFast (9,7 milhões).

Somando as doações às duas campanhas presidenciais de Bill Clinton, às duas de Hillary ao Senado e mais a sua disputa das primárias democratas em 2008 (em que foi derrotada por Obama), o casal recebou outros 888 milhões de dólares. Já a Fundação Clinton, que faz trabalhos de assistência social em todo o mundo, levantou 2 bilhões de dólares. Assim, os Clintons, juntos, representam a fantástica soma de 4 bilhões de dólares em contribuições.

O interessante é que, em se tratando de democratas, que estão mais à esquerda no espectro político americano, são doadores com sentimentos de culpa. “Eu preferiria que os limites de doação fossem muito menores, mas é assim que é”, disse Abraham, de 92 anos, ao Post. Ele fez 26 contribuições ao casal Clinton desde 1994. Já Sussman afirma ser um defensor do financiamento público de campanha, e que apoia Hillary porque acha que essa medida tem mais chances de ser adotada com ela na presidência. “É muito estranho dar milhões quando seu objetivo é na verdade tirar o dinheiro da política”, admite ele.

Contradições e ambivalências não faltam nessa corrida presidencial. Até o Barão de Itararé ficaria atônito.

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