Obama: vale-tudo por legado

Rafael Kato

Flórida, Carolina do Norte, Michigan, New Hampshire e Pensilvânia. Cinco estados decisivos para a eleição americana e todos, sem exceção, receberam a visita de Barack Obama, o maior cabo eleitoral de Hillary Clinton, nos últimos quatro dias. Virou clichê afirmar que a eleição americana deste ano é histórica — afinal, hackers russos, acusação de ataques sexuais, um candidato xenófobo e uma candidata com e-mails vazados não se encontram facilmente por aí —, mas a participação ativa de um presidente no exercício do seu mandato na corrida eleitoral é, definitivamente, algo incomum na vida política americana. Ainda mais se levarmos em conta que a primeira dama Michelle Obama, foi tão ativa quanto.

Poucas vezes se viu um presidente discursar e viajar tanto em prol de um sucessor. O papel de Obama nessas eleições se devem a dois fatores: a tentativa de transferir sua popularidade e carisma para Hillary Clinton e, em segundo lugar, garantir o seu legado político.

Na história recente, os candidatos da situação evitaram colar a imagem no presidente. Em 2008, George W. Bush tinha pouco mais de 30% de aprovação. Motivo mais do que suficiente para o então candidato republicano John McCain evitar qualquer aparição ao lado do então presidente. História similar aconteceu na campanha de 2000, quando Al Gore temia que o escândalo Lewinsky pudesse respingar em sua candidatura. O The New York Times, naquele momento, chegou a reportar que Al Gore não atendia nem mesmo as ligações de Bill Clinton.

Mas se é possível transferir popularidade ao candidato, então por que não sair em campanha? O republicano Ronald Reagan trabalhou ativamente para a eleição de Bush-pai em 1988, então vice-presidente. Entre a convenção do partido e o dia da eleição, Reagan fez 29 discursos —em comícios e em jantares de arrecadação ­— em prol de Bush. Só não fez mais porque havia uma preocupação de que sua popularidade — então quase 70% naquele ano — e sua ótima retórica pudessem ofuscar o candidato.

Até por não dispor dos mesmos números de Reagan, Obama, com 56% de aprovação, pode ter passado do ponto no seu apoio a Hillary na visão de um número crescente de analistas. Um exemplo, se deu em julho. Ao se dirigir para um comício em defesa de Hillary, Obama deu uma “carona” para a candidata no Força Aérea Um, o avião oficial. Nunca antes na história isso havia acontecido. É esperado que presidente e candidato cheguem aos eventos separadamente, pois sempre se evitou ao máximo a impressão de que a máquina do governo trabalha em prol da situação. “Por que o presidente Obama é autorizado a usar o Força Aérea Um na campanha com Hillary? Quem paga por isso?”, perguntou o adversário Donald Trump no Twitter na época.

Toda vez que Obama está em campanha por Hillary parte dos gastos precisam ser pagos pelo comitê da candidata, como determina uma lei criada no governo Reagan. O custo operacional do avião por hora de voo é de 180.000 dólares, no entanto o reembolso é feito levando em consideração o quanto custaria um voo charter — fretado — ou uma passagem em primeira classe para todos os envolvidos na viagem. Portanto, muito mais barato que os custos reais da aeronave.

Trump teria razão de reclamar de outro gasto não contabilizado: o fortíssimo esquema de segurança que protege Barack Obama. “Você tem o presidente, a primeira-dama, e o vice-presidente, e eles estão todos sob proteção do Serviço Secreto. É um custo que é absorvido pelos contribuintes”, disse Emily Thoemke, que trabalhou na campanha de John McCain.

Para Obama, no entanto, as viagens são mais do que eventos de campanha, são obrigações para manter seu legado vivo. “A opinião do presidente é que as apostas nas eleições são altas não apenas em termos de determinar quem ocupará o Salão Oval nos próximos quatro anos, mas quanto o sucessor do presidente Obama avançará sua agenda”, afirmou na semana passada Josh Earnest, secretário de imprensa da Casa Branca.

Motivos não faltam para a preocupação do democrata. A equipe de Trump trabalha para por em prática — caso vença a eleição — o projeto First Day (primeiro dia, em inglês). A ideia é que, em poucas horas, Trump assine papéis, decretos e regulamentações para apagar o legado de Obama.

Curiosamente, Trump se inspira na primeira semana de Ronald Reagan, que assinou decretos desregulando o mercado de energia logo no primeiro dia no cargo.

Só que as medidas do empresário teriam efeitos muito mais nefastos. Entrariam na lista de Trump o fim do acordo climático de Paris, a suspensão do programa de refugiados e o início de uma guerra comercial com a China. Perspectivas que arrepiam. Resta saber se a tentativa de transferência de popularidade de Obama — mesmo com ônus ao contribuinte americano — irá ser capaz de barrar esse futuro.

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