Os brasileiros na torcida por Trump

Lourival Sant’Anna, de Washington

As posições de Donald Trump contra imigrantes poderiam sugerir que os brasileiros e outros estrangeiros nos Estados Unidos seriam unanimemente contra ele. Mas não é assim. A maioria dos imigrantes — 67%, segundo pesquisa de boca-de-urna do instituto Edison Research — de fato votou em Hillary Clinton, mas uma minoria expressiva de 28% optou por Trump. Entre eles, muitos brasileiros. E as razões são as mesmas dos eleitores americanos: economia, aborto, rejeição aos políticos… e até imigração. Depois de terem feito o percurso da legalização, muitos imigrantes acham que não é justo que outros estrangeiros fiquem ilegalmente no país.

O carioca Ricardo Montezuma, de 54 anos, há 30 nos Estados Unidos, veio pela primeira vez assistir à posse de um presidente americano, de Waldorf, Maryland, onde mora, a 45 minutos de carro de Washington. Dono de uma pequena empresa de transporte de cargas, sua opção inicial era o senador ultraconservador texano Ted Cruz, pré-candidato derrotado por Trump nas primárias republicanas (assim como 15 outros postulantes, entre os nomes mais importantes do partido). “Acho que ele é confiável. A mensagem dele está bem em linha com o que um grande setor dos americanos está querendo ver na direção do país”, justifica Montezuma.

Sua preocupação central é a preservação da Constituição americana, “manter a integridade de um documento tão bem formulado, para a garantia de um povo seguro, livre”, diz ele, refletindo a visão de muitos eleitores de Trump. Eles levam em conta que o novo presidente escolherá imediatamente um juiz para a Suprema Corte e possivelmente outros dois, em razão de suas idades. Diferentemente de Trump, Montezuma é favorável ao direito ao aborto. Tem “pavor” de armas, mas respeita “o direito de outros de terem as suas paixões de praticar esportes ou para a proteção”. Trump teve o apoio da Associação Nacional de Rifles, o lobby pró-armas.

“A imigração ilegal afeta o povo americano e quem vive aqui”, analisa o empresário brasileiro. “Acho que o foco deveria ser manter as leis que já existem. Com toda a minha experiência nesse país, com as leis, eu achei que isso funciona da melhor maneira possível. Da maneira legal você tem como fazer tudo como manda o figurino. Não há necessidade de descumprir a lei.”

Com relação à economia, o empresário descreve os últimos oito anos como “uma estagnação completa, muita insegurança financeira e imprevisibilidade, e quem tinha dinheiro estava segurando”. Ele acrescenta, seguindo um ponto de vista comum a muitos brasileiros e outros estrangeiros atraídos pelo chamado sonho americano: “A filosofia republicana tem a ver com a minha maneira de viver, de pensar sobre o mundo em que eu vivo. Acho que a pessoa tem que ser autônoma, disposta a correr atrás, garantir seu próprio sustento e ser livre”.

A fotógrafa Karla Mathews, de 26 anos, mudou-se de São Paulo para os Estados Unidos em 2008, e mora em Bloomington, Indiana. “Eu geralmente não voto por partido político”, explica ela. “Mas minha ideologia política é mais de centro-direita.” Sua prioridade é a proibição do aborto, defendida por Trump. Embora tenha fé, Karla explica que não adotou essa posição por religião, mas por uma convicção pessoal: “Minha filha nasceu com 27 semanas (em vez de 40) e eu não conseguia entender como que no mesmo hospital que eles estavam abortando um bebê de 24 semanas, estavam fazendo de tudo para salvar a minha também com 24 semanas”.

Karla, casada com um americano, mãe de uma filha de três e um filho de um ano, diz que é “completamente contra o aborto em qualquer situação, a não ser que seja confirmado que a vida da mãe depende” da retirada do feto. “Por isso eu teria votado em qualquer candidato que fosse contra o aborto.” Ela ressalta que sabe que “Trump mudou de ideia sobre o assunto muitas vezes com o passar dos anos”, mas levou em consideração a plataforma atual que ele apresentou.

“Além disso, sou uma imigrante legal e sei bem o trabalho que deu para fazer tudo direitinho e legalmente. Por isso eu preferi a posição dele com relação à imigração”, continua a fotógrafa. “Eu tenho compaixão por imigrantes ilegais e entendo a complexidade com relação às familias”, disse ela, referindo-se aos parentes não-documentados de imigrantes legais, que correm o risco de ter suas famílias separadas. Karla diz que teria provavelmente votado em Bernie Sanders, o senador de esquerda que disputou as primárias democratas, se não fosse a posição dele favorável ao aborto, como a de Hillary.

Muito trabalho

Uma empresária paulistana que mora há nove anos nos Estados Unidos, e que pediu para não ser identificada, para não se envolver em polêmicas nas redes sociais, diz que não gostou do fato de haver um compromisso de antemão dos democratas de que Hillary seria a candidata, depois de Obama. A empresária, que estudou jornalismo em São Paulo, acha que a mídia tem sido hostil a Trump, e “tenta manipular a opinião das pessoas”.

Como mulher, ela não se convenceu das acusações contra Trump de assédio sexual. “Se ele maltratasse mulher não teria tido tantas mulheres”, raciocina, referindo-se ao fato de o presidente estar no terceiro casamento. “Eu sofri assédio sexual. Os comentários que ouvi perto do que ele fez não são nada. Homem brasileiro não tem moral para falar de assédio sexual.” Ela observa que assédio é crime nos EUA, e quem o comete vai preso. Ela diz que é contra o feminismo, e rejeita a pressuposição de Hillary de que todas as mulheres tinham de votar nela, só por ser mulher.

A brasileira acha também que a experiência de Hillary como política não a beneficiou. Pelo contrário: “O que ela fez nesses anos todos? A história dela não é positiva, a começar pela Fundação Clinton, que tem muitos problemas”, acredita a empresária.

Em contrapartida, o fato de Trump não ser político contribuiu para sua vitória, considera ela. “O fato de ele ser um empresário ambicioso também é positivo. Ele não é um playboy. É workaholic, não para. Ninguém chega aonde ele chegou sem muito trabalho.”

Ela lembra o escândalo causado pela reportagem do jornal The New York Times segundo a qual Trump sonegou impostos. “Eu como empresária consegui enxergar: se o governo cria regras que dão ao empresário o direito de deduzir impostos, por que ele, orientado por profissionais, não vai tirar vantagem disso, como qualquer empresário faz? Porque um dia seria candidato a presidente?”

Assim como os outros entrevistados, ela diz que entrou nos EUA de forma legal, pagou advogado e universidade para provar que podia ficar no país, e se casou com um americano. “Paguei todas as taxas e acho que todos deveriam fazer isso. Os outros são melhores que eu? Vivemos numa sociedade com regras.” Ela lembra que a preocupação de Trump com os imigrantes está associada à insegurança: “Pense quantos criminosos estão entrando nos EUA de forma ilegal e não temos controle. Isso é super sério”.

A fatia de 66% dos votos latinos, que Hillary obteve, foi praticamente a mesma que a de Obama em seu primeiro mandato, em 2008, 67%, mas menor do que na sua última eleição, em 2012: 71%. Em contrapartida, Trump, com 28%, teve praticamente o mesmo desempenho do candidato republicano em 2012, Mitt Romney, apoiado por 27% dos latinos, enquanto que John McCain se saiu melhor em 2008, com 31%. Considerando a agressividade de sua campanha contra os imigrantes, é uma apoio notável.

De acordo com pesquisa de boca-de-urna da emissora de TV NBS, nem todos os eleitores latinos — 68% — se opõem ao plano de Trump de construir um muro na fronteira com o México. E 78% afirmam que os imigrantes ilegais deveriam ter uma chance de entrar com pedido para regularizar sua situação nos EUA.

Entretanto, o tema da imigração está em terceiro lugar entre as prioridades dos latinos. Para 46%, o mais importante é a economia, seguida pelo terrorismo (20%), imigração (19%) e política externa (11%). Trump venceu — pelo menos no Colégio Eleitoral — porque representou uma resposta melhor para o que realmente aflige muitos eleitores. Incluindo brasileiros.

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