Os democratas contra a parede

Camila Almeida 

Os resultados (quase) finais da contagem dos votos deixaram nos democratas um gosto ainda mais amargo na boca. Apesar de ter perdido a corrida pelos delegados, Hillary está levou vantagem no voto popular. A apuração deve terminar com 47,8% dos eleitores preferindo a democrata, ante 47,3% ao lado de Trump – uma diferença de 570.000 votos. Ao discursar sobre a derrota, Hillary disse que “isso é doloroso, e vai ser por muito tempo”. Após oito anos no poder, os democratas entregam o país a um dos maiores azarões da história da política americana. De quebra, os republicanos comandarão também o Senado e a Câmara, com o maior número de cadeiras desde 1928, somando 247 deputados.

Nos Estados Unidos, é comum que os partidos se alternem na presidência – e os republicanos até levam vantagem, na história recente, quando o tema é eleger o sucessor. Os democratas só conseguiram manter a presidência em duas tragédias: quando John Kennedy morreu, e seu vice Lyndon Johnson foi eleito em 1964, e na eleição de Harry Truman, que também assumiu após a morte de Franklin Roosevelt, em 1945.

Desde as eleições de 2008, cerca de 60 milhões de republicanos comparecem às urnas para votar a cada eleição. O número de democratas, porém, só fez cair. Na primeira eleição de Obama, 70 milhões votaram, contra 66 milhões em 2012 e até chegar a menos de 60 milhões este ano. A falta de apelo popular é motivo de preocupação dentro do partido e, agora, analistas e eleitores americanos começam a se perguntar qual o futuro dos democratas após tantas derrotas nesse 8 de novembro. Um ponto é claro: o partido precisa se reinventar e se unir se quiser chegar mais forte nas próximas eleições.

Durante as primárias, processo que define o candidato a ser nomeado pelo partido, duas correntes ideológicas se apresentaram: a de Bernie Sanders, mais à esquerda e com propostas sociais mais progressistas, e a de Hillary, mais apegada ao discurso da tradição política e da continuidade, com a vantagem do sobrenome de um bem quisto e influente ex-presidente. Para a socióloga Heather Gautner, PhD em sociologia política da Universidade Fordham, a candidata escolhida, em nenhum momento, se mostrou a melhor opção para o partido. “Bernie Sanders chegou a abrir uma média de 10 pontos de vantagem em relação a Trump, e se mostrou em vários momentos mais ousado e competitivo em termos de propostas”, afirma.

De acordo com o portal de previsões RealClearPolitics, no início de junho, quando foram definidas as primárias, de fato o candidato que clamava pela “revolução política” parecia ser mais promissor e consistente: ele agradava 49,7% dos eleitores, contra 44% de Hillary, e tinha maior margem de vitória em relação a Trump. Claro que, ao longo dos meses mais intensos de campanha, sua base de simpatizantes certamente mudaria.

O professor Matthew MacWilliams, PhD em ciência política da Universidade de Massachusetts acredita que há, como vem sendo dito desde a derrota, um problema de interlocução. “Hillary tem problemas para se conectar com as pessoas – e ela mesma admitiu que tem essa dificuldade. Acho que ela sabe o que precisa fazer e é brilhante em termos de políticas, mas tem dificuldade de se expressar. É como o professor que sabe demais e deixa os alunos entediados”, apontou.

O perfil enigmático de Hillary, de fato, se mostrou complicado ao longo da campanha. Pipocaram escândalos em relação aos e-mails profissionais que ela trocou de sua conta privada, enquanto secretária de Estado da gestão Obama. O FBI reabriu inquérito, no meio da corrida eleitoral, para investigar que tipo de informações sigilosas poderiam estar sendo trocadas sem que o governo tivesse controle. Nada grave foi confirmado, mas ela teve que se explicar por outras polêmicas. Documentos vazados ao WikiLeaks apontaram que o partido democrata favoreceu Hillary em vez de Sanders nas primárias, por meio de repasse de informações privilegiadas à candidata antes de um debate. Ela também nunca conseguiu convencer o eleitor comum que os projetos de sua fundação e as palestras a grandes bancos e empresas não a impediam de concorrer à presidência.

“Com essa derrota, há dois lados que saem fortalecidos destas eleições: a extrema direita republicana e a extrema esquerda democrata”, diz o economista Matthew Gentzkow, PhD em mídia e política e professor da Universidade Stanford.

Uma boa notícia, para o partido, é um princípio de renovação. Três mulheres de ascendências diversas foram eleitas para o senado: uma de raízes latinas, outra asiática e outra africana. A capacidade de emplacar representantes de mulheres e minorias raciais na política parece, neste momento, uma possibilidade de renovação para o partido, com caminho aberto para conquistar mais eleitores e formar lideranças mais diversas.

Gentzkow conduziu uma pesquisa este ano que apontou que os discursos estão cada vez mais partidários. Em parceria com um estatístico e mais um economista, desenvolveram um algoritmo capaz de identificar se um minuto de discurso no Congresso era republicano ou democrata. Ao longo de 135 anos de dados disponíveis, entre 1872 e 2009, a chance do computador acertar o partido era de 55%. Porém, num recorte mais curto, a partir de 1994, o nível de acertos subiu para 83%.

O que mudou? De acordo com o estudo, o partido republicano investiu em consultoria para entender que palavras ressoavam melhor entre os eleitores. As estratégias foram traçadas por um dos líderes republicanos no Congresso, Newt Gingrich. Pouco depois, os democratas seguiram o mesmo rumo. “Não à toa, os eleitores têm sentimentos cada vez radicais em relação a quem está do outro lado”, afirma Gentzkow. “Nestas eleições, vimos pessoas defendendo com muito engajamento o partido que preferem – mesmo com uma crise de representatividade política no mundo e mesmo que os partidos não tenham cumprido uma cartilha coerente com seus ideais”, diz.

Especialmente na economia, os papéis habituais foram trocados entre democratas e republicanos: enquanto Hillary abraçou (mesmo que com ressalvas) os acordos de livre comércio, Trump defendeu o protecionismo. E, num contexto em que a classe trabalhadora americana permaneceu com a renda estagnada após a recessão, a desigualdade cresce e o medo do desemprego com o aumento da entrada de imigrantes se faz presente, Trump levou vantagem com o eleitor. “Por incrível que pareça, foi a proposta econômica de Trump que o aproximou das camadas mais populares. Enquanto isso, Hillary se mostrou mais alinhada aos banqueiros de Wall Street e acabou sendo vista como a candidata das elites”, diz a socióloga Heather Gautner, de Fordham.

Para ela, o partido democrata vai precisar se reinventar muito rapidamente se quiser garantir a maioria no Senado já em 2018. “A saída, agora, é apostar numa agenda mais autenticamente progressista, para se afastar do tradicionalismo e do elitismo que tanto Hillary quanto Obama representam”, afirma. “A alta popularidade dele é mais porque ele soa bem articulado e eloquente do que por suas políticas. No fim das contas, a classe trabalhadora se sentiu esquecida pelos democratas.” Para o economista Matthew Gentzkow, uma vantagem pode surgir no longo prazo. “O bipartidarismo começa, enfim, a ser questionado. Nestas eleições, as disfunções partidárias ficaram muito evidentes. É possível que, daqui para a frente, outros partidos comecem a surgir e a ganhar força, mantendo agendas mais coerentes”.

Para quem estava com a presidência praticamente assegurada até terça-feira, perder o executivo, o congresso, e ver uma inevitável guinada conservadora na Suprema Corte parece ser o pior dos mundos. Para um partido fundado em 1828 e com 41 milhões de membros, há de ser apenas um tropeço.

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