Por que reagimos diferente aos atentados de Paris e Beirute?

A maioria das pessoas não tem idéia de que uma tragédia semelhante à de Paris aconteceu um dia antes em Beirute, matando 40 pessoas

Depois dos ataques terroristas horrendos em Paris que deixaram pelo menos 130 mortos e 352 feridos no dia 13 de novembro, o mundo se uniu no luto pelas vítimas.

Os ataques – o mais mortais na França desde a Segunda Guerra Mundial – inspiraram uma enorme onda global de tristeza, raiva e solidariedade.

Na Internet, o Facebook lançou uma ferramenta para que os usuários sobrepusessem a bandeira francesa nas fotos do perfil e permitiu que as pessoas que estavam na cidade comunicassem que estavam em segurança.

Hashtags como #PrayforParis e #StayStrongParis se espalharam rapidamente pelas redes sociais.

Enquanto isso, vigílias à luz de velas foram realizadas no mundo todo, e marcos internacionais como o Empire State Building, a London Eye e a Torre de Tóquio foram iluminados com as cores vermelha, branca e azul.

Não demorou muito para que os cidadãos globais começassem a pedir outra oração — não só para Paris, mas para o mundo.

Como a blogueira de Nova Délhi Karuna Ezara escreveu em um post de Instagram que viralizou,

“É um mundo em que Beirute, sofrendo com atentados apenas dois dias antes de Paris, não tem cobertura na imprensa. Um mundo em que uma bomba explode em um funeral em Bagdá e ninguém escreve ‘Bagdá’ em seus posts no Facebook”.

https://www.instagram.com/p/-DmUOwJ0tC/

O médico libanês Elie Fares escreveu em seu blog :

“Quando meu povo morreu, nenhum país se deu ao trabalho de iluminar seus marcos com as cores da nossa bandeira”.

Eles estão certos.

Olhando para a média das timelines do Facebook ou dos sites de notícias, a maioria das pessoas não tem idéia de que uma tragédia semelhante, também cometida pelo Estado Islâmico, ocorreu apenas um dia antes — mas desta vez em Beirute, matando pelo menos 40 pessoas e ferindo mais de 239.

Ainda menos atenção recebeu o bombardeio de um funeral em Bagdá na sexta-feira, matando 18 pessoas.

Na esteira dos atos horríveis de terrorismo, a população do Líbano se pergunta: Onde está a nossa bandeira? Onde está a nossa verificação de segurança do Facebook? Onde está a solidariedade conosco?

Muitos comentaristas falaram sobre a discrepância nas respostas internacionais, citando o racismo e preconceito por parte dos ocidentais.

Sim, isso é preconceito. “A maioria das pessoas nos Estados Unidos nem sequer sabe localizar o Líbano no mapa”, observa a psicóloga da Universidade Stanford Emma Seppälä, diretora científica do Centro de Pesquisas e Educação de Altruísmo e Compaixão, da Universidade Stanford.

Mas quais são as origens desse viés? A psicologia pode lançar alguma luz sobre como podemos demonstrar compaixão em relação a uma crise global, ao mesmo tempo ignorando outra.

Como explica Seppälä, esta “diferença de empatia” ocorre porque é natural sentir mais compaixão para com as catástrofes que afetam pessoas e lugares que nos parecem similares ou familiares, situações e vítimas sobre os quais temos mais informações.

“As pesquisas mostram que sentimos mais empatia pelas pessoas que achamos que são mais parecidas conosco”, disse Seppälä ao The Huffington Post.

“Muita gente já foi para Paris e consegue se imaginar numa casa de shows numa noite de sexta-feira, vendo uma banda americana. Conseguimos nos imaginar naquele lugar. Há muitas razões pelas quais sentimos afinidade por Paris – é muito mais semelhante para nós do que Beirute.”

Não se trata simplesmente do fato de que muitos americanos acham que os franceses têm uma cultura mais semelhante — a influência francesa é muito mais visível para os americanos, por meio da mídia e da exposição cultural.

A discrepância é clara: 1,6 milhões de americanos visitam Paris todos os anos, enquanto o Líbano inteiro recebeu 1,3 milhões de turistas no total no ano de 2013, alguns deles provavelmente americanos.

Isso ajuda a explicar o carinho dos americanos por Paris. Enquanto isso, a falta de conhecimento sobre a cultura e a população de Beirute cria uma espécie de distância psicológica, tornando mais difícil para muitos de nós sentir compaixão pelas vítimas de uma tragédia ocorrida no Líbano.

Mas temos o que fazer a respeito, começando pela cobertura da mídia. Por que Paris é mais familiar que Beirute?

Se lêssemos histórias humanas sobre as vítimas de Beirute, ou se houvesse um maior intercâmbio cultural com os libaneses, talvez essa “diferença de empatia” não fosse tão grande assim.

Outro fator responsável pela reação calada aos atentados em Beirute e Bagdá é o que o psicólogo David Ropeik chama de “anestesia estatística”.

Ele se refere à nossa tendência de nos preocupar mais com os problemas de um indivíduo do que com os problemas de muitas pessoas anônimas.

Pesquisas indicam, por exemplo, que as pessoas preferem doar 11 dólares para salvar uma única criança a doar 5 dólares para salvar oito.

Vemos os conflitos violentos como uma ocorrência comum no Oriente Médio e nos tornamos insensíveis a eles – não importa o fato de que as bombas em Beirute tenham sido o ataque terrorista mais mortífero na cidade desde o fim da guerra civil, há 25 anos.

Isso também explica por que muitas pessoas se importam tanto com Paris e, ao mesmo tempo, permanecem relativamente desinteressadas no enorme custo humano da crise de refugiados da Síria.

“Entre um humano real e números enormes, mas abstratos, os grandes números simplesmente não têm o mesmo poder emocional”, escreveu Ropeik na Psychology Today.

“Uma morte sempre vai nos abalar mais que a morte de 1 milhão. Essa ‘deficiência fundamental da nossa humanidade’ é uma parte inescapável do animal humano.”

Uma morte sempre vai nos abalar mais que a morte de 1 milhão. Essa ‘deficiência fundamental da nossa humanidade’ é uma parte inescapável do animal humano.

O que podemos fazer para incentivar compaixão por todas as pessoas que sofrem? Para começar, podemos ser mais cientes das nossas próprias suposições e respostas aos eventos globais, afirma Seppälä.

“Sabemos que, como seres humanos, temos a tendência de desumanizar ou nos desligar das coisas quando ficamos sobrecarregados”, disse ela.

“Podemos estar cientes dessas tendências e também podemos estar cientes de que isso é o que os terroristas estão fazendo conosco. Eles caíram nessa armadilha, e temos de lembrar como importante é que isso não aconteça conosco.”

Outro passo é lembrar que as vítimas de qualquer ataque são indivíduos únicos – se eles são franceses, iraquianos, libaneses ou de qualquer outra nacionalidade. Ropeik cita Madre Teresa:

“Se olhar para a massa, nunca vou fazer nada. Se eu olhar para uma pessoa, vou.”

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