Portugal será nova oportunidade para universitários sírios

São 63 universitários que conseguiram retomar a vida em Portugal graças a bolsas de estudo promovidas pela Plataforma Global de Assistência a Estudantes Sírios

Lisboa – Eles abandonaram a Síria entre o barulho da aviação militar e os escombros dos bombardeios e acabaram em Portugal, onde têm uma segunda oportunidade negada a muitos compatriotas: terminar os estudos.

Esses são os 63 universitários que conseguiram retomar a vida em Portugal graças a bolsas de estudo promovidas pela Plataforma Global de Assistência a Estudantes Sírios, uma iniciativa financiada com contribuições privadas e impulsionada pelo ex-presidente português Jorge Sampaio.

Os jovens estudam desde 2014 em território lusitano, que apesar de se recuperar de uma grave recessão econômica, os acolheu de braços abertos em um momento de tensões migratórias no Velho Continente.

“Sou muito agradecido a Portugal e aos portugueses. Percebo que sou um privilegiado”, comentou Nour Machlah, estudante de arquitetura que precisou abandonar a cidade de Aleppo, onde nasceu, devido à guerra civil que impacta a Síria desde 2011.

Nour, de 23 anos, hoje mora na cidade portuguesa de Évora, em situação parecida com a de outros 62 universitários e universitárias – mais de um terço das ajudas são para mulheres – distribuídos em quase 20 localidades do país.

A maioria dos estudantes conheceu a bolsa promovida pela Plataforma de Sampaio pelo site “Dubarah”, que trabalha para que os jovens sírios forçados ao exílio encontrem uma oportunidade de trabalho ou estudo em 32 países.

É o caso de Ihssan Khalifeh, de 23 anos, natural de Damasco, e estudante de engenharia civil na Universidade de Aveiro. Apesar de carregar um passado marcado por incerteza e violência, Ihssan tem como objetivo retornar à Síria.

“Serei o primeiro a querer voltar quando houver condições pacíficas. Se pessoas como eu não retornem para reconstruir o país, ninguém fará isso por nós”, ponderou o jovem.

Assim como Nour, Ihssan está determinado a terminar os estudos e observar a evolução de um país que ambos lembram como “muito seguro” antes do início das revoluções árabes, na primavera de 2011.

Os dois estudantes dizem ter vivas na memória as manifestações pacíficas contra o regime de Bashar al Assad. Para Ihssan, os protestos deram lugar aos conflitos após oito meses de manifestação, quando a violência veio à tona por culpa do regime, que a aplicou sem piedade.

“No início estive nos protestos. Temos o direito de dizer ‘não’ à corrupção. Mas agora não estou com ninguém. Sou contra todos porque os sírios estão sofrendo por todas as frentes”, analisou o estudante.

O crescimento do Estado Islâmico (EI) piorou o clima de terror na Síria. A guerra criada pela organização terrorista causou mais de 200 mil mortes em quatro anos no país.

“Os integrantes do Estado Islâmico nem sequer são sírios. Não falam árabe porque muitos são do Afeganistão (onde se fala persa) e outros são estrangeiros da Europa. Não tenho mais ninguém na Síria. Meus pais estão na Jordânia e meus amigos distribuídos por vários países do mundo”, lamentou Ihssan, que está em Portugal com o irmão, engenheiro elétrico que trabalha em uma grande empresa do país.

Esse caso não é diferente da realidade de Nour, cujo pai está no Reino Unido e a mãe em Istambul.

Os estudantes passaram o mês de agosto em Lisboa, onde fizeram um curso intensivo de língua portuguesa, o maior obstáculo na integração ao país, e conviveram com compatriotas universitários que não conheciam. A maioria se entrosou rápido e aproveitou para descobrir a história islâmica da capital lusitana.

Durante a estadia em Lisboa, Nour passou a rezar com frequência na principal mesquita do país.

“Também estive na Casa do Alentejo, um edifício neoárabe que me interessou muito, e no bairro de Alfama. Conheci o passado islâmico da cidade”, relatou.

O estudante de arquitetura ampliou seu círculo de amizades, principalmente com espanhóis e brasileiros, com os quais mais teve afinidade.

Nour se sente cada vez melhor em Portugal, mas apesar da nova vida ainda se assusta com o barulho dos aviões e a presença da polícia nos transportes públicos, dolorosas lembranças da guerra na Síria.

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