Refugiados varrem calçadas para conter a extrema-direita

Ao todo, 15 pessoas que não recebem qualquer pagamento pelas atividades varrem as ruas porque querem que seus filhos brinquem em um ambiente limpo

Paris – Equipadas com vassouras, luvas de plástico e sacos de lixo, nove famílias sírias começaram a limpar as ruas de Béziers, uma cidade de 73 mil habitantes no sul da França que a extrema-direita do país transformou em seu principal reduto municipal.

Ao todo, 15 pessoas que não recebem qualquer pagamento pelas atividades varrem as ruas porque querem que seus filhos brinquem em um ambiente limpo, conforme explicam acompanhadas pela Associação Culturas Solidárias.

“Não faz sentido ter tanto lixo e não é saudável para as crianças”, disse ao jornal local “Midi Libre” um desses refugiados, Fadi, que deixou escapar que alguém poderia estar acumulando lixo para fazer com que o bairro “ocupado” pelos imigrantes se torne um lugar insalubre.

A limpeza também é feita para “evitar problemas com os vizinhos” em uma cidade onde os sírios não são bem-vindos, oficialmente.

O prefeito da cidade, Robert Ménard, deixou sua posição clara aos vários migrantes de vieram de Homs e que se instalaram em uma casa de proteção social do bairro Devèze.

“Vocês não são bem-vindos. Vocês roubam a água, a eletricidade, não têm que ocupar estas casas. Se querem ser amparados, vão para as cidades que estão dispostas a fazer isso. Eu não estou disposto, nestas condições”, diz Ménard em um vídeo que a prefeitura de Béziers divulgou através da internet e que já tem quase 500 mil de visualizações.

O que surpreende é que quem critica a chegada dos refugiados, que nem sequer entendem seu idioma, é o prefeito de uma cidade que vive da viticultura, da indústria e do turismo, um aprazível lugar onde a tourada e o rúgbi dominam as paixões cotidianas.

Isso choca nem tanto pela iniciativa política, que se encaixa com o discurso da extrema-direita francesa liderada por Marine le Pen, mas porque antes de sua recente conversão em político nacionalista, o jornalista Robert Ménard, agora com 62 anos, era um homem com convicções de esquerda e que tinha um sólido prestígio como defensor dos direitos humanos e de a liberdade de imprensa.

“Boicotem o país que pisoteia os direitos humanos”, dizia ele em 2008 quando a tocha olímpica deveria passar pela França a caminho dos Jogos de Pequim.

Mas, à época, Menard não era prefeito nem político, e sim o secretário-geral da organização Repórteres sem Fronteiras (RSF), uma ONG para a defesa internacional da liberdade de imprensa, fundada por ele em 1985.

Quem agora critica os imigrantes conhece bem o popular bairro do Devèze, onde sua família de ‘pieds-noirs’ se instalou quando chegou da Argélia, nos anos 60.

Ménard quase se tornou padre na adolescência, mas acabou militando na Liga Comunista Revolucionária, primeiro, e na ala esquerda do Partido Socialista (PS), depois. Abandonou essa legenda em 1979 e se dedicou a abrir “rádios livres”, emissoras que funcionavam sem autorização do Estado.

Depois fundou a RSF, de onde denunciava abusos de Ariel Sharon, Vladimir Putin, o grupo terrorista ETA e Fidel Castro à imprensa. Saiu da RSF em 2008, abruptamente, já que ninguém entendia que ligação tinha a liderança nessa organização com a presidência de um novo centro para a liberdade de informação com sede no Catar, que o emirado financiava com US$ 3 milhões por ano.

De lá, voltou aos meios de comunicação, onde foi se mostrando cada vez mais duro em suas posições, até que passou à política ativa e em abril de 2014 deu uma preciosa vitória a Le Pen.

Desde que chegou ao poder em Béziers com o apoio da Frente Nacional e de outros partidos nacionalistas, Ménard se envolveu em diversas polêmicas, como encher as marquises com anúncios para defender firmemente o uso firme de armas de fogo pela polícia ou elaborar um censo de alunos muçulmanos nos colégios em função de seus sobrenomes.

Agora, a “invasão” de refugiados da Síria, país criticado por ele por conta dos métodos ditatoriais de Bashar al Assad contra a liberdade de expressão.

Béziers, um município às margens do Rio Orb e emoldurado pela Catedral de Saint-Nazaire de estilo gótico, um local com presença humana há quase 3 mil anos e por onde passaram celtas, romanos, árabes e cátaros, é também um símbolo eleitoral para a extrema-direita que já prepara sua campanha para o pleito regional do fim de ano.

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