Retirada de centenas de migrantes de Calais é adiada

A decisão da juíza, que visitou na parte da manhã o acampamento, deverá ser comunicada na quarta ou quinta-feira, segundo uma fonte próxima ao caso

Após as autoridades francesas determinarem que centenas de migrantes abandonassem nesta terça-feira o acampamento de Calais, conhecido como a “selva”, os refugiados conseguiram um adiamento, para que a Justiça avalie a legalidade da operação.

O tribunal administrativo de Lille, acionado por um grupo de refugiados e associações contestando a ordem de evacuação da prefeitura, indicou que sua decisão não será pronunciada hoje.

A decisão da juíza, que visitou na parte da manhã o acampamento, deverá ser comunicada na quarta ou quinta-feira, segundo uma fonte próxima ao caso.

O recurso é suspensivo e a prefeitura, que havia determinado a saída dos ocupantes da parte sul da “selva” até às 19h00 GMT (16H00 de Brasília), deverá esperar.

Construído nas dunas, próximo ao porto de Calais (norte da França), o acampamento com cabanas precárias abriga pelo menos 3.700 imigrantes, segundo as autoridades, mas um número ainda maior, de acordo com organizações que ajudam os refugiados.

Os migrantes que encontraram abrigo na “selva”, procedentes em sua maioria da Síria, Afeganistão e Sudão, querem chegar à Inglaterra. Muitos tentam alcançar o objetivo subindo clandestinamente nos caminhões que circulam entre os dois países em balsas ou pelo túnel do Canal da Mancha.

O governo francês deseja reduzir a 2.000 pessoas a população do acampamento, o principal problema em termos de migração da França, país relativamente pouco afetado pelo grande fluxo de refugiados que entraram na Europa nos últimos meses.

A prefeitura da região intimou os ocupantes da parte sul da “selva” a deixar o local até 19H00 GMT (16H00 de Brasília) desta terça-feira, com a ameaça de uma intervenção policial caso a ordem não seja obedecida.

“Não podemos aceitar que uma favela continue sendo construída nas portas de Calais”, declarou o primeiro-ministro Manuel Valls, antes de destacar que é necessário “dar uma resposta humanitária a esta situação”, porque os imigrantes vivem em condições “indignas”.

A prefeitura deseja transferir entre 800 e 1.000 migrantes para abrigos em várias cidades da França. Mas, de acordo com as associações, a parte sul do acampamento contaria na realidade com um número muito maior de pessoas.

“3.450 pessoas, incluindo 300 menores sozinhos”, destacou a ONG britânica Help Refugees. E poucos aceitam deixar o local.

“Partir para onde? Vamos ficar aqui, isto com certeza”, disse à AFP Smain, um sudanês de 28 anos.

“Não queremos deixar Calais porque não queremos nos afastar da Inglaterra, que continua sendo nosso objetivo”, explicou John, outro sudanês de 28 anos que vive na “selva” há seis meses.

Decisão judicial

Um grupo de migrantes e 10 associações, que contestam a ordem de evacuação, apresentaram um recurso de urgência ao tribunal administrativo de Lille (norte).

“É uma violação dos direitos fundamentais dos migrantes. As soluções propostas não estão adaptadas em absoluto a suas necessidades. Eles têm que poder permanecer aqui até que outras soluções sejam encontradas”, disse a advogada.

Antes da audiência, a juíza responsável pelo caso percorreu na manhã desta terça-feira as ruas estreitas, repletas de barro, da favela, com o objetivo de avaliar as condições de vida.

A juíza visitou os locais de culto improvisados e o centro de albergue provisório, que recebe 1.200 migrantes em casas construídas em contêineres.

O ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, tentou acalmar o debate e disse que a retirada aconteceria de “maneira progressiva e privilegiando o diálogo, a persuasão e a informação dos migrantes”.

Cazeneuve afirmou que a “etapa humanitária” levará “o tempo necessário”.

A perspectiva de desalojamento também preocupa a Defensora das Crianças (uma autoridade independente na França), que defendeu a criação urgente de um dispositivo de proteção dos menores envolvidos.

Várias celebridades britânicas defenderam nos últimos dias que o país receba os menores sozinhos que têm família na Grã-Bretanha, onde a situação em Calais é acompanhada com atenção.

Em campanha contra o ‘Brexit’, o primeiro-ministro David Cameron advertiu que uma eventual saída do Reino Unido da União Europeia poderia provocar o questionamento dos acordos de fronteira com a França, o que acarretaria um fluxo de imigrantes para o sul da Inglaterra.

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