Trump: tão perto, tão longe

Jogando em casa, Donald Trump obteve uma vitória expressiva nas primárias de Nova York realizadas nesta terça-feira. O empresário conquistou 60,5% dos votos, o que deve lhe garantir a maioria dos delegados do Estado em jogo (ele venceu em todos os condados, mas não em Manhattan, onde fica a sede de seu império). O resultado da votação mudou novamente o equilíbrio de forças na disputa para decidir quem será o candidato do Partido Republicano nas eleições presidenciais americanas. O senador texano Ted Cruz tinha obtido vitórias importantes nos últimos 30 dias. Mas Nova York é o terceiro Estado mais populoso do país e, portanto, envia proporcionalmente mais delegados para as convenções partidárias. Nesta campanha presidencial de 2016, entretanto, ainda é cedo demais para afirmar que o nome de Trump aparecerá nas cédulas em novembro.

Para quem está acostumado à lógica de “um eleitor, um voto”, o processo de escolha dos candidatos nas eleições presidenciais americanas é extremamente complexo. Estados têm regras diferentes, assim como os dois principais partidos. Grosso modo, vence as primárias o candidato que obtiver mais votos na convenção. Em geral, trata-se apenas de uma formalização, pois um dos concorrentes já garantiu a maioria nas primárias. No caso dos republicanos, o escolhido precisa obter a maioria simples dos 2.472 delegados, ou seja, 1.237 votos. Depois de Nova York, Trump tem 884. Para que o Partido Republicano se reúna em Cleveland em meados de julho apenas para celebrar uma indicação, Trump precisa de 353 dos 734 delegados ainda em jogo. Segundo todas as previsões, essa tarefa não será nada fácil. As chances de Ted Cruz são ainda mais remotas, e o terceiro pré-candidato, o ex-governador de Ohio John Kasich, ainda não abandonou sua candidatura, mas já é considerado carta fora do baralho – ou não exatamente.

Caso nenhum dos três consiga a maioria absoluta até a convenção, que acontece entre 18 e 21 de julho, o evento deixa de ser o pontapé inicial na campanha do indicado para se transformar numa guerra, ou o que os americanos chamam de “convenção contestada”. Eis o cenário: se depois da primeira votação não houver uma definição, a maioria dos delegados fica livres para mudar de lado. Os de Nova York, por exemplo, não têm mais a obrigação de votar em Donald Trump, conforme decidido nas primárias de ontem. Como na escolha do novo papa, acontecem rodadas de votação sucessivas até que haja um vencedor. (Mas os candidatos não ficam trancafiados até que saia o resultado, nem será vista uma fumaça branca emanando da Quicken Loans Arena, onde joga o time de LeBron James, o Cleveland Cavaliers.)

É por isso que o sucesso de Trump, embora mais que sólido entre os eleitores, ainda não é garantia de nada. Pelo contrário: o empresário não se cansa de se apresentar como um não-político. Sua base de sustentação entre os republicanos tradicionais é praticamente nula. Para vencer uma convenção contestada, Trump teria de manobrar nos bastidores, negociar favores – fazer um outro tipo de política, longe das câmeras de TV. É possível que Trump obtenha a maioria dos votos populares nas primárias, mas veja seu tapete puxado na convenção graças à melhor articulação de seus adversários. Até mesmo o moderado John Kasich, nome mais palatável para o establishment republicano, pode sair vitorioso de Cleveland. “O senador Cruz está quase eliminado matematicamente”, disse Trump em seu discurso de vitória em Nova York. O problema é esse “quase”. O drama da escolha do candidato presidencial republicano já dura seis meses, mas o melhor ainda pode estar por vir.

(Sérgio Teixeira Jr., de Nova York)

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