Tunísia comemora quinto ano de origem da Primavera Árabe

Em 14 de janeiro de 2011, depois de um mês de manifestações reprimidas violentamente, o homem que liderava a Tunísia há 23 anos fugiu para a Arábia Saudita

Milhares de tunisianos comemoraram nesta quinta-feira com orgulho, apesar da tristeza ambiente, o quinto aniversário da queda do ditador Zine El Abidine Ben Ali em favor de uma revolta popular sem precedentes, que transformou o país.

Em 14 de janeiro de 2011, depois de um mês de manifestações reprimidas violentamente, o homem que liderava a Tunísia com mão de ferro há 23 anos fugiu para a Arábia Saudita, causando uma onda de choque no mundo árabe.

Naquela manhã, manifestantes enfrentaram o medo e gritaram “Fora” ao ditador na avenida Bourguiba, perto do temido ministério do Interior, no centro de Tunis.

É nesta avenida simbólica que uma multidão com as mais diversas reivindicações se reuniu nesta quinta-feira em uma atmosfera festiva, mas em grupos separados.

Em família ou com amigos, muitos agitavam bandeiras tunisinas sob os olhares de um grande número de policiais mobilizados, uma vez que o país tornou-se um dos principais alvos para os jihadistas.

Uma cerimônia com a presença de várias centenas de convidados também foi realizada no palácio presidencial de Cartago, nos subúrbios de Tunis

“Um pouco de democracia”

“Para mim, pessoalmente, a revolução trouxe nada: os preços subiram, muitos jovens continuam marginalizados. Mas ainda sim vim, porque a revolução nos trouxe um pouco de democracia e isso é importante”, disse à AFP Latifa, uma costureira de 40 anos.

Vários grupos políticos, como a Frente Popular, uma coalizão de esquerda, e os islamitas radicais do Hizb ut Tahrir manifestaram. O partido islâmico Ennahda organizou um concerto.

Diplomados desempregados também aproveitaram a oportunidade para exigir postos de trabalho, enquanto os feridos da revolução e parentes das vítimas gritavam “Fieis ao sangue dos mártires”.

“Precisamos de justiça para os mártires. É preciso que os responsáveis ​​por suas mortes prestem contas”, ressaltou à AFP Latifa Ayari, de 67 anos.

Em silêncio, um grupo brandia fotos de Sofiene Chourabi e de Nadhir Ktari, jornalistas desaparecidas na Líbia, que um grupo afiliado ao Estado Islâmico (EI) alegou ter matado.

Um punhado de manifestantes também marcharam sob uma bandeira do arco-íris para exigir a descriminalização da homossexualidade.

Cinco anos após a queda de Ben Ali, os tunisianos podem se expressar livremente, uma das principais conquistas da revolução.

Este aniversário é, no entanto, ofuscado por uma realidade sombria, o desemprego, a pobreza e a exclusão social que persistem.

Esses males havia motivado em grande parte a revolução desencadeada pela imolação de um vendedor ambulante, Mohamed Bouazizi, em 17 de dezembro de 2010, em Sidi Bouzid (centro-oeste).

Desde 2011, o país foi repetidamente atingido por ataques jihadistas sangrentos e agora vive sob um estado de emergência. Dezenas de policiais, militares e turistas estrangeiros foram mortos nos últimos anos.

Balanço misto

“O saldo da revolução da liberdade, da dignidade e do direito ao trabalho permanece globalmente misto”, considerou o The Daily.

Em um comunicado, a Anistia Internacional expressou preocupação com o retorno da “repressão brutal”, particularmente no contexto da luta contra o terrorismo. A ONG denunciou a existência de mortes suspeitas sob custódia e a ausência de reformas profundas.

“De qualquer forma, hoje nós lembramos um evento fundamental (…) para o futuro da Tunísia”, afirmou o jornal Al Maghreb.

O país se tornou um símbolo após sobreviver a turbulência na qual estão imersos os outros países da Primavera Árabe, como a Síria e a Líbia.

A Tunísia organizou em 2011 e 2014 eleições livres aclamadas por unanimidade como transparentes, aprovou uma nova Constituição e recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2015 por meio de um quarteto que organizou um diálogo entre os partidos políticos, até então em desacordo.

“Estamos orgulhosos da exceção tunisina que deslumbrou o mundo. A Tunísia rompeu definitivamente com o autoritarismo e a tirania”, comemorou o primeiro-ministro Habib Essid em um comunicado.

“Trabalhamos juntos para cumprir as várias exigências da revolução, especialmente a garantia de uma vida digna para todos”, acrescentou ele, mas disse que “vencer a guerra contra o terrorismo ainda “e uma condição essencial” para o desenvolvimento.

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