UE deixará de ser a mesma com ou sem Reino Unido

Se o Reino Unido se tornar o primeiro país a se "divorciar" da UE, o bloco comunitário se afundará em uma crise que não se compara com as que vem atravessando

O ambiente em Bruxelas, capital da UE, vive um clima surrealista há semanas, com as atividades continuando, como de costume, e seus dirigentes proibidos de mencionar a palavra “Brexit”, como se não existisse o referendo a respeito no Reino Unido.

Mas nos bastidores, o tema está em todas as agendas. Seja qual for o resultado do referendo britânico, a União Europeia deverá fazer mudanças de inédita amplitude para sobreviver.

O que está em jogo é muito grande. Se o Reino Unido se tornar o primeiro país a se “divorciar” da UE, o bloco comunitário se afundará em uma crise que não se compara com as que vem atravessando – como a migratória, a econômica e a provocada pela crescente ameaça terrorista.

Inclusive, se os britânicos decidirem permanecer no bloco, o status quo não seria uma opção viável. Os temas da campanha do referendo são similares aos que preocupam boa parte da população de um Velho Continente que parece ter perdido a confiança na “utopia europeia” do pós-guerra.

“Seria insensato ignorar um sinal de alarme como a do referendo britânico”, advertiu nesta semana o presidente do Conselho Europeu, o polonês Donald Tusk.

No dia seguinte ao referendo, os dirigentes europeus, que nos últimos meses conseguiram com dificuldade chegar a um consenso para resolver as sucessivas crises, deverão coordenar-se para definir os próximos passos.

Porém, ainda que muitos considerem que se necessita de uma mudança, “quando olham para os detalhes práticos logo aparecem dificuldades”, observou Chris Bickerton, professor da Universidade de Cambridge.

Iniciativas

“É muito possível que as instituições comunitárias tenham um reflexo do tipo ‘volta ao trabalho, volta a normalidade'”, considerou Vivien Pertusot, analista do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI), com base em Bruxelas.

O presidente francês, François Hollande, prometeu na quarta-feira (22) que “aconteça o que acontecer” no referendo, serão tomadas iniciativas para fazer “evoluir a construção europeia”.

Fala-se de uma iniciativa da colaboração franco-alemã, que tanto poderia incluir elementos de uma Europa “a duas velocidades”, como limitar-se à política exterior, posto que não entram em acordo sobre a zona do euro.

“Franceses e alemães anunciarão uma iniciativa conjunta, mas se limitarão estritamente aos temas de segurança e de defesa. Entrar em acordo rapidamente sobre a economia é muito difícil”, assinalou um alto-responsável da zona do euro que pediu para não ser identificado.

No caso do Reino Unido votar para ficar, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, já adiantou que exigirá reformas sobre a livre circulação dentro da UE, um dos pilares da construção europeia, além do que já foi negociado em fevereiro com seus 27 sócios do bloco.

“Não acredito que as reformas se detenham em 23 de junho, a voz das reformas será reforçada por ter celebrado um referendo”, declarou na quarta (22). Os partidários do Brexit asseguram que poderão negociar novos acordos comerciais com a União Europeia.

“Os políticos e eleitores britânicos têm que saber que não haverá nenhum tipo de renegociação” com Londres, insistiu na quarta-feira o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker.

Espiral negativa

O medo de inúmeras capitais europeias, seja qual for o resultado do referendo, é que as chamadas para organizar consultas sobre a UE se multipliquem.

Na extrema-direita francesa, Marine Le Pen já deixou claro seu desejo de que seja organizada “em cada país” uma votação popular sobre a pertinência da UE, assim como os eurocéticos (movimento político e social em que os cidadãos europeus recusam em alguma medida a União Europeia) dinamarqueses, holandeses e suecos.

Um voto britânico a favor da saída da UE teria o efeito de um terremoto.

Para Donald Tusk, isso implicaria não só “na destruição da UE, como também da civilização política ocidental”.

Não será o “golpe fatal” à União Europeia, explicou à AFP o professor Bickerton, mas poderia ser um início de uma mudança fundamental até uma UE menos integrada.

“Não creio que ela desapareça de repente, mas a longo prazo poderíamos assistir um declínio progressivo e a emergência de algo diferente”, avaliou.

“A UE se encontra em uma espiral negativa, e começamos a ver somente o negativo”, considerou Janis Emmanouilidis, do Centro de Política Europeia, um centro de estudos de Bruxelas. “Inclusive um voto a favor de permanecer na UE não mudará o humor geral”, afirmou.

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