Um marco da penúria italiana

Enquanto a polícia alemã atabalhoadamente caça o terrorista que matou 12 pessoas na segunda-feira em Berlim, a crise econômica europeia voltou às manchetes. Um esperado marco da penúria finalmente se confirmou: o banco Monte dei Paschi di Siena — fundado em 1472, portanto o mais antigo do mundo, e o terceiro maior da Itália — derreteu. A instituição sobreviveu aos grandes momentos da história moderna ocidental — as grandes navegações, a Revolução Francesa e as duas grandes guerras dos século 20 — mas não resistiu à atual crise financeira internacional e aos 13 anos de estagnação da economia italiana.

A saída será uma só: um resgate do governo italiano. Para proteger os depósitos de 5,3 milhões de clientes, os empregos de outros 25.742 funcionários e a própria economia do país, o governo italiano prepara um resgate no valor de 20 bilhões de euros — ou 833 euros para cada família italiana.

As ações do banco começaram o dia com queda superior a 18% — o que provocou a suspensão automática das transações no pregão. Os negócios foram retomados de tarde, mas os papéis terminaram o dia com queda de 10,36%. Os investidores têm razão para fugir do centenário Monte dei Paschi: o banco tem dinheiro para apenas mais quatro meses de operação. E, para piorar, o plano de recapitalização de 5 bilhões de euros fracassou em boa medida pela desistência do Fundo Soberano do Qatar em comprar ações do banco.

O ministro da Fazenda da Itália, Pier Carlo Padoan, afirmou que “apesar de algumas situações críticas, o sistema financeiro da Itália continua sólido e saudável”. Os investidores internacionais e o Banco Central Europeu têm opinião diferente. O sistema financeiro italiano é alvo de preocupação desde a crise de 2008. Os problemas do Monte dei Paschi começaram justamente nessa época, com a aquisição temerária do concorrente Banca Antonveneta por 9 bilhões de euros. Negócios ruins são, perigosamente, frequentes nos bancos italianos. Segundo o FMI, quase um quinto de todos os empréstimos do sistema bancário italiano são considerados problemáticos, o que representa 40% de todos os empréstimos inadimplentes dos países do bloco do euro.

Em 2017, Alemanha, França e Reino Unido serão o centro das preocupações políticas na Europa. Mas a centelha de crise financeira que pode voltar a incendiar o continente deve vir mesmo da velha bota.

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