Um secretário do Trabalho do barulho

David Cohen

Andrew Puzder não é o mais rico do bilionário gabinete anunciado por Donald Trump. Tampouco seu posto – secretário do Trabalho – é o mais chamativo. Mas sua nomeação é provavelmente a mais reveladora da disposição do futuro presidente dos Estados Unidos de reverter as políticas do atual governo, do democrata Barack Obama, e ao mesmo tempo desafiar seu próprio partido, o Republicano.

Como outros nomeados (especialmente o CEO da Exxon, Rex Tillerson, indicado a secretário do Estado) e o próprio Trump, Puzder é um “outsider”, alguém de fora do mundo da política.

Ele tem larga experiência com os trabalhadores da base da pirâmide salarial, uma importante fatia dos eleitores de Trump – mas não exatamente do lado deles. Desde 2000, Puzder é o CEO da holding CKE Restaurants, dona das cadeias de fast food Carl’s Jr. e Hardee’s, uma rede com 75.000 empregados nos Estados Unidos e outros 25.000 mundo afora (incluindo o Brasil), com receita de mais de 4,3 bilhões de dólares.

“Nomear Puzder como secretário do Trabalho é o mesmo que colocar Bernie Madoff para tomar conta do Tesouro”, disse Kendall Fells, diretor do movimento Fight for $15 (Lute pelos 15 dólares), em referência ao financista condenado a 150 anos de prisão pelo maior esquema de fraude na história do país.

É fácil entender a oposição: Puzder repetidas vezes se manifestou contra o aumento “excessivo” do salário mínimo, e Fells lidera a campanha para que ele mais do que dobre, dos atuais 7,25 para 15 dólares por hora. “Trump mostrou mais uma vez o quão desligado ele está das necessidades dos trabalhadores americanos”, disse Mary Kay Henry, chefe do sindicato internacional de empregados do setor de serviços.

Claro, causa uma certa estranheza ouvir Puzder falar contra o aumento do salário mínimo. O salário mínimo dele foi de 4 milhões de dólares, em 2012. No ano anterior, Puzder ganhou, entre salário, bônus e outras compensações, 10 milhões de dólares (desde 2013, os números são sigilosos: a empresa deixou de ter capital aberto e não tem mais obrigação de revelar o rendimento de seus principais executivos).

Puzder também ganhou as manchetes este ano, quando mudou a sede da companhia, de Carpinteria, na Califórnia, para Nashville, no Tennessee, onde não há imposto estadual para renda pessoal. (A mudança para a Califórnia também foi por motivo específico: ele queria atrair um executivo de operações cuja mulher fazia questão de viver na Califórnia).

Mesmo assim, seus argumentos não devem ser descartados. “Eu não sou contra aumentar o salário mínimo de forma racional”, disse ele em maio, numa entrevista. “Me oponho a elevá-los até o nível em que os trabalhadores menos habilitados, os jovens e as minorias percam o acesso aos empregos de que precisam para começar a subir a escada do sucesso.”

O ponto é que, para muitos negócios, o aumento na folha de pagamentos implicaria retração nas contratações. É um ponto controverso. Alguns estudos sugerem que um aumento para 10,10 dólares teria pouco ou nenhum efeito no nível de emprego na maior parte do país – embora pudesse afetar áreas de salários e custo de vida mais baixo.

O governo Obama – e os democratas em geral – tem favorecido uma visão mais protecionista. Faz sentido: o salário mínimo não teve nenhum aumento desde 2007 (mas 29 dos 50 estados americanos têm um piso maior), e alguns economistas calculam que seu poder de compra está um terço abaixo do que era na década de 1960.

Mas a visão dos republicanos também faz sentido. De acordo com ela, o mínimo é apenas uma porta de entrada, e elevá-lo demais significa colocar barreiras nessa entrada.

A cadeia de lanchonetes que Puzder dirige é um exemplo. “Na CKE, as pessoas não ganham o mínimo por muito tempo”, escreveu ele em um artigo para o Wall Street Journal. “Se você vai ficar no emprego e demonstra que tem valor, seu salário vai subir. Eu acho que nenhum empresário planeje ter uma força de trabalho composta apenas de trabalhadores de salário mínimo. Não é assim que funciona”, afirmou.

Ele costuma citar a si próprio como exemplo: “Eu comecei servindo sorvetes na Baskin-Robbins, ganhando um dólar por hora”, disse em uma entrevista. “Aprendi muito sobre inventário e atendimento… mas não há modo de um trabalho desses valer 15 dólares por hora, e ninguém nunca pensou que este seria um trabalho com que uma pessoa pudesse sustentar uma família.” (Pela idade, 66 anos, Puzder deve ter começado a trabalhar na década de 1960, quando 1 dólar valia mais ou menos 7,50 de hoje).

Para Puzder, “não há nada de errado com aumentos do mínimo que não destruam empregos”. Os 15 dólares, limite que se tornou tema de campanha nacional, estariam além da conta. Um aumento desse tipo levaria, diz ele, a aumentos de preços, gestão mais eficiente do trabalho (leia-se: cortes de empregos) e automação.

Máquinas e imigrantes

É da natureza dos negócios buscar a eficiência, especialmente no controle de custos. Esta foi uma das forças que impulsionaram a globalização – empresas transferindo sua produção para locais onde o custo do trabalho é menor. E é uma das forças que guia o processo de automação – não mais apenas de serviços repetitivos, mas cada vez mais de serviços complexos, com o avanço da inteligência artificial.

Em entrevista ao site Business Insider, alguns meses atrás, Puzder afirmou que o aumento da automação poderia ser positivo, porque as máquinas “são sempre educadas, sempre oferecem a venda de maior valor agregado, nunca tiram férias, nunca se atrasam, não sofrem acidentes de trabalho, não se envolvem em casos de discriminação sexual ou racial”.

Obviamente, essa declaração não foi vista com muita simpatia por organizações de defesa dos direitos dos trabalhadores. Mas Michael Hiltzik, do jornal Los Angeles Times, observou que o argumento fazia parte de uma longa conversa, e que Puzder reclama que a segunda parte, sobre os problemas da automação, nunca foi divulgada. “Eu nunca mencionei robôs”, defendeu-se. Seu grande ponto é que a elevação de custos tornaria a automação uma opção mais viável para as empresas. “Mas nós nunca poderíamos substituir todos os empregados de linha de frente.”

Se os robôs pertencem a um futuro hipotético (pelo menos por enquanto), os imigrantes são bastante presentes. Empregos como os que a CKE oferecem são justamente os mais viáveis para imigrantes ilegais.

“Os imigrantes são trabalhadores, dedicados, criativos e realmente apreciam o fato de ter um emprego”, disse. “Enquanto em algumas áreas você contrata gente que diz ’não acredito que eu tenho que trabalhar com isso’, com os imigrantes você tem a atitude oposta, de ‘graças a Deus que eu tenho esse trabalho’, e isso dá uma sensação bem diferente.”

Neste ponto, Puzder não poderia estar mais distante da visão de Trump, que prometeu durante a campanha uma linha dura contra imigrantes irregulares. Puzder conseguiu a façanha, portanto, de unir democratas e republicanos. Praticamente todos o criticam. Os primeiros o acusam de ser “contra os trabalhadores”; os segundos, de “preferir imigrantes a americanos”.

“Puzder fez carreira como executivo de um conglomerado de fast food, uma indústria que prospera com o trabalho mal remunerado, com trabalhadores ilegais, e que tem feito lobby pelo acesso ao país de imigrantes, para maximizar os lucros”, criticou a Federação pela Reforma da Imigração Americana, um grupo antiimigrantes.

Puzder defende uma mudança de postura dos republicanos em relação aos imigrantes, principalmente no ponto de reunião de famílias (trazer parentes dos que já estão nos Estados Unidos), “porque esta é a coisa certa a fazer em todos os sentidos: econômico, político e moral”.

Ele defende a ideia de um forte controle de fronteira, mas apoia um “caminho para a legalidade”, que daria aos imigrantes ilegais algo próximo da cidadania – desde que eles reconheçam que infringiram a lei e aceitem algum tipo de punição.

Puzder não terá responsabilidade sobre a política de imigração, mas estará presente nas grandes discussões de gabinete. Sua indicação – e o fato de ter sido um doador e influenciador na campanha de Trump – indica que o próximo governo americano não terá uma visão tão estreita quanto seus eleitores gostariam e seus oponentes temem.

O efeito cascata

As posições de Puzder refletem a visão republicana que deve predominar no governo Trump, resgatadas da era Reagan: a trickle down economics, ou efeito cascata. A ideia é que as políticas pró-empresas incentivam o crescimento e acabam beneficiando a todos.

Segundo essa visão, o aumento de proteção dos trabalhadores tem efeito contrário ao desejado: os empregadores ficam mais receosos e o mercado se fecha. (Algo que o Brasil vive: a proteção é boa para quem já está empregado, mas inibe novas contratações).

Nenhuma das visões está completamente certa ou errada: a tese democrata baseia-se na justiça de dividir melhor o bolo; a republicana, na melhor forma de fazer o bolo crescer. (Esta analogia ficou marcada no Brasil, quando foi usada pelo então secretário do Planejamento Delfim Netto no governo militar.)

Ao divulgar a escolha de Puzder, Trump foi explícito na defesa do efeito cascata: “Andy Puzder criou e impulsionou as carreiras de milhares de americanos, e sua extensa ficha de luta pelos trabalhadores o torna o candidato ideal para liderar o Departamento do Trabalho.” Em audiência no Senado, este ano, Puzder afirmou que “não há nada mais recompensador do que ver novos funcionários adquirirem habilidades e crescer até gerentes de lanchonetes”.

Não é apenas a elevação do salário mínimo que Puzder combate. Ele também é contra legislações que ampliam os direitos a licença remunerada e seguro de saúde aos empregados. Puzder já criticou inclusive a obrigação de conceder pausa para almoço.

O governo Obama tem um projeto que amplia a obrigação das empresas de pagar 50% a mais pelas horas extras, atingindo todos os funcionários que ganhem até 47.476 dólares por ano (o limite atual é 23.660). Mas, por ter atrasado sua votação, esse projeto é passível de revisão pelo novo Congresso – e pouca gente acredita que ele vingue.

Uma regra em especial irrita Puzder: o projeto de tornar as empresas franqueadoras co-responsáveis pelas condições de trabalho nas lojas franqueadas. Nos últimos anos, fiscais do governo encontraram várias infrações trabalhistas nas rede da CKE, mas na maioria das vezes pertencentes a franqueados – nesses casos, as holdings costumam se eximir de responsabilidade.

Acredita-se que as “limpezas” de regulações ocupem boa parte do trabalho do futuro secretário do Trabalho. Puzder parece gostar da ideia. Ele declarou que servir no gabinete de Trump seria “a maior diversão que uma pessoa pode ter estando de roupa”.


 

Divulgação
COMERCIAL DA CARL`S JR: mulheres sensuais para vender hambúrgueres para jovens

 

Modelos de biquíni

Esse tipo de declaração revela outra faceta de Puzder, esta parecida com a do futuro chefe: ambos são acusados de sexistas. No caso de Puzder, o machismo foi inclusive sua grande tacada para recuperar uma empresa combalida.

Puzder era um advogado em Saint Louis, no estado de Missouri, e nos anos 1980 defendeu Carl Karcher, o fundador da Carl’s Jr., de acusações de fraudes. Ganhou a confiança dele e, em 2000, foi chamado para dar um jeito na cadeia Hardee’s, que ia mal das pernas. Três meses depois, o CEO da Carl’s Jr. renunciou e Puzder acabou acumulando os dois cargos.

Sua estratégia para revigorar a empresa foi procurar um “oceano azul”, a região que os concorrentes estavam deixando vazia. Enquanto McDonald’s, Burger King e outras garantiam o mercado das crianças e buscavam alternativas mais saudáveis para atrair um novo público, ele investiu nos fãs inveterados de fast food: em geral, jovens do sexo masculino.

Daí vieram os famosos (e amplamente criticados) comerciais com modelos de biquíni em poses sensuais comendo hambúrgueres. Alguns não chegam a ser transmitidos, de tão vulgares – como o de uma modelo lambendo um sanduíche com uma enorme salsicha. “Nós tínhamos de fazer algo para atrair a atenção dos homens jovens e famintos”, disse Puzder. “Eu gosto dos nossos comerciais. Eu gosto de mulheres bonitas comendo hambúrgueres de biquíni. Acho isso bem americano.”

Não se trata apenas de uma estratégia comercial. “Eu costumava ouvir que as marcas adquirem a personalidade de seu CEO. Nunca achei que isso fosse verdade, mas no nosso caso, de certa forma a marca assumiu a minha personalidade.”

Houve até acusações mais graves de sexismo. Em 1989, a ex-mulher de Puzder o acusou de agressão. Os documentos da corte falam que ele a atacou, apertou seu pescoço e a jogou no chão. Assessores de Trump forneceram documentos em que a ex-mulher afirma ter mentido, por conselho do advogado, e se arrepende.

De qualquer modo, a personalidade de Puzder provoca desconfianças em organizações de defesa dos direitos das mulheres. Entre suas atribuições, estará a de assegurar o cumprimento de leis contra o assédio e a discriminação sexual.

Nada disso significa, porém, que ele não vá ser um bom secretário do Trabalho. Uma de suas habilidades é encontrar o terreno comum onde se possa construir algo positivo, mesmo partindo de visões opostas.

Quando era advogado em Saint Louis, Puzder ajudou a elaborar uma lei que aumentava as restrições ao aborto no Missouri. O diretor de uma clínica de aborto entrou com ação contra a lei – e acabou perdendo.

Algum tempo depois, Puzder se associou com o próprio diretor que havia ido contra a sua lei, criando a Common Ground Network (rede de consenso), uma organização agora nacional que busca formas de ativistas pró e contra o aborto trabalharem juntos, em temas como a promoção de adoções e a prevenção da gravidez de adolescentes.

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