Uma escola para 180 nacionalidades

Isabel Seta

Em uma sala de aula como qualquer outra, dez jovens de 16 anos estudam a Guerra Civil Espanhola e suas consequências para a geopolítica europeia. Seria só mais uma aula de história comum, não fossem as nacionalidades dos estudantes ali reunidos: uma espanhola, um alemão-sul-coreano, uma franco-italiana e outra franco-alemã, um afegão, uma brasileira, um israelense, um holandês, uma grega e uma bósnia. A escola em questão fica em Mostar, na Bósnia. A professora é francesa.

É o tipo de experiência de convivência internacional que a rede de ensino UWC (United World Colleges) oferece. A rede de colégios ensina o currículo IB, um programa de ensino padrão internacional, para alunos de todas as partes do mundo. Foi fundada em 1962 e está em plena expansão. Nos últimos três anos, foram abertas quatro novas escolas, uma na Alemanha, uma na Armênia, uma na China e outra na Tailândia. Para este ano, está prevista a inauguração, em setembro, de uma escola no Japão, totalizando 17 unidades espalhadas por quatro continentes, com uma despesa total de 230 milhões de dólares.

Em um momento em que os países se fecham, o crescimento da UWC, que quer promover, justamente, a troca entre diversas culturas, soa quase como um anacronismo. Mas o fato é que cada vez mais estudantes buscam uma formação internacional, em escolas ou faculdades fora de seus países de origem. Segundo a consultoria de educação ICEF, cinco milhões de pessoas estudaram fora de seus países em 2014. Até 2025, esse número deve chegar a 8 milhões, segundo o Instituto de Educação Internacional (IIE, na sigla em inglês).

Na esteira de estudantes do ensino superior, que compõem a ampla maioria daqueles que vão estudar fora, jovens ainda no ensino médio também têm saído de seus países para períodos de estudo. De acordo com o IIE, o número de estudantes internacionais em programas de ensino secundário nos EUA mais que triplicou entre 2004 e 2013.

Atualmente são mais de 4.100 alunos cursando os dois anos do Bacharelado Internacional em todas as unidades da UWC, que vão de uma escola no alto de um penhasco na costa adriática da Itália a um colégio no meio de uma unidade de conservação entre dois vales na Índia. Algumas das escolas oferecem séries anteriores ao IB, totalizando 9.500 alunos, cerca de 43% homens e 57% mulheres, selecionados por comitês nacionais espalhados por 157 países. No total, estudantes de 180 países já estudaram na UWC.

O primeiro colégio foi fundado por Kurt Hahn — um educador judeu nascido na Alemanha e um dos principais nomes da educação experimental- – há 55 anos, em um castelo normando, que parece tirado dos livros de Harry Potter, no País de Gales. O objetivo da escola era formar os futuros líderes do mundo em um ambiente de diversidade, globalismo e paz — para não repetir a desgraça de outra guerra mundial. Desde então, várias personalidades passaram pelos colégios, como o atual Rei da Holanda, Willem-Alexander e Kim Han-sol, sobrinho de Kim Jong-Un (sim, o ditador da Coreia do Norte), além de outros nomes do mundo dos negócios, como o ex-CEO da Nokia, o finlandês Jorma Ollila, o ex-diretor da Puma no Brasil, João Luis De Castro, e o fundador da Submarino.com, Antonio Bonchristiano.

“Nossa educação é o antídoto contra o populismo, o medo do outro e ideologias que constroem muros. Nossos estudantes experienciam sua humanidade numa idade em que as impressões de viver e aprender juntos por dois anos não vão deixá-los para o resto da vida”, diz Jens Waltermann, diretor-executivo da organização.

Nas escolas, os alunos têm aulas de matemática, biologia, geografia, história, além de inglês, e fora da sala de aula são incentivados a fundar clubes e se envolver em outras atividades extra-curriculares, como agricultura, teatro e esportes.

Divulgação
Alunos no refeitório do UWC Atlantic College, o primeiro da rede, fundado em 1962 em um castelo normando no País de Gales

A ligação da UWC com o Brasil ganhou força na década de 1970, quando a unidade Canadá foi aberta e um padre canadense, fundador de um colégio de elite de São Paulo, foi convidado para visitar o lugar e, depois, mandar alguns de seus alunos para as escolas. Conforme os primeiros estudantes retornavam ao Brasil, formou-se um comitê nacional para levar cada vez mais brasileiros para estudar nos colégios da rede. Segundo a UWC Brasil, cerca de 230 brasileiros já estudaram nas escolas –para este ano 11 jovens foram selecionados, inclusive um pioneiro para o novo colégio no Japão, parte do total de 2.100 novos alunos que devem ingressar neste ano. As inscrições são abertas a qualquer estudante, no site da UWC.

Segundo Ines Kavamura, a primeira brasileira aluna do colégio da Suazilândia, na África, e hoje parte do Conselho Internacional da UWC, há três anos que alunos de todos os estados brasileiros se inscrevem para o processo seletivo, que conta com fases de provas, entrevistas e vivências. O alcance é considerado uma vitória, já que nos primeiros anos, sem facilidades como a internet, a divulgação acontecia pelo boca a boca, e a “geografia” ficava bastante reduzida. “O objetivo do nosso comitê sempre foi que os representantes brasileiros fossem realmente brasileiros, e não só alunos de escolas particulares de São Paulo”, diz Kavamura.

Em 2014, um desses alunos foi o baiano Marcos dos Santos, selecionado para integrar a primeira turma do UWC Dilijan, na Armênia, um caldeirão de culturas, com estudantes de 48 nacionalidades no primeiro ano e 68 no segundo. Quando foi selecionado para o UWC, seu conhecimento de inglês se limitava a poucas palavras. Quatro meses depois, Marcos já dominava o idioma e, em um ano e meio, arrancou elogios pela fluência na língua do ator George Clooney, que visitou o colégio com sua esposa, Amal Clooney, advogada e patrona de uma bolsa por ano para que jovens libanesas possam estudar em Dilijan.

Para Marcos, que atualmente cursa engenharia mecânica na Universidade de Rochester, nos EUA, a experiência foi daquelas que mudam a vida. “Hoje posso dizer que penso muito mais criticamente sobre as consequências das minhas ações e como meus pensamentos podem impactar outras culturas, não quero ofender ninguém”, diz ele, que guarda como lembrança mais marcante a imagem de seus amigos armênios e turcos rindo juntos, distantes da inimizade entre as duas nacionalidades desde o genocídio armênio perpetrado pelo governo otomano no início do século 20.

O UWC é uma organização sem fins lucrativos com sede em Londres que funciona por meio de doações e bolsas, e cada colégio deve ser capaz de se garantir financeiramente sozinho com o dinheiro levantado em seu país. Com a abertura de novas escolas, novos doadores são angariados e novas bolsas são oferecidas.

Globalmente, um a cada cinco alunos possui bolsa integral, e o objetivo é aumentar essa porcentagem para 75%, visando garantir a diversidade socioeconômica, um dos pilares da organização. Para isso, a organização calcula que haja uma lacuna de 25 milhões de dólares de financiamento. A maioria dos alunos possui algum tipo de bolsa –a ideia é que cada família contribua com o quanto consegue pagar e o restante é completado pela UWC. Quase como um mantra, os representantes da rede ouvidos por EXAME Hoje, repetem que ninguém deixará de ir por não poder pagar, por isso a importância dos trabalhos dos comitês nacionais para conquistar novos apoiadores. Atualmente, os dois principais patronos da iniciativa globalmente são o americano Shelby Davis, que todos os anos gasta 40 milhões de dólares em bolsas para alunos da UWC, e o bilionário indiano Anand Mahindra.

A independência financeira dos colégios causa algumas discrepâncias. Enquanto o UWC Atlantic College, no País de Gales, obteve mais de 15 milhões de dólares em renda com doações e mensalidades, em 2015, a unidade de Mostar, na Bósnia, não chegou nem a 2 milhões. Apesar dos custos bastante diferentes de cada país, a diferença não passa despercebida pelos estudantes. No caso de Mostar, os alunos não conseguiam avançar com projetos e iniciativas por conta do orçamento limitado.

Este ano, a grande iniciativa da rede é a UWC Refugee, que pretende oferecer 100 bolsas integrais para refugiados. “Já acolhemos 50 refugiados, mas estamos fazendo essa campanha para conseguir receber mais cem por ano”, diz Kavamura, que organizou uma gala beneficente em Nova York no início deste mês para angariar fundos.

Segundo um estudo do grupo britânico de educação Pearson, a diversidade nas escolas traz ganhos para o aprendizado, além de gerar mais tolerância. A exposição a diferentes perspectivas melhora a capacidade crítica do estudante além da autoconfiança acadêmica, diz a organização.

“Conceitualmente todo mundo sabe que existem diferentes culturas, mas só se percebe isso efetivamente na hora de tomar um café ou discutir política com alguém com hábitos totalmente diferentes dos seus”, diz o brasileiro e economista Francisco Ferreira, que estudou na UWC dos Estados Unidos e hoje trabalha no Banco Mundial. “No meu trabalho, às vezes as pessoas têm dificuldades de entender porque em uma reunião alguém está se comportando de determinado jeito que é normal na Tailândia ou na Palestina. Tendo aprendido isso aos 16 anos, fica bem mais fácil”. Para a UWC, este é o objetivo.

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