Uma inesperada onda de otimismo

Lourival Sant’Anna, de Miami 

Nem parece que é com eles. Enquanto brasileiros e europeus se mostram chocados e fazem previsões catastrofistas, os americanos comuns se mostram tranquilos em relação à eleição de Donald Trump. Houve manifestações em dezenas de cidades, é certo, mas reuniram apenas alguns milhares de pessoas. A imensa maioria procura demonstrar otimismo, mesmo entre os eleitores de Hillary Clinton.

“Só espero o melhor”, diz Chris Aneiros, de 32, representante comercial de uma marca de cerveja. Ele votou em Hillary. “Estou tranquilo. É o que é. Trump ganhou. Quando você está em um avião, não quer que o piloto derrube o avião”, explica Chris, que considera que Barack Obama fez um governo “muito bom”. “Muita gente não concorda com o Obamacare, mas muitas pessoas que não tinham plano de saúde passaram a ter.” No caso dele, com o Obamacare, sua empresa trocou de plano de saúde, e a cobertura piorou. Os planos subiram em média 22%, com o aumento da demanda, já que todos se tornaram obrigados a ter um convênio, que o governo passou a subsidiar, para os que não pudessem pagar integralmente.

“Acho que muita coisa continuará igual”, prevê Matt Boney, de 21 anos, que dirige a empresa de tecnologia Daycation, e também votou em Hillary. “Estou mais preocupado com o que acontecerá com nossas relações internacionais do que aqui no país. Minha maior preocupação é com a personalidade de Trump, a incapacidade dele de se controlar”, diz Matt.

“Internamente, acho que as coisas seguirão um curso razoavelmente normal, desde que não aconteça um grande colapso econômico causado por incertezas no mundo. Acho que muita gente está esperando o melhor e olhando para o lado positivo de um resultado tão interessante dessa eleição.” Matt afirma que o corte nos impostos prometido por Trump só vai beneficiá-lo se sua empresa “ganhar muito dinheiro”.

“Trump é empresário, e a América é o país da iniciativa privada, dos negócios”, diz Winston, um advogado de heranças de 72 anos, que prefere não dar o sobrenome nem dizer em quem votou. “Portanto, espero que continuemos com a economia que temos, talvez um pouco melhor.” Winston gosta da ideia da redução dos impostos e diz que o Obamacare “é um pouco opressivo, especialmente para as empresas pequenas”, para as quais “custa muito caro”.

Leslie Edmonds, negro de 35 anos, não votou porque está há dois anos em liberdade condicional, mas apoia Trump. “Ele vai abrir o país ao comércio”, espera Leslie, alheio às ameaças do presidente eleito contra o livre comércio. “Há muitas coisas que ele vai mudar, e fazer a diferença para todos. Os países que estiverem nos prejudicando, vão ter que parar. Ele vai ser como o (George W.) Bush, não vai brincar. Ele não vê cor da pele. Só vê dinheiro, e vai buscar o dinheiro para o nosso país.” Leslie acha que Obama foi um bom presidente, mas tem críticas ao Obamacare, porque todas as vezes em que procura um médico, ou vai comprar remédios, acaba tendo que pagar.

“Há pesos e contrapesos, que são inerentes ao processo legislativo”, pondera Pat, de 63 anos, também negra, relações públicas do setor de transportes do Condado de Miami-Dade, e que prefere não dar o sobrenome nem declarar seu voto. “Eles têm de governar dentro dos limites da lei. Não acho que possa acontecer algo extremo.”

“Pessoalmente não acho que vá mudar nada. Foi a mesma coisa na era Bush, na era Obama. Para mim não mudou nada”, diz Alex, de 37 anos, que também prefere não dar seu sobrenome, é negro, formado em relações internacionais, e começou agora a trabalhar para o Condado de Miami-Dade. Alex votou a contragosto em Hillary, porque não acredita em nenhum dos dois candidatos. “Todos eles dizem que vão fazer alguma coisa, mas quando entram não fazem.”

“Dessa vez votei nos democratas, não porque eu odeie Trump, mas achei melhor uma pessoa experiente”, diz Hernando Blum, de 60 anos, supervisor do setor imobiliário do condado. “Trump é um empresário rico. Os ricos não são bonzinhos. Eles têm de ser egoístas e fazer o que têm de fazer. Não acredito que ele seja racista. Só acho que da forma como ele fez a campanha despertou os racistas. Ele foi atrás dos brancos pobres e disse que nós, latinos, estamos roubando os empregos deles”, observa Hernando, que nasceu em Nova York, mas cujos pais vieram do Equador nos anos 50.

A nicaraguense Carla Hernández, de 40 anos, votou em Trump. “Precisamos de mudanças, de empregos”, explica Carla, que mora há 22 anos nos Estados Unidos, e trabalha como vendedora em uma loja de roupas populares de Miami. Para ela, a melhor época foi o governo de Ronald Reagan, logo que chegou: “Era fácil conseguir empregos. Ele ajudou a todas as classes. Isso se perdeu, porque foram subindo os impostos e os preços das coisas”. Carla diz que as coisas pioraram depois que Bush começou a guerra no Iraque, em 2003. De lá para cá, ela calcula que as vendas caíram 50%. “Precisam reerguer este país.”

Para a maioria dos americanos, não importa a cor do gato, desde que ele cace os ratos.

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