A empresa que veio aos Jogos e ficou

Gian Kojikovski

Às 22h25 do dia 14 de agosto,50.000 sortudos faziam silêncio no Estádio Olímpico Engenhão enquanto o velocista jamaicano Usain Bolt acelerava a mais de 40 km/h para levar o tricampeonato olímpico nos 100 m rasos. A grande maioria desses espectadores, obviamente, comprou seu ingresso pela internet, já que passar longas horas na fila deixou de ser o padrão para eventos desse porte há algum tempo. Pois a empresa responsável pelos ingressos olímpicos, e uma das responsáveis por consumidores ao redor do mundo terem confiança em comprar online, a alemã Eventim, veio para a Rio-2016 e decidiu ficar.

Entre Olimpíadas e Paralimpíadas, a Eventim vendeu 7 milhões de ingressos, sem apresentar problemas.Líder na Europa e com presença em 26 países, a companhia fez as modificações necessárias no software para se adaptar à legislação brasileira, e tratou de entender a logística e os gostos dos clientes nacionais.

As empresas que vendem ingressos online sobrevivem com o dinheiro da chamada “taxa de conveniência”, um valor que o cliente paga a mais para poder comprar pela internet. Justa ou não, o fato é que a taxa, que varia de 15% a 20% do valor do ingresso, transforma esse mercado num grande negócio.

O trabalho das empresas é disponibilizar plataformas tecnológicas robustas, para evitar que o site fique fora do ar ou crie filas de espera para a compra dos tickets, o que era muito comum até um passado recente. Além disso, elas cuidam da logística para fazer com que os ingressos cheguem às casas dos compradores, ou que eles possam imprimir em casa. Além, claro, da segurança para evitar falsificações.

Por ano, a Eventim vende mais de 100 milhões de ingressos no mundo e tem um faturamento de 930 milhões de dólares. Na América Latina, a empresa formou uma joint-venture com a Sony Entertainment – que cuida da carreira de diversos artistas, como Roberto Carlos, Bob Dylan, Foo Fighters. Desde o começo do ano, tem escritórios em São Paulo, Salvador e Belo Horizonte. “Nossa ambição é servir o país todo, indo para cada canto que tiver um evento que precise vender ingressos”, diz Klaus-Peter Schulenberg, presidente mundial da Eventim.

Um desafio chamado Brasil

De acordo com a consultoria PwC, o mercado brasileiro de shows de música, incluindo a venda de ingressos e o patrocínio, foi de 155 milhões de dólares em 2015 e a expectativa é que chegue a 211 milhões de dólares em 2020, um crescimento de mais de 7% ao ano. No Reino Unido, o mercado é muito maior, de 1,7 bilhão de dólares ao ano, mas deve ter uma queda de 0,1% no mesmo período. “O Brasil é uma oportunidade boa porque, por motivos culturais e econômicos, tem um mercado muito menor do que países menos desenvolvidos, como o México. A variação cambial dificulta trazer artistas de fora e os brasileiros cobram cachê altíssimo”, Alexandre Eisenstein, especialista em mídia e entretenimento da PwC Brasil.

Mas o mercado para a Eventim não é um oceano azul. Grandes empresas já têm operações bem formatadas para o país. Algumas delas, como a Ticket for Fun, do grupo Time for Fun, são responsáveis pela venda de tickets principalmente para eventos e casas de show do próprio grupo. Só a operação de bilheterias, bares e locais de show rendeu cerca de 70 milhões de reais nos seis primeiros meses de 2016, cerca de 14% do faturamento total da empresa.

Outras companhias menores funcionam como terceirizadas de produtores de eventos independentes. Nesse caso, algumas já estabelecidas são a Livepass, a Ingresso Rápido e a Ticket360, além de startups que tentam crescer nesse meio, como a Ingresse. A Eventim chega para concorrer com todas elas. “Claro que existem grupos grandes, mas nenhum é dominante”, diz Edgar Berger, presidente da Sony Music Entertainment Internacional, sócia da Eventim na empreitada latino-americana.

As grandes produtoras organizam os próprios shows. Nesse caso, a Eventim vai poder contar com o catálogo de artistas da Sony, onde não deve enfrentar concorrência e também não deve enfrentar dificuldades em encontrar clientes, já que esses artistas possuem sua base de fãs.

Os eventos médios podem representar um nicho até mais interessante que o dos grandes eventos com artistas internacionais. “O mercado para as independentes é maior ainda do que o de grandes shows internacionais. Existem muitos festivais e shows para cinco ou dez mil pessoas acontecendo semanalmente em todos os cantos do país, fora das grandes capitais”, diz Fábio Salvá, fundador da Ticket360.

Embora não tenha problemas com capital ou sua tecnologia, a Eventim terá que se fazer conhecida para produtores independentes, entender a logística de entrega, e montar pontos de venda físicos. “A empresa terá que investir em infraestrutura, capilaridade de pontos de venda e demanda muito tempo para se construir uma base de clientes”, diz Eisenstein, da PwC Brasil.

Para complicar, alguns estados, como o Rio de Janeiro e Santa Catarina, têm leis específicas que regulam a venda de ingressos, exigindo que parte dela seja feita por pontos físicos. Adequar a taxa de conveniência também é um desafio. O valor causa polêmica, principalmente em grandes shows internacionais, que têm ingressos mais caros e onde as taxas passam com frequência dos 100 reais. No Rio de Janeiro, a lei limita o valor a 10% do preço do ingresso.

“Trabalhamos em 26 países e nos adaptamos às especificidades de cada um deles. No Brasil, não será diferente”, diz Schulenberg. Se depender do exemplo das Olimpíadas, a Eventim não tem o que temer – mas, no Brasil, o buraco costuma ser mais fundo do que na Inglaterra ou na Alemanha.

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