A Via Vareja busca um caminho

A situação dramática do varejo brasileiro de móveis e eletrodomésticos fez o mercado redobrar a atenção sobre as grandes redes do setor. A pressão tem sido ainda maior em cima da Via Varejo, dona das Casas Bahia e do Ponto Frio e líder de vendas. Só em março, as vendas de eletrodomésticos e móveis encolheram 13,8% sobre o mesmo mês de 2015, de acordo com relatório do Itaú BBA que aponta, ainda, uma continuidade do ritmo de baixa no varejo para os próximos meses. Especialistas falam em uma chance de leve retomada apenas a partir de 2017. Neste sentido, não há muito que o governo Temer possa fazer no curto prazo para aliviar a barra – é o aumento gradual do poder de compra e o fim do medo do desemprego que vai fazer os brasileiros voltarem a comprar fogões, móveis, ventiladores.

A Via Varejo procura recuperar mais do que a confiança dos consumidores – precisa também aliviar a barra com os investidores. Alguns aspectos da gestão da empresa estimularam certo ceticismo nos últimos anos, como a dificuldade de lidar com as marcas no mesmo guarda-chuva e a troca constante de nomes em cargos de liderança: em três anos, ao menos sete posições estratégicas mudaram de dono, incluindo presidência. Agora, a companhia parece se esforçar para garantir aos acionistas que os negócios têm solidez suficiente para aguentar o tranco.

Não é tarefa fácil. O lucro líquido despencou 98,7% no primeiro trimestre, ante o mesmo período de 2015. A receita liquida da categoria “mesmas lojas” (as com mais de um ano de operação) regrediu 11,8%. São indicadores piores que os da concorrente Magazine Luiza para o período. Em relatório de um banco de investimentos sobre a Via Varejo, os analistas afirmaram estar “intrigados com o desempenho do principal concorrente da companhia”.

Mas há sinais de que a Via Varejo tem cartas que podem, se não mudar o jogo, ao menos deixá-lo favorável caso o mercado melhore. O caixa é uma. “Nossa posição de caixa nos diferencia no setor e permite atravessar esse período mais difícil de mercado bem protegidos”, disse o presidente da Via Varejo, Peter Estermann, ao divulgar os resultados. Pode ser uma questão decisiva. “Preservar o caixa, especialmente no segmento de eletrônicos, móveis e eletrodomésticos, é fundamental, ainda mais num momento como esse”, diz Paola Mello, analista de varejo do Citigroup.

A empresa também passou a encolher menos. Nos terceiro e quarto trimestres de 2015, a receita líquida em “mesmas lojas” caiu 24,6% e 15,2% – até os 11,8% dos primeiros meses de 2016. Procurada por EXAME Hoje, a empresa respondeu, em nota, que “a tendência de recuperação aponta um possível aumento de participação de mercado para a Via Varejo”, disse a empresa em nota

As ações para remediar os resultados – já que o lucro minguado se deveu, em boa parte, à dificuldade de diluir despesas fixas com as vendas em baixa, além dos custos que vieram dos esforços de 2015 para deixar a empresa mais enxuta, como fechar lojas, converter bandeiras de Ponto Frio para Casas Bahia e demitir mais de 11 000 funcionários – têm incluído atrair clientes de lojas fechadas pela concorrência, monitorar de perto o desempenho das próprias lojas, reduzir prazos de entrega e montagem, praticar preços mais agressivos e vender mais serviços e itens de telefonia, um dos poucos que mantém números positivos no varejo.

Além disso, a Via Varejo anunciou a intenção de integrar-se à CNova, empresa que opera os sites de Casas Bahia e Ponto Frio e também é controlada pelos franceses do Casino. A fusão resolveria um problema que há tempos leva desconforto aos acionistas – ter os canais de uma mesma marca geridos separadamente. E, em muitos casos, brigando entre si por descontos. “A estratégia de combinar esses canais é bastante positiva”, diz Eugênio Foganholo, diretor da Mixxer, especialista em varejo. “O sucesso, claro, vai depender de uma execução muito bem conduzida.”

Por mais que o setor precise despencar ainda mais para chegar ao fundo do poço, alguns analistas acreditam que a Via Varejo se antecipou e já aterrissou em 2015. Uma estimativa de mercado prevê lucro de cerca de 140 milhões de reais neste ano: distante do quase 1 bilhão de reais de 2014, mas bem acima dos 3 milhões de reais de 2015. O pior pode até ter passado – mas não significa que o melhor já esteja a caminho.

(Hugo Vidotto)

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