Crise de crédito no Brasil atinge lucro dos bancos

Segundo uma fonte, Bradesco fez reservas para calotes empresariais no primeiro trimestre, e Banco do Brasil e Itaú podem ser os próximos

A piora na crise de crédito corporativo no Brasil está forçando os maiores bancos do País a registrar perdas que vinham sendo capazes de evitar até agora.

O Banco Bradesco, o segundo maior do País em valor de mercado, fez uma provisão de R$ 836 milhões (US$ 240 milhões) no primeiro trimestre para cobrir empréstimos para a operadora de plataformas de petróleo Sete Brasil Participações, disse uma pessoa com conhecimento direto do assunto na quinta-feira, pedindo anonimato porque a informação não é pública. O lucro caiu 3,7 por cento.

O Itaú Unibanco, maior banco brasileiro em valor de mercado, e o Banco do Brasil, o número um em ativos, podem ser os próximos.

O Itaú, que divulgará o balanço do primeiro trimestre na terça-feira, tomou em fevereiro recursos do FGCN, o fundo naval, como garantia para empréstimos que a Sete Brasil não conseguiu honrar junto ao banco.

O Banco do Brasil possui uma exposição de cerca de R$ 4 bilhões à Sete Brasil e ainda não provisionou recursos para todo esse valor, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

“Esse aumento nas provisões do Bradesco aumenta a expectativa em relação ao balanço do Itaú na semana que vem”, disse Max Bohm, analista da Empiricus Independent Research em São Paulo.

“O balanço do Bradesco acende o sinal de alerta do que pode vir nos próximos trimestres, sobretudo quando você olha para a inadimplência de 60 dias”.

A inadimplência no Brasil vem aumentando com as empresas e famílias lutando contra a pior recessão do País em um século.

A taxa de empréstimos atrasados há mais de 90 dias se manteve em março em 3,5 por cento, o nível mais elevado em três anos, segundo dados do Banco Central.

O número do Bradesco subiu para 4,2 por cento no primeiro trimestre, contra 3,6 por cento no mesmo período do ano anterior. A taxa de 60 dias do banco subiu 0,8 ponto percentual, para 5,3 por cento.

As empresas brasileiras estão tendo dificuldades para honrar seus pagamentos devido à crise econômica, que já dura dois anos, aos juros elevados, à queda dos preços das commodities e à moeda desvalorizada, fatores que, combinados, prejudicam os lucros e as receitas. A presidente Dilma Rousseff enfrenta um processo de impeachment e a crise política, cada vez pior, paralisou as reformas para reativar a economia.

A Sete Brasil possui R$ 18 bilhões em dívida total, principalmente com bancos locais. Suas finanças foram destruídas quando a Petrobras reduziu um contrato de leasing de plataformas de 28 para 10 depois da queda do petróleo e da Lava Jato. Em 20 de abril, os acionistas da Sete Brasil decidiram pedir recuperação judicial, disse um representante da empresa na ocasião, sem dar detalhes sobre os credores e o cronograma estimado.

A Caixa Econômica Federal possui exposição de R$ 1,7 bilhão à Sete Brasil. A do Bradesco é de cerca de US$ 450 milhões.

Riscos ocultos

Em vez de constituírem provisões, muitos bancos brasileiros vêm reestruturando empréstimos, o que poderia mascarar o crescente risco dos ativos, disse a Moody’s Investors Service em um relatório de 11 de abril. As reestruturações aumentaram 37 por cento no fim de 2015 em relação ao ano anterior. Isso pode estar subestimando a inadimplência e superdimensionando a cobertura com provisões, disse a agência de classificação.

Representantes do Bradesco, do Banco do Brasil, da Caixa e do Itaú preferiram não comentar a respeito da Sete Brasil.

Os fundos de pensão estatais dos trabalhadores da Petrobras, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica possuem cerca de 38 por cento da Sete Brasil e seus prejuízos dependeriam das provisões anteriores, disse uma das pessoas. O Banco Santander Brasil também é acionista da empresa.

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