Easy e 99: todos contra o Uber

Gian Kojikovski

Em junho do ano passado, Dennis Wang, co-presidente da Easy (antiga Easy Taxi) foi a Pequim, na China, para uma reunião decisiva. Sentou-se com representantes da Baidu, conhecida como Google chinês, do fundo americano Riverwood Capital e da empresa de mobilidade Didi Chuxing, para ouvir uma proposta: juntar-se com a concorrente 99 (antiga 99Taxi), com um aporte financeiro da Riverwood e da Didi, para fortalecer a briga contra a Uber e outros concorrentes na América Latina. Semanas depois, aconteceu um novo encontro, dessa vez com Peter Fernandez, presidente da 99, também presente.

As reuniões parecem improváveis para quem vê a ferrenha disputa pelo mercado de transporte de passageiros por meio de táxis e carros particulares nas ruas do país, mas conversas entre as empresas acontecem desde 2012 – e ambas negociam com fundos e companhias chinesas desde 2013. Em um mercado que segue se consolidando mundo afora, fazer uma sinergia contra o Uber e para alavancar os negócios na América Latina parecia fazer sentido. O Uber tem em São Paulo seu segundo e maior mercado no mundo. “Não é um mercado para ter uma só companhia por país, mas também não funciona com quatro ou cinco empresas”, diz um executivo do setor.

Na proposta final chinesa, que transformaria 99 e Easy em uma só empresa, o Riverwood colocaria cerca de 100 milhões de dólares e a Didi, entre 100 e 200 milhões. O Baidu, dono do site brasileiro de compras coletivas Peixe Urbano, e que vem tentando aumentar sua influência no Brasil, ficaria com o mérito de ter ajudado na negociação. Mas o plano não saiu do papel. A Didi desistiu do negócio, o que fez o Riverwood sair do páreo e acabando com o interesse das startups.

No fim das contas, a 99 anunciou no dia 4 de janeiro um aporte de 100 milhões de dólares da Didi. A Easy ficou a ver navios. Outros fundos que participaram do round não foram divulgados, mas um deles teria sido o próprio Riverwood, que havia sido trazido para a mesa justamente pela Easy, mas preferiu a concorrente. Procuradas, Baidu, 99 e Easy não quiseram comentar o caso com EXAME Hoje.

Para tentar diminuir os problemas que enfrenta no país, o Uber anunciou nesta terça-feira 17 que investirá 200 milhões de reais no mercado brasileiro, criando uma central de atendimento que deve gerar 2.000 empregos diretos. A startup também encontra dificuldades em entrar em países como Colômbia e Peru, onde o Easy comanda o mercado.

Logo após o acordo entre Didi e 99, o presidente do Baidu no Brasil, Yan Di, mostrou-se decepcionado e postou em chinês no WeChat, rede social de propriedade da própria empresa, a confirmação da tentativa de acordo. “No ano passado o Baidu tentou muito juntar forças para investir em uma fusão de 99 e Easy como forma de equilíbrio contra a Uber – fizemos duas viagens à China apenas para isso. Mas as empresas são surpreendentemente míopes – todo mundo está apenas se preocupando em maximizar o seu valor de mercado para os investidores. Eu não acredito que Didi fará mais do que apenas o investimento – e isto dará a Uber uma oportunidade de dividir e vencer todos”, escreveu.

A Didi trabalha com carros e até vans compartilhadas na China, além de já ter captado quase 7,5 bilhões de dólares em investimentos, o que garante que não faltará dinheiro para correr atrás de tendências da indústria. “É um movimento que faz sentido para a 99, assim como pode ser interessante para a Easy se aproximar de uma montadora, como a General Motors e a Volkswagen, que já investiram em empresas de transporte em outros país, assim como com a Cabify”, diz Paul Malicki, ex-diretor de marketing da Easy e membro do conselho da Splyt, startup especializada em monitorar apps de mobilidade urbana.

Entre os pontos que emperraram o negócio está a disputa sobre o controle da futura companhia, assim como o interesse divergente de fundos que investiram em ambos os negócios. Embora as empresas tivessem chegado a um acordo de que a 99 teria o controle do negócio, o poder de cada uma delas – e dos fundos que investiram em ambas – dentro dessa nova empresa causou atritos. O Monashees, um dos principais fundos de investimento brasileiros e que investe na 99 desde seus primeiros dias, foi um dos que não se sentiram confortáveis e também dificultou o negócio.

A onda do momento

O mercado de mobilidade urbana anda supermovimentado em todo o mundo e a Didi, investidora da 99, é uma das principais responsáveis por isso. Desde que a Uber anunciou que a China seria prioridade em seus planos de expansão, os chineses passaram a fazer movimentos estratégicos em todo o mundo na tentativa de minar os investimentos da empresa americana. Assim, passaram a colocar dinheiro nos aplicativos concorrentes da empresa americana em todos os outros mercados emergentes – e até nos Estados Unidos – como forma de impedir que os americanos colocassem 100% de seu foco no país asiático. Depois de dois bilhões de dólares perdidos somente na China, Travis Kalanick, presidente da Uber, acusou o golpe e decidiu se retirar do país em troca de um bilhão de dólares em dinheiro e uma fatia de 17,7% das ações da concorrente.

A vinda da Didi para a América Latina, último mercado emergente a entrar em seu radar, deve forçar mais um movimento. Desde antes do anúncio da nova rodada de investimentos da 99, a Easy e o espanhol Cabify, que começou a operar no Brasil em meados de 2016, têm conversado. O Cabify não trabalha com táxis, apenas com carros particulares. Uma possível fusão seria interessante porque tanto a empresa espanhola como a brasileira têm presença em praticamente toda a América Latina, o que geraria uma sinergia. O Cabify também atua em alguns países europeus, como Espanha e Portugal. Por outro lado, nada deve acontecer antes de ficar definida a estratégia que a 99 tomará após a chegada do dinheiro chinês.

Quando o anúncio do investimento foi feito, a 99 deixou claro que pretendia expandir no Brasil a categoria 99pop, de carros particulares, e depois procurar novos mercados na América Latina. A estratégia pode ser complicada. “Sair do zero em um novo mercado que já tem outros competidores dominantes é muito complicado e caro. Precisa ter muito fôlego financeiro para atrair tanto clientes como motoristas”, diz um executivo do setor. Agora, a empresa tem 100 milhões de dólares fresquinhos. A disputa entre as startups deve ficar cada vez mais acirrada.

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