Grandes produtores mundiais de carne rebatem pesquisa da OMS

A França aos EUA, passando pelo Brasil, a indústria da carne reagiu duramente após a publicação de um estudo que acusa embutidos de aumentar risco de câncer

Paris – Da França aos Estados Unidos, passando pelo Brasil, a indústria da carne reagiu duramente após a publicação, nesta segunda-feira, de um estudo internacional que acusa a carne vermelha e os embutidos de aumentar o risco de câncer.

A Agência Internacional para a Pesquisa sobre o Câncer (IARC, na sigla em inglês), subordinada à Organização Mundial da Saúde (OMS), colocou o consumo excessivo de carnes processadas, como embutidos ou frios, no Grupo 1 de risco de levar ao desenvolvimento de câncer, principalmente o colorretal.

A pesquisa, que reuniu 800 estudos, aponta que o consumo excessivo de carnes vermelhas em geral – inclusive bovina, suína e ovina – é “provavelmente cancerígeno”.

Nos Estados Unidos, maior produtor mundial de carne vermelha, os profissionais do setor estavam de armas em punho há semanas, propondo análises antes mesmo da publicação do estudo da IARC.

O instituto americano da carne (NAMI) criticou o relatório da OMS por considerar que constitui um “desafio ao senso comum”. Os autores do informe, acusa a NAMI, “trituraram os dados para chegar a um resultado específico”.

Industriais americanos e francesas recordam que a carne é apenas um dos mais de 940 produtos, dos mais diversos, classificados como provavelmente cancerígenas pela agência especializada da OMS.

“Se nós nos agarrássemos à lista (…)do IARC, ficaria claro que o simples fato de viver na Terra seria um risco de câncer”, rebateu a Associação da Indústria de Carne Americana.

A NAMI enfatiza que “a ciência tem mostrado que o câncer é uma doença complexa que não é causada apenas por alguns alimentos”.

Um argumento reproduzido praticamente de forma idêntica pelos industriais europeus. “É inadequado atribuir um único fator a um risco aumentado de câncer. É um assunto muito complexo que pode depender de uma combinação de muitos outros fatores, como idade, genética, dieta, ambiente e estilo de vida”, explica em comunicado o Centro de Ligação para a Indústria de Processamento de Carne na União Europeia.

“Problema está nos aditivos”

Outro argumento repetida em uníssono: o valor nutricional da carne.

No Brasil, segundo maior produtor de carne bovina, os exportadores enfatizam “os benefícios nutricionais para a saúde humana trazidos pelo consumo de carne vermelha e de outras proteínas” animais.

Mesmo que “o consumo excessivo de carne não deva ser promovido”, é possível “ter prazer e obter um equilíbrio nutricional” nas refeições combinando carne e legumes, afirma Xavier Beulin, presidente da FNSEA, maior sindicato agrícola francês.

“A carne em si não apresenta nenhuma dificuldade. O problema vem dos produtos à base de carne nos quais são acrescentados aditivos como nitratos e nitritos”, que podem tornar-se cancerígenos com o cozimento, afirma o Instituto Nacional da Carne do Uruguai, que alerta também para a falta de fibras de efeito protetor na dieta moderna.

Na França, primeiro produtor europeu de carne bovina, as federações de produtores de embutidos insistem sobre o problema da quantidade.

Segundo o estudo, o risco de câncer colorretal pode aumentar em 17% para cada porção de 100 gramas de carne consumida por dia, e em 18% para cada porção de 50 gramas de embutidos.

Mas o consumo médio de carne na França é de 52,5 gramas/dia/habitante, e de 35 gramas para os embutidos.

“Os pecuaristas (franceses, ndlr) devem se perguntar se tudo isso é sério, já que eles conhecem as maiores dificuldades”, apesar da produção de “raças de altíssimo valor agregado”, lamentou Beulin.

Os países industrializados viram o consumo de carne diminuir nos últimos anos – efeito da crise econômica, mas também das críticas sobre o impacto que a dieta carnívora tem sobre a saúde e o meio ambiente.

Em revanche, o consumo mundial aumentou claramente graças aos países emergentes: Brasil e China na liderança.

O consumo aumentou em 15% entre 2008 e 2014 na China, enquanto recuou nas mesmas proporções na União Europeia, segundo a agência governamental francesa FranceAgriMer.

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