Greve e má gestão aterrorizavam a EgyptAir antes do desastre

Além das preocupações com a gestão da empresa estão os anseios com o possível abalo do turismo do Egito frente a mais uma tragédia

São Paulo – Os destroços do avião da Airbus A-320 da Egyptair, que caiu ontem no Mar Mediterrâneo, foram encontrados nesta sexta, dia 20, anunciaram as Forças Armadas do Egito.

A aeronave fazia a rota entre Paris e a cidade do Cairo e transportava 56 passageiros. Não há esperança de sobreviventes, nem se sabe ainda a causa do acidente – apesar da hipótese de ataque terrorista estar sendo fortemente considerada.

Entre as poucas certezas está a de que a queda do avião é mais uma tragédia histórica para as aéreas e o mundo. Se a EgyptAir conseguirá sair inabalada disso é uma das inúmeras dúvidas.

A companhia de aviação egípcia, uma das mais antigas e ricas do mundo, passava por grandes preocupações nos últimos tempos.

Quatro dias antes do desastre, depois de uma greve de funcionários por melhores condições de trabalho, a empresa topou ajustar os salários dos pilotos em 40% ao longo de dois anos.

Os demais contratados teriam aumentos de 15%, ambos a partir de julho, após um longo período de turbulência entre as partes, que deixou rastros de atrasos em boa parte dos voos.

“Os salários em EgyptAir, em comparação com outras privadas e internacionais, são muito baixos”, disse um dos pilotos ao site Daily News Egypt.

As turbulências de gestão acontecem na EgyptAir com mais evidência desde agosto do ano passado, quando o então chaiman da companhia Sameh al-Hefny renunciou ao cargo.

Joia do Nilo

A EgyptAir é o principal negócio do maior setor produtivo do Egito, o turismo, uma espécie de joia do Nilo para o país atingido por atentados extremistas e tensões políticas.

Criada em 1932 como MisrAir, foi a sétima aérea a operar no mundo e passou para as mãos do governo na Segunda Guerra Mundial. Ganhou tecnologia e ambição americana em seguida.

Só na década de 70 passou a se chamar EgyptAir, poucos anos depois de unir operações de duas rivais sírias e iniciar rotas longas para atender a demanda internacional pelo crescente turismo e negócios no Oriente Médio.

Pela grandeza da operação, ganhou independência, mas ainda se retratava ao governo egípcio. Os embates de diretrizes, no entanto, levaram à renúncia de al-Hefny.

Um relatório divulgado pela autoridade de controle administrativo do país foi o estopim do conflito.

O documento apontava má gestão, com denúncias de sucatas abandonadas pela empresa nas pistas de voo do Aeroporto Internacional de Cairo, além de compra desnecessária de aviões.

Em resposta, o ex-CEO argumentou em sua página no Facebook que reduziu o prejuízo de 2,8 bilhões para 750 milhões de libras egípcias durante sua gestão, desde março de 2014.

Porém, de acordo com jornais locais, a relação estremecida entre Hefny e o Ministro de Aviação Civil do Egito, Hossam Kamal, foi o que pesou e não a parte operacional da aérea.

O acordo fechado entre a EgyptAir e a consultoria norte-americana Sabre Airline Solutions, em dezembro de 2014, sob comando do executivo, teria desagradado o governo.

Para simplificar e trazer mais eficiência ao negócio, parte da frota foi vendida e algumas rotas internacionais canceladas, sem autorização do Ministério.

Peso do deserto

Muito além das preocupações com a gestão da empresa estão os anseios com o possível abalo do turismo do Egito frente a mais essa tragédia.

A queda do Airbus A-320 é o terceiro episódio aéreo dramático em sete meses. Em outubro, um atentado com bomba reivindicado pelo grupo Estado Islâmico (EI) desintegrou sobre o deserto do Sinai egípcio um avião turístico russo com 224 pessoas a bordo.

Em março, um voo da EgyptAir foi desviado por um indivíduo “psicologicamente instável”, que se entregou e liberou aos 55 passageiros.

A questão é se tais ocorrências vão fazer com que a quantidade de turistas interessados em visitar o Egito vire um deserto. O país tenta atrair mais turistas e investidores estrangeiros desde a Primavera Árabe, em 2011.

No ano passado, a indústria turística faturou 6,1 bilhões de dólares, 15% abaixo que o atingido um ano antes. O recuo aumenta a pressão sobre as reservas do país, que caíram de 36 bilhões de dólares no final de 2010 para 17 bilhões em abril.

“Tudo isso afasta, claro, qualquer possibilidade de recuperação em 2016”, disse Hany Farahat, economista do banco de investimentos egípcio CI Capital, em entrevista à AFP.

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