Kumruian, da Netshoes: a estreia na bolsa

Sérgio Teixeira Jr., de Nova York

A loja virtual Netshoes estreiou na Bolsa de Nova York nessa quarta-feira 12. Logo depois de se abrir com exclusividade ao pregão americano, Marcio Kumruian, fundador e presidente da empresa, conversou com EXAME Hoje em uma sala de reuniões da New York Stock Exchange. O martelo usado para dar início aos negócios, souvenir entregue à empresa em comemoração da oferta pública inicial, ou IPO, estava sobre a mesa.

As ações da Netshoes, negociadas sob o código NETS, foram lançadas a 18 dólares, mas os papeis da empresa caíram para 16,35 dólares assim que o pregão abriu e atingiram o valor máximo de 17,29 dólares durante o dia. No fechamento do mercado, valiam 16,10 dólares. “A Netshoes não está aqui por um dia. A Netshoes está aqui com um plano de longo prazo”, afirmou Kumruian, paulistano de 43 anos. Pedindo desculpas por misturar algumas palavras em inglês – “já estou confuso depois de tantos dias conversando com investidores” –, o empresário falou sobre os planos para o futuro, as perspectivas de um negócio que ainda não dá lucro e a estratégia de expansão depois de levantar 148,5 milhões de dólares na Bolsa. 

A ação está caindo um pouco nestas primeiras horas de negociação [A queda no primeiro dia foi de 10%]. Alguma reação?

É importante acompanhar o primeiro dia, a primeira semana. Mas a Netshoes não está aqui por um dia. A Netshoes está aqui com um plano de longo prazo. Os investidores todos ficaram, o que demonstra a confiança nos nossos planos. E há notícias do Brasil, da Síria, isso obviamente tem influência. Temos de ter paciência.

Por que fazer o IPO neste momento, quando há tanta instabilidade no Brasil?

Os últimos dois anos foram muito difíceis, com muita instabilidade política. Mas a Netshoes não deixou de mostrar resultados. Acreditamos que os dois piores anos já passaram. Então, estamos num ponto de inflexão. Precisamos de um mar calmo, de previsibilidade. O Brasil pode estar voltando a acelerar. Fazendo a nossa parte, esse é o melhor momento. Podemos capturar a retomada. Não só nós, como nossos investidores. Essa foi uma das nossas premissas para fazer o IPO neste momento.

Como o senhor acredita que o IPO pode impactar a gestão da empresa? Administrar uma companhia pública traz uma série de exigências: relatórios trimestrais, demandas dos investidores e assim por diante.

Entendemos isso como um próximo nível. Estamos nos preparando para esse momento há alguns anos. Parte da preparação foi a melhoria dos processos, dos sistemas, da governança. E também é importante não perder a agilidade e não perder o poder de execução. São coisas separadas. É necessário e obrigatório manter controle, mas ao mesmo tempo temos de manter a velocidade e a execução.

O senhor não vê um risco nas exigências por resultados de curto prazo? Não pode ser uma distração?

A empresa tem um caminho claro a seguir. Temos de desenvolver a Zattini [site de venda de itens de moda e beleza], temos o marketplace, que vem crescendo muito rapidamente, e temos as operações de Argentina e México, que ainda não estão no mesmo nível da brasieleira. Todas as plataformas de crescimento e rentabilidade estão aí. Agora precisamos executar o plano. Os resultados serão consequência disso.

Qual será a tolerância dos investidores com uma empresa que ainda não dá lucro?

Esse foi um motivo para termos escolhido a Bolsa de Nova York, onde há investidores que entendem nossa estratégia de médio e longo prazo. A Netshoes vai continuar crescendo, como demonstrou nos últimos três anos. No Brasil, crescemos 29% em 2015, o dobro [do que cresceram os varejistas] da internet. Em 2016, crescemos 17,9%, contra 8% da internet. Já tivemos dois anos de Ebitda positivo na operação brasileira.

Expansão para mercados da América Latina é algo que se fala muito entre as empresas de tecnologia brasileiras, mas poucas obtêm sucesso. Qual é o desafio de crescer nesses países?

A América Latina é um dos continentes que mais crescem em termos de e-commerce. As projeções para 2019 são de um mercado online duas vezes maior que o de hoje, passando de 30 bilhões de dólares para 64 bilhões de dólares. Isso já representa um amplo horizonte de crescimento. Comparando os três países, Argentina e México ainda estão atrás do Brasil. O nível de competição é baixo, a penetração do varejo online é baixa e o potencial de crescimento é alto. Mas acreditamos que logo tudo vá se equilibrar. O celular muda tudo. Acabam as barreiras físicas. Não é preciso ter internet fixa em casa. E temos presença na Argentina e no México desde 2012, então, estamos bem posicionados. O plano é nos concentrar nesses dois países.

Parte da experiência do cliente da Netshoes não depende da empresa, mas de quem faz a entrega. A infraestrutura de logística brasileira é um obstáculo para o crescimento?

Gosto de dizer que a América Latina não é “plug-and-play”. Não temos uma Fedex ou uma UPS cobrindo o país todo. Temos acordos com cerca de 35 empresas de logística nos três países em que operamos. É uma barreira de entrada importante para quem quiser entrar no nosso mercado e para quem trabalha com outro tipo de produto.

Algum plano de ampliar o leque de produtos oferecidos, de tornar-se um varejista mais genérico?

Não. A Netshoes vai continuar atuando em categorias que atendem a alguns critérios. O primeiro é margem alta. O segundo é que o produto tenha ciclo de reposição rápido, ou seja, que gere compras mais recorrentes. O terceiro é fácil entrega; 92% das nossas encomendas têm até 2 kg. A Zattini começou com moda, depois ampliou para beleza. Ela veio para ser uma loja de departamentos. Assim sendo, algumas subcategorias vão entrar, como produtos para crianças, bebês, relógios, óculos… Mas o foco é principalmente em roupas, calçados e acessórios.

A Netshoes não vai vender geladeiras tão cedo.

Não. Nós não vamos vender geladeiras. Geladeira é difícil de entregar, quem compra não fica muito feliz com a experiência, as compras só acontecem a cada dez anos, os preços são “comoditizados” e têm baixa margem. Por que vamos vender geladeira? Deixa para os outros caras.

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