Por que a má saúde da Unimed Paulistana a levou à UTI

Situação da operadora era crítica há anos – e os esforços para resolver não foram suficientes para tirá-la das dificuldades

São Paulo – Como uma operadora de saúde com faturamento bilionário e milhares de clientes, fiscalizada por um órgão público, pode quebrar?

Essa é uma das perguntas feitas agora pelos parceiros, funcionários e clientes da Unimed Paulistana.

A Agência Nacional de Saúde decretou hoje a alienação compulsória da carteira de 744.000 beneficiários da empresa – que passarão a ser atendidos por outra companhia.

A Unimed Paulistana era a principal do Sistema Unimed, considerada a maior rede de assistência médica do Brasil, com 351 cooperativas, 110 mil médicos e 113 hospitais.

Empregava, até dezembro, 3.351 pessoas e faturava 3,2 bilhões de reais por ano. A marca valia 2,9 bilhões de reais e ocupava o 23º lugar entre as mais poderosas do país.

No entanto, a situação da empresa do setor de saúde estava complicada há tempos.

Desde 2009, quando a unidade chegou a dever 1,3 bilhão de reais em tributos, a ANS passou a controlar todos os passos da empresa e exigiu a troca do conselho de administração.

A credibilidade da rede caiu, como era de se esperar, tanto entre consumidores como entre médicos, que passaram a não mais querer atender pela operadora.

Em julho de 2012 veio outro baque: a ANS suspendeu a venda de 32 produtos da Unimed Paulistana, também graças ao cenário financeiro delicado da empresa.

Daí por diante, com a contratação de consultorias externas e nova troca de comando, a companhia alongou a dívida e passou a focar em um melhor controle de custos e tíquete médio.

Ida para a UTI

De acordo com o último balanço da empresa, o valor das consultas aumentou 110% de 2011 a 2014, frente a uma inflação de 27%.

Naquele ano, 159.321 novos beneficiários entraram par a carteira da Unimed Paulistana, número 89,5% maior que o de 2013. Com isso, o faturamento mensal saltou 87,2% no ano.

A empresa ainda endureceu, por exemplo, os critérios de avaliação para clientes internados em pronto-socorro. Ela constatou que até 48% dos pacientes mantidos nos hospitais não precisavam estar ali, do ponto de vista técnico.

Médicos plantonistas passaram, então, a ter de contatar o médico da regulação da Unimed Paulista antes de internar um paciente. Assim, os casos desnecessários eram direcionados para alta ou saúde suplementar.

Uma análise mais rigorosa de próteses e materiais especiais em cirurgias de emergência fez com que a empresa deixasse de gastar 13,9 milhões de reais entre agosto e dezembro de 2014, uma economia de 24%.

Além disso, pacientes que antes ficariam internados por problemas crônicos, passaram a ser atendidos em casa – os custos com assistência fora do hospital e saúde suplementar são 70% menores do que os internos.

A dívida tributária caiu do 1,3 bilhão de reais para 253 milhões de reais, em cinco anos.

Ainda assim, a Unimed Paulistana fechou as contas de 2014 no vermelho. Mesmo com a queda de 73% do prejuízo, em comparação a 2013, o resultado foi 43,58 milhões de reais negativos.

O patrimônio líquido da operadora piorou 54% de um ano para outro e atingiu 169,2 milhões de reais negativos.

Uma prova de que um paciente – ou um negócio – com má saúde precisa de um diagnóstico rápido e tratamento certeiro para não perder o fôlego de vez.

Mas como pode?

Para a advogada Renata Vilhena Silva, especializada em direito à saúde, a Agência Nacional de Saúde foi “conivente” com má gestão da Unimed Paulistana.

“Como a ANS não conseguiu contornar essa situação que ela mesma acompanhava desde 2009?”, questiona.

“A Unimed Paulistana esteve presente em todas as listas de empresas proibidas de vender planos de saúde divulgadas pela agência recentemente”, comenta ela. “Mas quando criava novos produtos, voltava a vender”.

Para Renata, a ANS não cumpriu seu papel de reguladora. De acordo com ela, a agência precisa ser mais transparente com os clientes da Unimed Paulistana e deve compartilhar, por exemplo, o valor da reserva financeira que a operadora tem para arcar com despesas de empresas terceirizadas.

Segundo o Vilhena e Silva Advogados, as dívidas da cooperativa com hospitais, clínicas e laboratórios somam quase 500 milhões de reais.

“A real situação da empresa a gente desconhece, então a ANS precisa divulgar”, afirma Renata.

Ainda conforme a especialista, a Unimed do Brasil pode ter responsabilidade solidária no caso.

Na visão da advogada, todo o sistema fica enfraquecido pela decisão da ANS, já que muitos usuários de outras unidades realizam consultas e cirurgias cobertos pela Unimed Paulistana no estado de São Paulo por meio de intercâmbio.

Demais cooperativas

Por meio de comunicado, a Unimed Brasil afirma que a determinação da ANS foi instituída única e exclusivamente para a Unimed Paulistana, “devido ao cenário econômico-financeiro vivenciado pela operadora”.

Informa ainda que “esta medida não se estende para as demais 350 cooperativas que compõem o Sistema Unimed. Portanto, não atinge clientes de outras operadoras Unimed”.

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