Rodrigues: falta uma estratégia para a agricultura

Thiago Lavado
 

O agronegócio brasileiro já rendeu mais de 1 trilhão de reais só em exportações nos últimos 15 anos. O Brasil é líder na exportação de soja, café e carnes – e agora tenta buscar outros mercados para conseguir avançar no setor. Apesar de a agricultura ser atividade comercial essencial no Brasil, desde sua fundação, e hoje ser referência em tecnologia de plantio em zonas tropicais, qualquer deslize em tecnologia pode deixar o país para trás em termos de competitividade. Para o ex-ministro da Agricultura e engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues, é crucial investir mais no desenvolvimento tecnológico do setor para aumentar a produtividade. Porém, nas fazendas Brasil afora, ainda falta o básico: treinamento de funcionários, conhecimento da legislação e expertise no manuseio de recursos. Em entrevista a EXAME Hoje, durante o Fórum do Agronegócio e Infraestrutura Logística do Instituto IBMEC, Rodrigues falou sobre os principais desafios do agronegócio para os próximos anos.

Quais foram as transformações que o agronegócio sofreu nos últimos anos? Como o setor caminhou?
 
O agronegócio brasileiro hoje representa 23% do PIB, gera entre 25 e 30% dos empregos do país e é um dos setores mais importantes da balança comercial. No ano passado, o setor exportou 88 bilhões de dólares. Comparativamente, em 2000, o valor exportado foi de 21 bilhões de dólares. O valor aumentou mais de 4 vezes num período em que o comércio mundial diminuiu por causa da crise de 2008. É um setor marcado pela competitividade, pela eficiência. Isso se deve muito ao investimento em tecnologia. Os dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de 1990 até hoje, apontam que, enquanto a área plantada com grãos cresceu 53%, a produção avançou 261%. A tecnologia é o principal responsável por isso.
 
Além da tecnologia, quais outros fatores garantiram esse crescimento?
 
Um fator muito importante foram políticas públicas. Há um destaque para o crédito rural e para o programa Moderfrota, no final dos anos 90, que permitiu modernizar a frota de tratores no país. Isso contribuiu para um aumento extraordinário na produtividade agrícola, com novas máquinas, plantadeiras e colheitadeiras. Tecnologia, políticas públicas e gente, que talvez seja o fator mais relevante. A agricultura  brasileira teve a sorte de contar com pessoas capacitadas em todos os setores, na universidade, na pesquisa, na atividade produtiva. Hoje, um jovem fazendeiro sabe quanto custa o preço da soja em Chicago, qual o frete para levar a soja para a China, se choveu na Argentina. A informação e a visão de mercado são muito mais consistentes, o que permite orientar muito bem as decisões.
 
Embora tenha havido esse crescimento e investimento em tecnologia, o que ainda falta no setor agrícola?
 
Falta estratégia. Não há uma estratégia para a agricultura brasileira e a última vez que houve foi em 1973 quando foram criadas a Embrapa e a Embrater. É preciso uma visão estratégica do Estado brasileiro e do próprio setor. Um tema super conhecido é o da logística. Um saco de soja que está em Lucas do Rio Verde, no interior do Mato Grosso, custa um valor. Trazê-lo para Santos custa o mesmo valor. Perde-se competitividade na logística. Esse é um tema central e o maior gargalo do agronegócio hoje. As vias de escoamento e os portos precisam de muito investimento. A Empresa de Planejamento e Logística fez um estudo e há um projeto, o Plano de Investimento em Logística, que havia sido lançado durante o governo Dilma, com 200 bilhões de reais para resolver a questão. Mas não saiu um tostão porque o modelo de concessão não era rentável, então não houve interesse empresarial. Agora já está se falando claramente numa abertura muito maior para as concessões, com lucratividade para quem investir. 
 
Que tipo de incentivos e seguranças o governo pode promover para a agricultura?
 
Uma delas é o seguro rural. Outros países protegem a agricultura não para salvar agricultores, mas porque é a única garantia de segurança alimentar e energética. Essa proteção é para que a sociedade tenha garantia de alimentos. No Brasil, essa visão não existe. O seguro é necessário para que o produtor possa produzir sem ter que ir embora do país ou quebrar. Por exemplo, o Maranhão foi muito afetado pelo El Niño este ano. A média de produtividade caiu de 55 sacas de soja por hectare para 37. É um desastre. Ninguém consegue pagar os custos e a operação. O atual ministro da Agricultura, Blairo Maggi, conhece esse assunto e já trabalha junto a uma comissão de seguro rural para melhorar essa pendência.
 
O mercado está otimista quanto a investimentos e à logística durante o governo Temer?
 
Sim. Está mais otimista do que estava no passado. Tanto na questão da logística, quanto de acordos bilaterais. O ministro José Serra está falando em fechar mais acordos desse tipo, mas não é suficiente ainda. Precisamos colocar mais dinheiro em tecnologia para alavancar a competitividade. Nós estamos entre os melhores do mundo em tecnologia tropical de plantio, mas se pararmos de investir podemos ser facilmente ultrapassados. A Embrapa hoje é nosso grande florão tecnológico. Temos que injetar mais recursos e permitir que a empresa cresça. Outros centros de pesquisa estão sucateados e precisam ser ressuscitados. As legislações estão obsoletas: trabalhista, previdenciária, tributária, fiscal, florestal. São leis velhas em um país que anseia por modernização. A flexibilização dessas legislações é essencial para a manutenção da competitividade.
 
Qual o papel da iniciativa privada no crescimento do setor?
 
Um deles é o das cooperativas agrícolas, que já respondem por 50% do volume da produção brasileira. Ainda é pouco. O pequeno produtor precisa de maiores estímulos, é necessário incentivar o cooperativismo. Tanto em isenções tributárias e fiscais, quanto na facilidade de crédito. Não tem espaço para o pequeno produtor fora das cooperativas. Tecnologia é uma coisa que o produtor já tem como objetivo buscar, mas a necessidade da  gestão é algo que nem todo produtor compreende ainda. Como o país é muito plural, um agricultor na serra gaúcha tem desafios muito diferentes daqueles em Rondonópolis, na Amazônia ou no agreste nordestino. Os mundos são tão diferentes que não foi possível produzir uma metodologia de gestão nacional. Os produtores precisam aprender a manejar melhor a compra de insumos e a venda da produção. A gestão fiscal é também um problema: há regras de isenções fiscais das quais o produtor poderia usufruir, mas poucos sabem como utilizar esse benefício. Recursos humanos e preparação: uma máquina de cortar cana custa 1,5 milhão de reais e às vezes é manejada por um trabalhador despreparado. Há ainda a questão da gestão ambiental. É fundamental aprender a manusear os recursos, terra e água, para que não haja perdas. Temos que formar mais e melhor para aumentar a produtividade. Essa responsabilidade de formar um gestor mais bem preparado é do setor privado.
 
Blairo Maggi tem feito viagens a Índia, China e outros países do Sudeste Asiático. De que maneira isso é importante?
 
Cerca de 40% do comércio mundial de alimentos acontece no âmbito de acordos bilaterais ou multilaterais. Nós não temos nenhum acordo comercial importante. A Ásia é das regiões consumidoras mais importantes, um grande mercado. Um terço de toda a produção mundial está lá. É um objeto de desejo do governo brasileiro fazer parte disso e o ministro Blairo Maggi montou acordos importantes. A China é o nosso grande mercado: 27% do mercado agrícola brasileiro está focado na China. Mas é mais focado em commodities, como soja e milho. Precisamos de acordos que nos permitam ampliar a dimensão desse comércio. São negociações complicadas, delicadas e que tomam tempo, mas temos que começar.

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