Todos contra todos

Ana Paula Ragazzi

A abertura do capital de uma empresa é seu baile de debutante. Lá está ela, recém-chegada à maturidade, sendo apresentada a potenciais interessados, mostrando aos barões das finanças -suas qualidades para uma vida de união. Quando tudo acontece normalmente, ao final do processo o potencial da empresa é julgado pelos investidores, que decidem se pagam ou não o preço pedido, e pronto. Mas nem sempre as coisas saem de acordo com o que o livro-texto prevê. Foi o que aconteceu no Brasil nos primeiros dias de fevereiro, quando duas empresas de aluguel de carros — Movida e Unidas — escolheram a mesma semana para fazer seu baile de debutante. Uma fez tudo o que podia para atrapalhar o baile da outra. Para complicar um pouco mais, a Localiza, rival grandona de ambas e que já tem ações listadas na bolsa, decidiu fazer sua parte para que a abertura do capital alheia desse errado. Foi uma confusão como há muito não se via.

Em condições normais, não faz sentido algum lançar a abertura do capital de duas concorrentes ao mesmo tempo. Mesmo se o setor de locação de carros representasse um terço do PIB e crescesse em velocidade de um esportivo, seria má ideia. Afinal, as duas empresas lutam pela atenção do mesmo grupo de investidores — que, diante de duas empresas passando o chapéu simultaneamente, têm todo poder de barganha do mundo para baixar o preço das ações das debutantes. Representantes de Movida e Unidas chegaram a se esbarrar na sala de espera de fundos de investimento. Num mercado ainda muito longe da euforia de dez anos atrás, pior ainda. Ambas, diante disso, tiveram de cortar substancialmente o preço desejado por suas ações. A Movida, que já havia precificado sua oferta quando esta edição de EXAME foi fechada, conseguiu vender suas ações por um preço 15% inferior ao mínimo desejado inicialmente. A expectativa era que acontecesse algo muito parecido com a Unidas, que planejava ser listada na Bovespa em meados de fevereiro.

Segundo investidores ouvidos por EXAME, as empresas não tinham alternativa que não a aparente irracionalidade de um IPO conjunto. Controlada pelo grupo de logística JSL, a Movida precisa de recursos para reduzir seu endividamento de 1,1 bilhão de reais, equivalente a três vezes sua geração de caixa. Metade da dívida vence em até 12 meses. A Unidas é uma veterana de tentativas de abrir o capital. Esta já é a terceira vez. Os fundos que controlam a companhia (Vinci, Gávea e Kinea) querem vender suas participações. “Quem ficasse para depois poderia não conseguir interessados”, diz um gestor. Partir junto com a concorrente fazia sentido, portanto: no pior dos casos, ambas fracassariam e tentariam de novo depois. No melhor, conseguiriam vender ações, mesmo abaixo do preço sonhado. Eis uma nova metáfora para os estudiosos da “Teoria dos Jogos — o Dilema do Locador”.

Para complicar a vida das novatas, já existe uma locadora de veículos na Bovespa, a Localiza, que abriu o capital em 2005 e, de lá para cá, é a queridinha dos investidores. Suas ações subiram 1 200% no período, enquanto o Ibovespa valorizou menos de 200%. A Localiza, naturalmente, não tem o menor interesse em dividir esse amor todo com um concorrente, que dirá dois. Com tantos interesses conflitantes, montou-se o cenário perfeito para os processos de abertura de capital mais conturbados da história brasileira recente.

A Localiza, que comprou a operação no Brasil da concorrente americana Hertz no fim de 2016, aproveitou a conclusão desse negócio para agendar reuniões com investidores e mostrar que está anos-luz à frente da concorrência. O alvo prioritário era a Movida, que tem uma operação parecida com a da Localiza, voltada para o varejo, enquanto a Unidas atende mais clientes corporativos. No dia 23 de janeiro, a Localiza soltou um comunicado ao mercado afirmando que o cálculo da Movida de receita por aluguel de carro e o do número de carros por loja estavam superestimados. EXAME apurou que a Movida inclui os carros de franqueados na conta, e a Localiza, não. Mas, segundo investidores, não existe uma maneira certa de calcular, basta informar a metodologia, o que as duas empresas fazem. A Localiza também disparou um e-mail para seus contatos da área de relações com investidores contendo uma reportagem sobre os processos na Justiça contra Fernando Simões, conselheiro da Movida e principal acionista da JSL. As informações sobre os processos já constavam do prospecto de abertura de capital.

Oficialmente, a Localiza diz não ver problemas na presença de concorrentes na bolsa. “As empresas já estão aí de qualquer jeito. Mas a Localiza é a companhia que oferece o maior retorno a seus acionistas”, diz Roberto Mendes, diretor financeiro da Localiza. As reuniões com investidores aconteceram, segundo ele, a convite de bancos que organizaram os encontros. E os comunicados foram publicados porque a empresa foi questionada por seus investidores durante as reuniões. A estratégia dos bancos que coordenam os IPOs (sigla em inglês para oferta inicial de ações) de Movida e Unidas foi usar parte do tempo que tinham para apresentar as maravilhas das empresas para falar mal do concorrente. Os banqueiros do lado da Unidas diziam, segundo relato dos investidores, que as ações da Movida estavam caras demais; já os da Movida afirmavam que os controladores da Unidas estavam abandonando o negócio (do total pretendido com a oferta, 353 milhões devem ir para o caixa da empresa e 428 milhões para os acionistas vendedores, que pretendem zerar suas participações caso haja demanda para isso). Movida e Unidas não deram entrevista.

Entre as três, a Localiza é a maior empresa e também a mais rentável (veja quadro acima). A vantagem de investir numa novata como a Movida seria pagar barato por suas ações e ganhar com o crescimento da empresa, que pode ser acelerado pelos 535 milhões de reais que ela está captando na Bovespa — isso, claro, se a estratégia der certo. Além disso, a Movida se apresenta como mais eficiente do que a Localiza. Suas despesas administrativas correspondem a 9% da receita — e chegam a 12% na Localiza. Para alguns investidores, pelo menos um terço da diferença pode ser explicado pela remuneração dos executivos. A Localiza paga a seus administradores 43 milhões de reais por ano, e 23 milhões de reais vão para o bolso dos fundadores Eugênio Mattar e Salim Mattar, que ocupam a presidência da empresa e a do conselho de administração. “Eles têm essa remuneração porque entregam retornos elevados aos acionistas da empresa”, afirma Mendes, ressaltando que, para ele, a divisão de custos entre a Movida e a JSL é pouco clara. A Unidas, que, até o fechamento desta edição, planejava fechar o preço de oferta de suas ações no dia 10 de fevereiro, tem menos chance de crescer, na opinião de alguns investidores: em todas as vezes que tentou abrir o capital, foi avaliada em -1 bi-lhão de reais, o que sugere que não tem conseguido ampliar sua operação. Os bancos respondem que a Unidas acaba de conseguir um novo sócio: antes de iniciar o processo de abertura de capital, os fundos Vinci, Kinea e Gávea venderam 20% de suas participações ao grupo Enterprise, um dos grandes do setor no mundo. “Ainda não foi dado o devido valor à entrada da Enterprise”, afirma um investidor interessado na oferta da Unidas. Caso esse rocambolesco processo dê certo, a Bovespa vai ter três locadoras de carros listadas. Terá sido a vitória das debutantes.

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