Um golpe duro demais para a JBS?

Letícia Toledo

Se os irmãos Joesley e Wesley Batista escaparam ilesos com seu acordo de delação já batizado de ultrapremiado, em que entregaram na bandeja a cabeça do presidente Michel Temer, o mesmo não se pode dizer de sua principal companhia, a fabricante de alimentos JBS. Nesta segunda-feira a companhia perdeu 30% do valor de mercado em decorrência dos desdobramentos da crise política. Desde quinta-feira a queda chega a 39%, ou mais de 9,9 bilhões de reais. É o suficiente para que um grupo crescente de analistas questione o que vai sobrar da JBS.

“É impossível calcular o valor da JBS. A empresa vai de fato pagar a multa de 11 bilhões de reais? Há novos problemas éticos no radar? São questões sem resposta, que afastam até investidores com apetite ao risco”, diz o gestor de um fundo de investimentos.

“A queda na bolsa tem explicação. O modelo de negócios da JBS sempre foi frágil para o investidor. Com toda essa crise o IPO nos Estados Unidos não vai acontecer e a dívida só vai aumentar”, diz Adeodato Volpi Netto, estrategista-chefe da Eleven Financial. Netto defende alguns pontos que mostram a fragilidade dos negócios da companhia, que tem uma dívida de 47,8 bilhões de reais. Entre eles está a alta dependência das operações de câmbio. Em 2015, por exemplo, quando o dólar disparou e chegou a 4,15 reais, os derivativos renderam 9,2 bilhões de reais para a companhia. O lucro da JBS naquele ano totalizou 4,6 bilhões de reais. Em 2016, a empresa começou a perder dinheiro por conta da apreciação do real, e só no primeiro trimestre o prejuízo foi de 3,9 bilhões com os derivativos. É tudo parte do jogo, claro, mas para Netto revela uma falta de sustentabilidade dos resultados no longo prazo.

Outro problema: analistas questionam a capacidade da empresa de fazer sua reorganização societária no exterior. No fim do ano passado, a JBS anunciou uma reestruturação para abrigar todos os negócios internacionais e a divisão de alimentos Seara em uma subsidiária, a JBS Foods International. A empresa teria sede na Holanda e abriria capital na Bolsa de Nova York.

A migração dos negócios da companhia para os Estados Unidos sempre foi vista como uma boa estratégia para ter acesso ao capital externo mais barato e, com isso, ajudar a reduzir seu alto endividamento. Mas a migração foi barrada pelo BNDES, dono de 21% da companhia, no ano passado. E a abertura de capital está cada dia mais em risco.

Nesta segunda-feira, o escritório americano Rosen Law Firm informou que está preparando uma ação coletiva contra os acionistas da JBS que tiveram prejuízos com as notícias de delação de Joesley Batista. Já há outras ações coletivas abertas no país que cobram reparação de perdas causadas com a Operação Carne Fraca, de março.

Outro risco é que as vendas caiam por conta da imagem da empresa diante do consumidor. Além disso, pecuaristas podem começar a exigir que a JBS pague o gado que compra à vista, pressionando sua geração de caixa. “A pressão deve vir dos dois lados, fica difícil para a companhia manter todas as operações brasileiras”, diz um executivo do setor. “Se não abrir capital no curto prazo, a empresa pode enfrentar problema de caixa”.

A dívida de vencimento no curto prazo, como a companhia informa em seu balanço financeiro, está em 17,8 bilhões de reais. Ela tem 10,7 bilhões disponíveis em caixa e outros 4,3 bilhões de reais em linhas de crédito garantidas para sua subsidiária JBS USA. O problema começa se a empresa tiver que pagar multas muito pesadas – além do processo nos Estados Unidos a JBS está negociando um acordo de leniência no Brasil, em que pode ter que pagar 11 bilhões de reais. A JBS queria pagar 1,4 bilhão, e as negociações estão num impasse.

Há mais problemas no radar. Entre quinta e sexta-feira, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) instaurou cinco processos administrativos para apurar denúncias de irregularidades em negócios nos mercados de capitais realizados por empresas dos irmãos Joesley e Wesley Batista, incluindo a JBS. Os processos tratam de possível crime de insider trading em operações realizadas no mercado de dólar futuro e em negociações com ações da companhia. O lucro obtido apenas na quinta-feira passada, dia posterior à revelação da delação de Joesley Batista, chegou a 170 milhões de dólares, segundo o jornal O Estado de S. Paulo.

Fora esses problemas advindos da Lava-Jato, a JBS pode ter que encarar num futuro próximo uma série de esqueletos escondidos no armário. Segundo o site Brazil Journal, os passivos podem ser maiores que a multa de 11 bilhões de reais rejeitada pela companhia na negociação do acordo de leniência. Entre eles está uma investigação do Tribunal de Contas da União, que questiona os prejuízos causados pela JBS ao BNDES, dono de 21,3% de suas ações e credor de parte das dívidas. Os questionamentos giram em torno de irregularidades na compra da concorrente Bertin, que também era financiada pelo BNDES. Um grupo de estados também processa a empresa por sonegação de ICMS; e o governo americano pode cobrar multas de bilhões de dólares por desrespeitar a lei anticorrupção do país.

Como se tudo isso não fosse suficiente, há desafios na operação do negócio – comprar gado, abater, desenvolver produtos, vender. No mercado brasileiro, a JBS vinha enfrentando dificuldades nos últimos anos. O lucro operacional no Mercosul caiu 26,5% em 2016, para 1,7 bilhão de reais, por conta dos problemas no mercado interno. A margem de lucro da marca de alimentos Seara passou de 18% em 2015 para 8,8% em 2016; no primeiro trimestre do ano a margem caiu para 5,3%.

O faturamento da companhia subiu 4,6% em 2016, na comparação com 2015, para 170,3 bilhões de reais. Já a margem do lucro operacional passou de 8,2% em 2015 para 6,6% no último ano. O lucro despencou 91,9%, para 376 milhões de reais em 2016. A companhia atribuiu o resultado à queda do consumo no país, ao impacto da valorização do real frente ao dólar nas exportações e à redução da oferta de insumos, particularmente do milho. São problemas do dia-a-dia que, por motivos óbvios, não são prioridade da JBS no atual momento.

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