Um novo plano em meio à incerteza

Lourival Sant’Anna

Em outubro de 2014, a Arábia Saudita assombrou o mundo ao anunciar que pretendia manter a produção de petróleo elevada, mesmo com a queda acentuada do preço do barril. O reino, que lidera a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e tradicionalmente dá as cartas no mercado mundial, havia decidido priorizar a fatia de mercado, em detrimento do preço, rompendo o paradigma histórico de sua atuação. Seu objetivo era tornar comercialmente inviável o petróleo de xisto dos Estados Unidos, cuja extração era muito mais cara, e enfraquecer seus rivais políticos Irã, Rússia (aliada do Irã na Síria) e Venezuela (alinhada com Irã e Rússia).

Passados menos de dois anos, a estratégia saudita resulta num monumental tiro no pé. O reino enfrenta uma grave crise econômica, o preço do barril e o consumo se mantêm deprimidos, o óleo de xisto americano está jorrando mais do que nunca e a Rússia e o Irã só aumentaram sua agressividade (a Venezuela sucumbiu, mas isso não era prioridade). É nesse cenário desfavorável que o Brasil prepara uma revolução em sua indústria de petróleo.

O novo plano estratégico da Petrobras deve ser divulgado na terça-feira 20. A expectativa é que, com um pacote robusto de venda de ativos, a empresa reduza sua meta de produção até 2020, de atingir 2,7 milhões de barris/dia. Em agosto, a estatal bateu recorde de produção, com uma média de 2,2 milhões de barris/dia.

Além disso, o Brasil prepara-se para lançar um programa de concessões no segundo semestre de 2017, já sob nova legislação, mais atraente para o mercado. O primeiro passo é eliminar a condição de participação mínima de 30% para a Petrobras em todos os contratos de exploração do pré-sal. Outras medidas ainda terão de ser tomadas no setor para trazer os investimentos de volta. O Brasil terá, ainda, de exibir um marco regulatório sólido e estabilidade jurídica e política.

Se as notícias não são boas no curto prazo, não devem ficar melhores para o projeto brasileiro no ano que vem. Relatório divulgado na terça-feira 13 pela Agência Internacional de Energia (AIE) alerta que o estoque de petróleo continuará excedente até o fim de 2017, mais tempo do que o esperado anteriormente em razão da combinação de crescimento lento da demanda com produção alta. Para este ano, a agência reviu para baixo a previsão de aumento do consumo, de 1,4 milhão de barris por dia (b/d) para 1,3 milhão. Para 2017, a estimativa é que haja um aumento ainda menor na demanda, na casa de 1,2 milhão de b/d.

A AIE observa que a Arábia Saudita e o Irã aumentaram, cada um, sua produção em 1 milhão de b/d desde que a Opep mudou sua estratégia para a defesa da fatia de mercado, em vez do preço. A questão é que o Irã estava desde 2006 sob as sanções dos Estados Unidos e da Europa por causa de seu programa nuclear. Com o acordo alcançado no ano passado, o país pôde retomar suas exportações em janeiro deste ano. O barril, que ultrapassara os 100 dólares, chegou a 30 dólares em janeiro. Agora está na casa dos 45 dólares. Na reunião da Opep em abril, sentindo os efeitos nefastos da estratégia que ela mesma engendrou, a Arábia Saudita propôs a diminuição da produção, desde que todos aderissem, incluindo o Irã. Ao tomar conhecimento dessa posição, o Irã nem sequer compareceu ao encontro em Doha, argumentando que não limitaria sua produção enquanto não alcançasse o patamar de produção anterior às sanções, o que ocorreu no mês seguinte, em maio. Então, ninguém se mexeu.

Enquanto isso, o aumento da demanda continua desacelerando. “Recentes pilares da demanda, a China e a Índia estão patinando. Preocupações econômicas em países em desenvolvimento também não têm ajudado. Ganhos inesperados na Europa desapareceram, enquanto o impulso nos Estados Unidos enfraqueceu drasticamente”, diz o relatório.

Para piorar, o Fundo Monetário Internacional reviu para baixo no dia 1o de setembro em 0,1 ponto percentual a previsão do crescimento econômico para este ano e a previsão para o ano que vem, as quais ficaram em 3,1% e 3,4%, respectivamente. Nos 20 anos anteriores à crise financeira de 2008, o crescimento médio foi de 3,5%. A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, citou como causa a incerteza provocada pela saída britânica da União Europeia, em junho.

Entre os países fora da Opep, a produção caiu 1,4 milhão de b/d desde o final de 2014, como resultado da estratégia saudita e da consequente queda no preço do petróleo. Mas a produção americana não diminuiu tanto quanto os sauditas e seus parceiros gostariam. O plano deles de tirar o petróleo de xisto do mercado não deu certo. Thomas Covert, especialista em energia da Universidade de Chicago, explica que isso se deve principalmente a três razões. Em primeiro lugar, a extração de petróleo da rocha exige mais investimentos no começo. Quando a Opep tomou a decisão de manter os estoques, os empresários americanos já tinham feito esses investimentos, e portanto o custo da produção estava caindo. Além disso, a queda no preço do barril fez diminuir a procura por equipamentos de extração de petróleo, o que levou a seu barateamento. Assim, o custo da produção acompanhou, em parte, a queda no preço do barril. Por último, aqueles que sobreviveram se beneficiaram da curva de aprendizagem, que também reduziu os custos de produção.

A reação árabe

Os maiores prejudicados por sua estratégia parecem ter sido mesmo os sauditas — além dos venezuelanos, também duramente atingidos pela queda no preço do petróleo. Desde o pico do preço do barril em 2012 até agora, a Arábia Saudita perdeu cerca de 200 bilhões de dólares em receitas, segundo cálculo da consultoria Capital Economics, de Londres. Isso equivale a 26% do PIB saudita. O déficit público saudita alcançou no ano passado impensáveis 16% do PIB, o mais alto do G-20. O FMI prevê que o déficit ficará abaixo de 10% neste ano, mas isso depende de cortes drásticos nos gastos públicos. O governo saudita está reduzindo as despesas correntes em cerca de 25%, além de cancelar um terço de seus investimentos em transportes, habitação e saúde nos próximos anos, no valor de 20 bilhões de dólares. Além disso, o reino está gastando suas reservas em moedas estrangeiras. De 746 bilhões de dólares em meados de 2014, elas caíram para 563 bilhões em julho deste ano. Jason Tuvey, da Capital Economics, estima que a economia saudita tenha contraído 2% nos 12 meses encerrados no segundo trimestre.

Isso gera tensões sociais e políticas no reino. A estabilidade de sua monarquia absoluta depende da prosperidade dos cidadãos. Acostumados a viver de empregos públicos ou em empresas com lucrativos contratos com o governo, trabalhando pouco e ganhando muito, enquanto os imigrantes fazem o trabalho pesado e mal remunerado, os sauditas começam a perder essas mordomias.

A Opep vai realizar uma reunião informal no fim deste mês em Argel com a Rússia. Juntos, os dois países produzem mais da metade do petróleo mundial. O anúncio provocou especulações sobre o tipo de acordo que poderá sair do encontro. Segundo especialistas, as opções para causar a elevação do preço do petróleo seriam cortar ou, pelo menos, congelar a produção, esperando um aumento na demanda. Apesar de todos os problemas, o corte na produção é considerado pouco provável neste momento. “Os cortes anteriores funcionaram porque a Arábia Saudita arcou com a maior parte do peso”, observa Spencer Welch, especialista em mercado de petróleo da consultoria IHS Markit, de Londres. “Agora eles deixaram muito claro que não estão mais dispostos a suportar os preços sozinhos.” Em outras ocasiões a Rússia se dispôs a coordenar cortes com a Opep, mas isso não chegou a se concretizar. A própria Rússia enfrenta problemas econômicos por causa da queda no preço do petróleo e do gás, de cuja receita depende.

O ministro da Energia da Rússia, Alexander Novak, defendeu um congelamento da produção, numa entrevista ao lado de seu colega saudita, Khalid al-Falih, no dia 5, durante a cúpula do G-20 na China. A produção da Opep ficaria estacionada no patamar de 33,4 milhões de b/d, o que, somado à produção dos países restantes, equilibraria oferta e demanda a partir do fim do ano. Mas a medida deve enfrentar resistência da Nigéria, da Líbia e do Irã, que sofreram redução da produção nos últimos anos, enfrentam graves problemas econômicos e contam com o aumento da produção para atacá-los. Assim, segundo especialistas, um cenário muito provável é que nada mude. Se o Brasil não fizer a lição de casa, portanto, as chances de um estratégia de atração de investidores bem sucedida é mínima.

 

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