10 lições de campeões de vela para empreendedores

O livro "O Espírito de Equipe", do velejador Daniel Hirsch, traz dicas inspiradoras sobre marketing, gestão de equipes, liderança e gerenciamento de projetos

São Paulo — Imagine um grupo de dez dos melhores velejadores do mundo tentando ganhar uma corrida ao redor do planeta contra outras tripulações igualmente estelares. Essa é a história real narrada por Daniel Hirsch em “O Espírito de Equipe” — um livro carregado de lições sobre marketing esportivo, competição, formação e gestão de equipes de alto desempenho, liderança, desafios pessoais e gerenciamento de projetos.

Hirsch foi um dos tripulantes do L’Esprit d’Équipe, veleiro francês que, em 1986, venceu a regata de volta ao mundo Whitbread — a competição que hoje se chama Volvo Ocean Race. Ela é disputada em diversas etapas ao longo de vários meses. É uma das mais duras competições de vela oceânica do planeta. Não por acaso, seu lema atual é “Life at the Extreme” (a vida em condições extremas).

O livro de Hirsch, publicado em 1988 pela editora Brasiliense, está esgotado, mas pode ser comprado em sites como o Estante Virtual. A tradução para o português tem muitos erros, mas vale a leitura assim mesmo. Para quem lê francês, há a opção de encomendar a edição original (ed. Arthaud, 1992). Há exemplares usados em livrarias como a Amazon francesa. Infelizmente, não há edição digital — só em papel.

Veja, abaixo, 10 lições que podem ser extraídas do relato de Hirsch.

1 — Recrutamento 

Recrutar alguns dos melhores profissionais do mundo não é fácil. Mas isso era indispensável para vencer uma regata como a Whitbread. Os dez velejadores que competiram na regata eram muito jovens, mas todos já haviam vencido campeonatos importantes antes. É um bom começo para quem vai montar um time de alto desempenho.

2 — Seleção 

A preparação para a Whitbread começou dois anos antes da largada. Assim que o L’Esprit d’Équipe ficou pronto, foi inscrito numa sucessão de campeonatos de vela na Europa e nos Estados Unidos. Mais de 30 tripulantes foram testados nesses campeonatos para que o capitão Lionel Péan selecionasse apenas 10 para correr a volta ao mundo. Testar, na prática, os candidatos revelou-se uma ótima maneira de selecioná-los.

3 — Responsabilidade total 

Uma vez escolhida essa tropa de elite, cada velejador recebeu atribuições específicas e se tornou 100% responsável por elas. As funções incluíam aparelhar o mastro, providenciar suprimentos para a volta ao mundo, trocar a quilha do veleiro, instalar equipamentos eletrônicos, encomendar as velas e muitas outras tarefas de preparação. Lionel Péan interferiu muito pouco nesse trabalho. Ele havia escolhido os melhores profissionais e confiou neles.

4 — L’Esprit d’Équipe 

A participação do L’Esprit d’Équipe na Whitbread era parte de um conjunto de ações de marketing da Bull, na época a maior fabricante de computadores da França. A Bull buscava valorizar sua marca e motivar seus milhares de funcionários. Patrocinar um veleiro na Whitbread foi uma das maneiras encontradas para isso.

O nome L’Esprit d’Équipe tornou-se uma espécie de lema da companhia. Funcionou para melhorar a imagem corporativa para o público externo e também para nortear ações de endomarketing e engajamento de funcionários. Às vezes um bom nome faz toda a diferença.

5 — O barco 

Muitos dos veleiros que disputaram a Whitbread em 1985 e 1986 quebraram no caminho e perderam uma ou mais etapas da corrida por causa disso. Ter um barco confiável era fundamental. Lionel Péan optou por reformar um veleiro que já havia corrido a Whitbread antes.

Isso garantiu sua robustez, mas não a velocidade, que teve de ser melhorada por meio de seguidos aprimoramentos durante a etapa de preparação. O L’Esprit ganhou novo mastro, novas velas, nova quilha. A geometria da popa foi modificada e o barco ficou mais leve. Tudo isso demorou cerca de dois anos. Para um projeto complexo, começar a preparação com a devida antecedência é fundamental.

6 — Testes, testes, testes 

As modificações que tornaram o L’Esprit d’Équipe um veleiro muito ágil para seu tamanho não foram feitas todas de uma vez. O barco participou de seguidos campeonatos nos meses que antecederam a volta ao mundo. Depois de cada um deles, Péan e sua tripulação avaliavam L’Esprit e alteravam o que fosse necessário nele.

O processo é conhecido no mundo do empreendedorismo: trata-se de testar o produto no uso prático e modificá-lo em função dos resultados dos testes. Esse ciclo se repete seguidas vezes até que se atinja um alto nível de excelência.

7 — A bordo 

Como ocorreu na etapa de preparação, durante a competição cada tripulante tinha 100% de responsabilidade sobre o barco. Todos se revezavam ao leme e nas demais posições a bordo. O capitão só intervinha quando era realmente necessário. Mais uma vez, o time de elite fez toda a diferença para levar o veleiro à vitória. 

 8 — Apagando incêndios 

Veleiros de regata velejam no limite do que o equipamento e a tripulação suportam. Um pequeno erro de um tripulante pode rasgar uma vela ou quebrar o mastro, por exemplo, levando o time à derrota.  

Quando se correm riscos desse tipo, é impossível acertar sempre. No L’Esprit, quando algum desastre acontecia, todos os tripulantes se envolviam para resolver o problema da melhor maneira possível. E ninguém foi expulso do barco por ter errado. 

9 — Mais testes 

Mesmo após a longa etapa de preparação, o L’Esprit d’Équipe era sempre um projeto em andamento. Entre duas etapas consecutivas da Whitbread havia sempre uma escala (em 1985, as escalas foram na África do Sul, na Nova Zelândia e no Uruguai).  

Essa pausa de cerca de um mês era usada para fazer aperfeiçoamentos adicionais no barco e corrigir eventuais problemas. Isso também não difere muito do que ocorre nas empresas modernas. Um produto inovador nunca está 100% pronto. Sempre há algo mais a melhorar nele. 

10 — Tensões 

Numa situação de competição extrema como aquela, dramas individuais emergiam de tempos em tempos. Dan Hirsch, o autor do livro, chegou a pensar em abandonar a regata numa das paradas depois de cometer um erro ao leme que levou uma vela importante a ser rasgada.

Desistiu quando percebeu que os olhares reprovadores de Péan e do restante da tripulação tinham uma razão: todos o viam como um dos melhores velejadores do mundo e esperavam que ele conseguisse dominar o veleiro na difícil situação que havia encontrado ao leme.

Hirsch percebeu que a surpresa dos colegas com sua falha era, na verdade, o reconhecimento de sua competência. O episódio marcou sua integração definitiva à equipe.

Bônus: o que aconteceu depois 

Depois de correr três voltas ao mundo com diferentes nomes — 33Export, L’Esprit d’Équipe e L’Esprit de Liberté — o veleiro encontrou outro propósito. Em 2005, foi completamente reformado e transformou-se num barco turístico que faz cruzeiros na Antártica.

Os velejadores que ganharam a Whitbread em 1986 têm, hoje, por volta de 60 anos. Vários deles, incluindo o capitão Lionel Péan, reencontraram-se em 2011 na Volvo Ocean Race Legends Regatta, em Alicante, na Espanha.

Mesmo competindo num veleiro construído 30 anos antes, o time de Péan venceu mais essa regata contra outros campeões da volta ao mundo a vela.

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