Hand Talk: os sinais das Olimpíadas

Kátia Simões

Hugo. Este é o nome do assistente virtual que recebe os portadores de deficiência auditiva no site do Comitê Olímpico Internacional. Simpático, devidamente trajado para os jogos, o avatar, em animação 3D, traduz em tempo real qualquer conteúdo em português para a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Seja ele áudio, texto escrito ou fotografado. Um parceiro e tanto para um batalhão de pessoas. E uma exposição inédita para a Hand Talk, startup alagoana, fundada em 2012 e responsável pela criação do aplicativo.

Estima-se que 10 milhões de brasileiros sofram de deficiência auditiva, o equivalente a 5% da população, de acordo com o Censo 2010. No mundo, os surdos somam mais de 300 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde. “A realidade fica ainda mais impactante quando constatamos que 70% dos surdos no Brasil têm dificuldade de compreender o português”, diz Ronaldo Tenório, presidente da Hand Talk,  “Os surdos vivem hoje no Brasil como estrangeiros na própria terra, sem uma identificação com a língua comum”.

Lançada em 2013, a empresa já registrou mais de 1 milhão de downloads, realizou mais de 150 milhões de traduções e soma mais de 2 milhões de visualizações mensais. A ferramenta é gratuita e disponível para tablets e smartphones. O modesto faturamento, que deve fechar este ano em 1,5 milhão de reais, vem de contratos com sites que demandam mais capacidade de tradução e de projetos customizados, como totens para acessibilidade em shopping centers, hotéis, museus e aeroportos.

Hugo também está presente em uma sessão educativa chamada “Hugo Ensina”, uma série de vídeos que apresenta a crianças e adultos expressões e sinais em Libras. Graças a uma parceria com o MEC, também figura em milhares de tablets da rede pública de ensino, auxiliando na educação de alunos surdos de todo o Brasil. O tradutor de sites já tem 4.000 assinantes e a expectativa é chegar a 6.000 até dezembro.

Até o final de 2017, a empresa espera crescer 300%, expandindo sua atuação no Brasil e no exterior. Na carteira de clientes, mais de 100 empresas, entre elas TIM, Magazine Luiza, Portal Catraca Livre, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Aeroporto do Galeão e, desde 2015, o Comitê Olímpico Internacional. Aliás, o empreendedor enxerga nas Olimpíadas Rio 2016 uma chancela para a Hand Talk ganhar visibilidade internacional e, até o final de 2017, conquistar o mercado americano por meio da American Sign Language (ASL).

Os primeiros passos

A ideia de criar um aplicativo para facilitar a comunicação entre os surdos e os ouvintes nasceu em 2008, quando Tenório ainda cursava Publicidade na Faculdade Maurício de Nassau, em Maceió. “O professor pediu para desenvolvermos um produto inovador”, lembra o empresário. “Eu já tinha certo interesse no mercado de acessibilidade. Quando fui pesquisar mais a fundo, descobri que existiam muitos serviços para cegos, mas poucos para surdos”.

Abriu-se uma janela para Tenório criar algo inovador. Anos mais tarde, já formado e à frente da própria agência de publicidade, resolveu resgatar a ideia quando um parceiro de trabalho, Carlos Wanderlan, fez um curso de aplicativos e decidiu colocar seus conhecimentos em prática. “Em menos de uma semana nós desenhamos um protótipo do app de tradução”, afirma. “Percebemos que tínhamos nas mãos uma inovação que poderia virar um negócio.” Para tanto, chamaram Thadeu Luz, especialista em animação, para dar vida à ideia e compor a sociedade. Nascia, então, a Hand Talk.

Mas, como dizem os especialistas, não basta ter a ideia e acreditar, é preciso comprovar a sua aceitação no mercado. O caminho encontrado pelos empreendedores foi um Demo Day (uma espécie de apresentação de startups em busca de recursos), que aconteceu em Maceió no mesmo ano. “O projeto mal era um protótipo, mas a ideia era tão boa e eles estavam tão entusiasmados, que todo mundo enxergou a viabilidade do negócio”, diz Áurea Valéria, gestora do projeto Tecnologia da Informação em Alagoas. Saíram de lá com 170.000 reais no bolso.

Em 2013, pouco tempo depois do aporte dos investidores anjo, a startup foi uma das 10 selecionadas para ser acelerada pela Artemisia, investidora focada em negócios sociais. No mesmo ano, Hugo foi eleito pela ONU a melhor solução mobile do mundo de inclusão social no World Summit Award Mobile, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. Havia 15.000 concorrentes.

A premiação coincidiu com a disponibilização do app para smartphone e o crescimento da empresa, que nos anos seguintes contou com mentorias e acelerações de várias organizações no Brasil e nos Estados Unidos, a exemplo do Instituto Quintessa e do Launchpad Accelerator, a aceleradora de startups do Google. Os aportes somaram mais de 1,5 milhão de reais e serviram para Hand Talk construir o maior banco de sinais em 3D do mundo, além de melhorar a qualidade da tradução e a usabilidade do aplicativo.

Eleito pelo Massachusetts Institute of Technology, em 2015, como um dos 10 jovens brasileiros mais inovadores, Tenório afirma que o grande desafio da Hand Talk é adaptar a tecnologia para as mais de 200 linguagens para surdos espalhadas pelo planeta e continuar inovando. Um exemplo do dever de casa é o Movimento Amigo do Surdo, que agrupa e categoriza todos os sites acessíveis em Libras com tradução do Hugo em um único buscador. “Brincamos que é o Google dos surdos, pois eles podem encontrar em um único lugar diversas categorias de produtos e serviços, passando por e-commerces, shoppings e restaurantes”, diz.

A empresa não tem grandes concorrentes no exterior. No Brasil, tem um grupo de startups concorrentes: Pro Deaf, Rybná e ULibras, que não contam com o mesmo portfólio de serviços da Hand Talk, de acordo com o empreendedor. Espaço para crescer, todas têm de sobra. Desde 2002 a Libras é tida como a segunda língua oficial do Brasil e, desde janeiro deste ano, a Lei Brasileira de Inclusão entrou em vigor, sancionando diversas ações para acessibilidade de todos os tipos de deficiência. Quanto mais inovações surgirem nessa seara, melhor para Tenório, melhor para seus clientes, melhor para o Brasil.

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