Um caminho do meio no delivery

Carol Oliveira

O mercado de entrega de comida costuma ser dividido em dois tipos de empresas muito diferentes. De um lado estão os restaurantes e pizzarias de sempre, que ficam com a parte difícil e pouco rentável: recebem pedidos por telefone, preparam os pratos e entregam com seus motoboys. De outro, a molecada que encontrou um jeito de melhorar a vida dos consumidores com tecnologia. São os cada vez mais comuns aplicativos que unem restaurantes e consumidores e cobram uma taxa de cada pedido. É um negócio com pouco risco, e muita escala.

Pois o coreano Charlie Yi, que se divide entre São Paulo e Nova York, acredita que a oportunidade mesmo está em tomar o caminho do meio, juntando esses dois negócios. Há três anos ele criou a Zipster. É um site de entrega de comidas (que ganhou o primeiro aplicativo há algumas semanas) que prepara todos os pratos numa cozinha própria.

A proposta da Zipster é entregar em até uma hora na cidade São Paulo uma variedade de pratos que não costuma ser encontrada num único restaurante. São cinco cozinhas diferentes, cada uma delas comandada por um chef encarregado. Há comida japonesa (com a etiqueta Sushi Beta), mexicana (Puya), pratos saudáveis (Power Lunch), pizza (Pizza Control) e hambúrguer (Butcher Boy). São mais de 100 opções de pratos. A entrega e o atendimento ao consumidor também são feitos por funcionários da Zipster.

“O serviço de entregas ainda é, em geral, muito ruim no Brasil. Chegamos à conclusão que integrar tudo é o melhor para que o cliente tenha a melhor experiência”, diz Yi.

A Zipster aposta em algumas vantagens deste modelo inusitado de negócios. Aplicativos como o iFood ou o UberEats não se responsabilizam pela qualidade da entrega (apenas permitem que o cliente dê uma nota baixa pelo serviço). Quando há alguma reclamação, ela deve ser feita diretamente ao restaurante.

Mas o principal diferencial da empresa, segundo Yi, é a variedade. No iFood, o cliente até pode pedir tudo isso, mas os pratos virão de restaurantes diferentes e, portanto, terão duas taxas de entrega e prazos variados. Na Zipster, que durante dois anos entregou basicamente comida japonesa, tanto o hambúrguer quanto o sushi vêm da mesma cozinha e são entregues juntos.

Os preços vão de 25 a 50 reais para pratos individuais – não são pensados, portanto, para ser mais baratos que a concorrência. Os pratos são pensados para a entrega: nada de molhos que virem no caminho, por exemplo. Uma outra proposta é tentar elaborar um cardápio mais saudável. E tudo com um toque refinado, que inclui até mesmo chefs renomados: a equipe de comida japonesa, por exemplo, é liderada por Hideto Shimizu, que trabalhou por seis anos no Nobu, reconhecido internacionalmente e presente em quase 20 países.

Com três anos de atividade completados em abril, a Zipster entrega cerca de 15.000 pedidos por mês. São mais de 17.000 usuários cadastrados e 35% deles é ativo, ou seja, fez algum pedido nos últimos três meses — há consumidores que pedem mais de 100 vezes ao ano. A empresa já recebeu investimentos da Monashees, fundo especializado em startups de tecnologia, e faturou 3 milhões de reais em 2016. Com três novas marcas adicionadas nos últimos seis meses, planeja faturar entre 10 e 12 milhões neste ano – e sair do vermelho.

“A Zipster está criando um portfólio de marcas premium, que tem verdadeiros fãs. Eles não só voltam à plataforma com frequência, mas também recomendam para os amigos”, diz Carlo Dapuzzo, sócio da Monashees.

Para Enzo Donna, da ECD Consultoria, especializada em serviços de alimentação, essa variedade é uma das cartas na manga que podem fazer a Zipster dar certo. Um levantamento da ECD em parceria com a Associação Brasileira de Franchising em 2015 mostrou que os pratos preferidos em pedidos feitos em grandes redes são comida japonesa e chinesa (55% dos pedidos), pizzas e massas (25%), sanduíches e hamburguerias (12%), bolo e confeitaria (10%) e árabes e salgados (8%). Assim, a Zipster tenta unir quase todos os campeões do delivery.

A ideia e o futuro

A relação de Charlie Yi com o delivery vem de muito antes da Zipster, quando, em 1998, morando em Nova York, ele foi vice-presidente da Kozmo.com, uma empresa nascida no fim dos anos 90 que prometia entregar qualquer pedido em uma hora — CDs, comida, revistas, livros, utensílios e até café do Starbucks. A Kozmo acabou fechando as portas em 2001, mas muitos de seus executivos, como Yi, continuaram no ramo de delivery. O coreano já havia morado dois anos em São Paulo e viu na cidade as condições ideais para a empreitada.

O interesse no Brasil é justificado. O segmento de alimentação fora do lar vem crescendo cerca de 9% ao ano desde 2011 e fatura mais de 150 bilhões de reais. Dentro desse setor, o delivery ainda tem muito a conquistar: quase metade (49%) das refeições já são feitas fora do estabelecimento onde foram compradas, mas apenas 7% é delivery, segundo um levantamento da consultoria Gouvêa de Souza que acompanhou os hábitos de 6.000 consumidores.

O público da Zipster é diferente dos aplicativos de delivery. A localização da cozinha no Itaim Bibi não é à toa: o foco é nos executivos, clientes com renda mais alta e interessados em pagar um pouco a mais pela qualidade da comida e do serviço, mas tão apressado quanto os universitários que apelam ao iFood ou ao McDonald’s. Na somatória de todos os pratos, um cliente da Zipster costuma desembolsar uma média de 120 reais por pedido — no iFood, a transação média é de cerca de 30 reais.

Os números sustentam a escolha pelo mercado e pelo público alvo. Mas, no fim das contas, compensa cuidar da cadeia toda? Para Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Restaurantes (Abrasel), o delivery é um serviço que tipicamente funciona melhor com terceirização da cadeia, sobretudo para pequenos negócios, que não têm escala para fazer tudo. “Mas se o restaurante tiver escala e competência para controlar todas as etapas, pode ser um diferencial competitivo”, diz.

A falta de escala de fato é um empecilho para o crescimento da Zipster. O serviço só funciona por agendamento, e num pedido da equipe de EXAME Hoje, feito em Pinheiros às 19h30, só havia horário disponível de entrega entre 21h e 21h20. A recomendação é que os clientes se programem para pedir com antecedência, o que, é claro, nem sempre é possível. Mas por fim, a entrega foi eficiente, e os pratos chegaram meia hora antes do prometido — é possível acompanhar o andamento pela tela do site ou do aplicativo.

Há ainda uma limitação geográfica: por enquanto, a entrega só está disponível para algumas áreas do centro e da zona oeste. A área do almoço é ainda menor, e fica restrita ao Itaim Bibi e à Vila Olímpia. Aumentar esse perímetro é um dos objetivos dos próximos anos, e para isso, será necessária a abertura de novas cozinhas pela cidade. O plano é construir outras três entre 2017 e 2018, sendo a próxima delas no Brooklyn, na zona sul.

“Estamos satisfeitos com nosso nível de crescimento e com a fidelidade de nossos clientes. Se você controla tudo, tende a crescer mais devagar”, diz Charlie Yi. Nos próximos meses, a Zipster deve lançar uma espécie de clube de assinaturas para os mais assíduos, que fornecerá descontos e frete grátis por uma mensalidade entre 18 e 23 reais. É possível ganhar espaço lentamente (muito lentamente) num mercado que cresce em ritmo alucinante? Yi, como se vê, quer provar que sim.

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