A China precisa de uma revolução criativa

Para um dos maiores especialistas no sistema de ensino chinês, o país terá de transformar as salas de aula se quiser continuar ganhando poder global

São Paulo – O chinês Jiang Xueqin emigrou com a família para o Canadá quando tinha 6 anos. O sonho de seu pai era que ele conseguisse ser o primeiro Jiang a receber um diploma de uma universidade. Uma vez adulto, não somente realizou o desejo paterno como o fez em grande estilo.

Formou-se pela prestigiosa Universidade Yale, nos Estados Unidos, e decidiu voltar para a China, onde, primeiro, trabalhou como professor e, depois, dedicou-se à reformulação do currículo da escola secundária ligada à Universidade de Tsinghua, uma das melhores do país, e de instituições de ensino de outras regiões do país.

Foi com base nessa experiência que Jiang escreveu o livro China Criativa, publicado na China no ano passado e ainda não lançado no Ocidente. Ele argumenta que a educação que ajudou a China a chegar ao atual estágio de desenvolvimento não será suficiente para fazer o país continuar avançando.

“Os desafios hoje são de outra ordem”, afirma Jiang. Leia a seguir a entrevista que ele concedeu a EXAME pelo telefone de seu escritório em Pequim.

Revista EXAME – A China tem obtido excelentes resultados no Pisa — teste internacional que mede a qualidade da educação em 65 países. Isso não é uma prova da qualidade do sistema de educação chinês?

Jiang Xueqin – Não há dúvida de que as escolas chinesas ensinam muito bem as habilidades básicas de matemática e do idioma. Os resultados do Pisa são incontestáveis nesse sentido. O problema é que existem outros fatores importantes para que se tenha sucesso no mundo de hoje — como a criatividade, a inteligência emocional e as habilidades sociais.

E, nesse sentido, as escolas chinesas falham. O excesso de ênfase no ensino analítico, como questões matemáticas, está prejudicando o crescimento e o desenvolvimento emocional dos estudantes chineses.

Revista EXAME – Como as escolas chinesas podem desenvolver a criatividade e a inovação em um ambiente que premia a disciplina e a obediência?

Jiang Xueqin – As escolas chinesas replicam princípios militares de organização e disciplina. Isso acabou criando uma cultura burocrática, rígida e resistente a mudanças. De certa forma, as escolas chinesas veem a criatividade e a inovação como forças de caos e desordem.

Existe uma forte pressão tanto das escolas como dos pais para que os estudantes tenham uma alta performance no Gaokao, o vestibular chinês, que premia os alunos mais disciplinados e aplicados.

O que está provocando uma revisão disso tudo nos últimos anos é a obsessão dos chineses ricos de se diferenciar. Eles têm mandado os filhos para escolas privadas, nas quais a criatividade é incentivada, e isso vem influenciando a rede pública.

Revista EXAME – E o que o governo chinês está fazendo para melhorar essa situação?

Jiang Xueqin – Em 2010, o governo lançou um projeto de reforma da educação. Como parte dessa reforma, deu mais autonomia às escolas públicas para que experimentassem novos currículos. Um dos obstáculos para o desenvolvimento econômico da China é o perfil de sua força de trabalho.

Revista EXAME – Por que o modelo de educação que serviu à China durante as décadas de crescimento econômico de 2  dígitos já não serve mais?

Jiang Xueqin – Formar engenheiros e burocratas e ter uma mão de obra bem educada e barata foi fundamental para construir uma economia orientada para a exportação nas décadas de 80 e 90. Agora, no entanto, é necessário mudar o modelo. A China precisa de empreendedores inovadores, designers que seduzam o público global e executivos que possam construir e gerenciar uma marca internacional.

Revista EXAME – Há consenso de que esse é o caminho correto?

Jiang Xueqin – Economistas, empresários e o governo estão de acordo. O governo chinês vê a elite inovadora como chave para sua ambição de quebrar a hegemonia econômica dos Estados Unidos. Mas o que não percebe é que a elite criativa também ameaça transformar radicalmente a sociedade e a cultura.

Esse grupo criativo, que nunca existiu na China, deverá testar os limites e desafiar as autoridades. Ele é fundamental para o sucesso contínuo da economia chinesa, mas a questão aqui é como o Partido Comunista vai reagir à ascensão dessa turma. 

Revista EXAME – Mais de 200 000 estudantes chineses estão matriculados em universidades americanas. Qual o impacto desses estudantes no mercado de trabalho chinês?

Jiang Xueqin – As universidades americanas de altíssimo nível oferecem uma educação sem igual. Mas a maioria das faculdades americanas tem um ensino deficiente e enfrenta problemas financeiros. É nesse contexto que os estudantes chineses, que pagam três vezes mais do que os americanos, aparecem como a solução para as universidades de menos prestígio.

É claro que a experiência de ir para o exterior e se adaptar à cultura americana é benéfica para os estudantes — mesmo que a maioria tenda a viver reclusa em grupos de estudantes chineses. Quando voltam, esses alunos têm algum impacto no mercado de trabalho. Mas considero bastante discutível a afirmação de que a educação que esses jovens recebem nos Estados Unidos vale o preço que pagam.

Para os pais chineses que conseguem pagar pela educação de seus filhos nos Estados Unidos, essa não parece ser uma questão importante. Para eles, enviar um filho para estudar fora é como dirigir um novo BMW. É apenas o que distingue a elite de todos os outros.

Revista EXAME – Que lições o Brasil pode aprender com a experiência chinesa na educação?

Jiang Xueqin – O sistema de ensino chinês tem muito a ensinar ao mundo. Os professores passam por um rigoroso treinamento e precisam demonstrar proficiência nas disciplinas que lecionam. Eles também são altamente respeitados por alunos e pais, e isso contribui para o moral elevado do magistério — apesar dos baixos salários.

Os professores são exigentes e fazem de tudo para garantir que os alunos dominem o currículo básico. No sistema chinês, todos têm expectativas bem altas em relação aos jovens e há incentivos aos professores para que colaborem entre si. Isso não deve mudar e pode servir de inspiração ao Brasil.

Revista EXAME – Mas não é justamente essa cultura de sala de aula que acaba por cercear a criatividade?

Jiang Xueqin – Existe preconceito no Ocidente contra uma educação rigorosa. Não há nenhuma evidência científica que ligue o ensino disciplinado do idioma e da matemática à perda da criatividade do estudante.

Não se trata de uma coisa ou outra. Ao fomentar demasiadamente a criatividade e tentar aumentar a autoestima dos seus alunos, o sistema educacional americano acabou virando uma piada. 

Revista EXAME – Então o que o senhor propõe como solução?

Jiang Xueqin – O ideal é uma escola que faça as duas coisas. Incentive a criatividade dos alunos sem negligenciar o desenvolvimento de suas habilidades analíticas. O pecado do modelo chinês é que suas escolas, obcecadas em testes de todo tipo, acabam monopolizando o tempo dos alunos.

Fora o período em que as crianças e os jovens estão na escola, há muita lição para fazer em casa. Os pais que podem pagar enchem seus filhos com aulas particulares. Quase não há espaço para que eles busquem seus interesses pessoais e desenvolvam plenamente suas habilidades sociais. Numa idade ainda muito tenra, muitos chineses perdem o amor pelo conhecimento. Isso está errado.

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