A pequena MMO brilha entre os gigantes da tecnologia médica

A fabricante de equipamentos médicos MMO viu seu mercado ser invadido por chineses. A saída foi investir em nichos mais complexos — e promissores

São Paulo — Por muitas décadas, multinacionais como Philips, Siemens e GE disputaram o mercado brasileiro de diagnóstico por imagem sem produzir equipamentos no país. Mas a recente expansão do mercado de equipamentos médico-hospitalares — que quase duplicou seu faturamento nos últimos cinco anos, ultrapassando 15 bilhões de reais em 2014 — fez com que elas mudassem de ideia.

A empresa holandesa de tecnologia Philips investiu mais de 1 bilhão de ­re­­ais numa fábrica de aparelhos de tomografia e ressonância e em quatro aquisições desde 2007. A concorrente americana GE inaugurou uma fábrica em 2010 e comprou duas empresas de lá para cá. O conglomerado alemão Siemens montou uma fábrica de equipamentos de imagem em 2012 e planeja dobrar a produção até 2017.

Parecia que não sobraria muito espaço para os fabricantes nacionais. Mas sobrou. As grandes companhias dedicam-se a segmentos consolidados e lucrativos, em que os equipamentos podem custar centenas de milhões de dólares. Enquanto isso, há um nicho ignorado ­— o de aparelhos portáteis com tecnologias a laser e LED, os quais custam até 20 000 reais e são usados por dentistas e dermatologistas.

Em muitos casos, os profissionais precisam de máquinas mais simples e de um nível de personalização que não interessa às multinacionais, dada sua escala de produção. A MMO, empresa fundada há 17 anos em São Carlos, no interior de São Paulo, viu ali o nicho que seria sua salvação. 

A MMO deverá faturar quase 10 milhões de reais neste ano fabricando aparelhos para quatro áreas da saúde: odontologia, estética, fisioterapia e oncologia. A empresa tem apenas 50 funcionários — quase metade são mestres e doutores, que geraram 12 patentes para a companhia. Foi criada em 1998 por um grupo de sete engenheiros do Instituto de Física da USP de São Carlos.

Sua história é cheia de reviravoltas. O projeto inicial era produzir no Brasil microscópios para escolas e universidades. Não deu muito certo. Dois anos depois, a empresa passou a fabricar equipamentos de laser e LED para dentistas e faculdades de odontologia. Como as coisas estavam demorando a acontecer, seis dos sete fundadores saíram do negócio ­— ficou apenas o atual presidente, Luiz Antônio de Oliveira.

Com ele, a empresa cresceu e, há seis anos, Oliveira pediu demissão do laboratório de pesquisas ópticas da USP para se dedicar exclusivamente a ela. Mas ele teve logo de encarar um problemão — uma invasão de concorrentes chineses derrubou seus resultados e forçou-o a estudar segmentos de maior complexidade. Com eles, mais que dobrou de tamanho desde 2012.

Um dos equipamentos mais inovadores é usado para o tratamento do câncer de pele (o mais frequente no país), que associa aplicação de luz e medicação, eliminando a necessidade de ­bi­­ópsia e cirurgia. Além de fazer o diagnóstico, as luzes matam as células cancerígenas graças a uma reação química. “É o primeiro equipamento que junta diagnóstico e tratamento”, afirma Oliveira.

O aparelho custa cerca de 10 000 reais, ante ­­­50 ­­000­­ reais dos similares importados da Europa e dos Estados Unidos (esse nicho ainda não foi invadido por chineses). Lançada em 2012, a máquina já foi vendida para mais de 200 clínicas e responde por 10% das receitas. A empresa está desenvolvendo agora um equipamento para o câncer de colo do útero.

Também vai entrar nos mercados de fisioterapia e estética, com a meta de que em três anos eles se tornem o principal negócio. As tecnologias a laser da MMO podem ser adaptadas para tratamento de acne, restauração capilar e remoção de rugas. O que muda é o comprimento da onda e a cor e a intensidade da luz aplicada.

A MMO se inspira em um modelo de crescimento visto lá fora. Nos Estados Unidos e na Europa, o mercado de dispositivos médicos fatura mais de 110 bilhões de dólares por ano — e as pequenas empresas desbravam cada vez mais nichos desprezados pelas grandes. Algumas já viraram gigantes desse jeito.

A israelense Lumenis, cujas aplicações somam 250 patentes e vão de aparelhos oftalmológicos a estéticos, foi comprada em julho por 510 milhões de dólares pelo fundo de investimento XIO Group, de Hong Kong. A MMO já recebeu ofertas de aquisição, mas Oliveira acha que dá para crescer com recursos próprios.

Planeja atrair investidores em alguns anos, quando pretende estrear num novo ­— e caro — ramo da medicina: o de tratamentos individualizados, com base nas descobertas genéticas de cada paciente. Ter uma carta na manga é certamente um bom negócio — os chineses, que já roubaram o nicho da MMO uma vez, podem partir para o ataque de novo.

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