A visão de quem está otimista com a economia em 3 pontos

Uma combinação de fatores externos e internos sustenta a visão de quem acha que a reação da economia é firme.

São Paulo — A crise continua instalada, a recessão não parou de fazer vítimas, dívidas ainda estão por ser pagas, mas é inegável que, em poucos meses, houve uma mudança considerável de expectativa em relação à economia brasileira. A perspectiva de que esse humor favorável continue está calcada em alguns fatores positivos mais ou menos firmes.

Um deles é o ambiente externo que voltou a colocar os países emergentes na mira do capital financeiro — com taxas de juro altas e ativos depreciados, o Brasil está entre os que oferecem a chance de obter bons lucros na bolsa e em outras frentes.

Ajuda também o fato de o governo atual, que está perto de se livrar de vez da sombra da antecessora, ter montado uma equipe econômica festejada e, com ela, apresentado um leque de propostas com potencial para recolocar a economia brasileira de novo nos trilhos, após anos de medidas erráticas e anticapitalistas. Em tese, o governo reúne apoio político suficiente para tocar adiante essa agenda.

No mínimo, o presidente Michel Temer tem o traquejo e a disposição para o jogo das negociações no Congresso, coisa que parecia despertar asco em Dilma Rousseff.

Tudo isso, porém, está para ser devidamente testado pela realidade e sujeito a imprevistos, como é o caso do desdobramento da Operação Lava-Jato, e a previstos, como a elevação da taxa de juro nos Estados Unidos. Nas páginas a seguir, EXAME faz uma avaliação sucinta dos pontos de apoio do bom cenário para investimento — e também de alguns de seus riscos.

1. A bola de novo com os emergentes

Risco, perdas, saques, medo… Essas palavras são as que melhor definem o sentimento dos investidores em relação aos países emergentes de 2013 a 2015. Nesses três anos, os fundos globais de renda fixa voltados para emergentes tiveram retiradas que somaram 69 bilhões de dólares. Dos fundos de ações saíram 67,5 bilhões de dólares.

A percepção dos investidores era inequívoca: os emergentes tinham submergido. Por causa da desaceleração da China, da queda no preço das commodities, da crise econômica no Brasil, na Rússia… Neste ano, o humor, como um pêndulo, vem melhorando. É o que mostram os números mais recentes.

Nos 12 meses até agosto, os fundos de renda fixa já acumulam um saldo positivo de 16,8 bilhões de dólares, e os de ações, de 800 milhões. “Índia, Indonésia, Rússia e Brasil estão entre os países preferidos dos investidores”, diz Kamakshya Trivedi, estrategista do banco americano Goldman Sachs.

“Não é a lua de mel da década passada, mas é inegável que os emergentes estejam mais atrativos”, diz Axel Christensen, estrategista da gestora americana BlackRock, a maior do mundo. A situação mudou, primeiro, porque as previsões catastrofistas do início do ano sobre uma desaceleração radical da China não se materializaram.

A expectativa hoje é que o PIB chinês tenha uma elevação de cerca de 6,5% em 2016, ótima notícia para todos os emergentes que, de alguma forma, são afetados pelo gigante asiático. Com um PIB de 11 trilhões de dólares, a China equivale à soma das outras nove maiores economias em desenvolvimento.

Outro ponto positivo para os emergentes é a percepção de que as crises econômicas na Rússia e no Brasil bateram no fundo do poço. “O pior da desaceleração ficou para trás”, diz Trang Nguyen, estrategista do JP Morgan. Para o banco americano, os emergentes, juntos, deverão crescer 3,3% neste ano e 4,1% em 2017, taxas cada vez maiores do que a dos países ricos.

Conta ainda a favor o fato de os preços de várias commodities terem recuperado parte das perdas registradas no início do ano. Desde o pior momento, em janeiro, o índice Bloomberg Commodity Spot subiu 25%. Com esse novo cenário, as moedas dos emergentes ficaram mais estáveis, o que reduziu a percepção de risco cambial.

“Muitos investidores achavam algumas oportunidades interessantes nas moedas locais, mas tinham medo de perder com uma eventual desvalorização. Isso diminuiu”, diz Juan Briano, chefe de mercados globais do banco de investimento Bradesco BBI. Todas essas mudanças ocorrem num momento em que o preço das ações dos emergentes está competitivo.

“As bolsas dos países emergentes sempre negociaram com valores mais baixos do que os das bolsas dos desenvolvidos. Hoje, porém, o desconto está em cerca de 30%, um dos maiores patamares desde 2008”, diz Felipe Hirai, estrategista do Bank of America Merrill Lynch.

Para entender o novo poder de atração dos emergentes é preciso examinar quanto eles melhoraram e também ter em mente que o mundo rico segue com uma conjuntura muito difícil. Na tentativa de fortalecer o crescimento econômico, os bancos centrais de Japão, zona do euro, Dinamarca, Suécia e Suíça continuam adotando taxas de juro negativas.

Essa política atinge quase 500 milhões de pessoas que vivem em economias que correspondem a 25% do PIB global, segundo um recente relatório divulgado pela agência de avaliação de risco S&P. Atualmente, 19 trilhões de dólares em títulos públicos e privados, cerca de 25% do mercado mundial de dívida, são negociados com taxas negativas.

De acordo com a gestora BlackRock, mais de 70% dos índices de títulos públicos de mercados desenvolvidos têm retornos de até 1%. Essa situação quebra uma regra básica do capitalismo, segundo a qual os investidores — sejam eles instituições ou pessoas — adiam o consumo presente por uma quantia turbinada lá na frente.

Mesmo nos países ricos onde os juros continuam positivos, as taxas estão perto das mínimas históricas. Nos Estados Unidos, elas variam de 0,25% a 0,5%, o que tem causado estragos entre os investidores. O déficit dos 100 maiores fundos de pensão corporativos dos Estados Unidos chegou a 453 bilhões de dólares em julho.

“Para esses fundos cumprirem as obrigações com seus pensionistas, precisam elevar a rentabilidade de suas aplicações”, diz Ronaldo Patah, estrategista de gerenciamento de fortunas do banco UBS.

Como se a política monetária nos países ricos já não fosse um problema grande o suficiente, parte dos investidores ainda sofreu com o resultado do referendo no Reino Unido, em junho, que decidiu pela saída do país da União Europeia. Recentemente, o fundo soberano da Noruega, o maior do mundo, reduziu a previsão de retorno de seu portfólio de imóveis, muito concentrado no mercado britânico.

A expectativa é que o preço dos imóveis caia. Não é coincidência que cerca de 90% do fluxo de investimentos para bolsas de valores de países emergentes neste ano tenha acontecido após a vitória do Brexit. Embora os investidores tenham cada vez mais dificuldade de achar retornos altos no mundo rico, a maioria dos bancos e gestores não vê — até agora — um “tsumoney” chegando aos emergentes.

Uma eventual alta contínua dos juros americanos faria muita gente rever as análises de riscos e oportunidades. Aos emergentes, vale aproveitar o bom humor enquanto ele durar.

2. O governo com força no congresso

A menos que aconteça uma reviravolta digna de roteiro de cinema, tudo indica que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff será concluído até a primeira semana de setembro. Com o término do julgamento pelo Senado, chega ao fim um dos períodos de maior instabilidade política do país desde a redemocratização.

Se prevalecer a tese de que houve crime de responsabilidade de Dilma nos malabarismos fiscais de seu governo, e a presidente for afastada definitivamente do poder, o presidente interino Michel Temer sairá da paralisia em que se encontra.

Mais do que isso, terá condição de reverter a imagem de um governo cuja legalidade vem sendo contestada frequentemente — vide as manifestações populares nas arquibancadas dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro — para a condição de um Executivo com capacidade política de aprovação de medidas duras e impopulares, mas essenciais para fazer a economia brasileira voltar a crescer.

O novo governo nasce com amplo apoio no Congresso. Um levantamento da consultoria política Arko Advice, de Brasília, contabiliza uma base aliada a Temer de 370 deputados e 59 senadores (no caso da Câmara, número até superior aos 367 parlamentares que votaram pela admissibilidade do impeach­ment em abril).

Seriam votos suficientes para passar com folga propostas de emendas constitucionais, que exigem dois terços de aprovação em cada uma das Casas. Mas a prudência de quem conhece o jogo político em Brasília sugere que Temer deve contar com um número menor de saída. Estimativas apontam que o batalhão mais leal a Temer é formado por 280 deputados e 50 senadores, a chamada base aliada sólida.

Na prática, isso fará com que o governo, para emplacar seus grandes projetos, tenha de conquistar mais 28 deputados de uma massa volátil. “Ele terá de negociar e fazer política, pois cada votação envolverá interesses distintos, mas tem um número de partida bem confortável”, diz o cientista político Lucas de Aragão, sócio da Arko Advice.

É justamente a capacidade de articulação de Temer que pode fazer a diferença agora. Ao contrário de Dilma, que detestava lidar com o Congresso, o presidente em exercício é um ávido negociador. Em três meses de interinidade, Temer recebeu mais parlamentares do que Dilma em cinco anos e meio no Planalto.

“Existe agora um presidente capaz de formar uma maioria dentro do Congresso”, diz João Castro Neves, diretor para a América Latina da consultoria política Eurasia. Outro trunfo de Temer foi ter emplacado um aliado discreto, Rodrigo Maia, do DEM, para presidir a Câmara, em substituição ao estridente Eduardo Cunha, selando assim um novo eixo de governabilidade com PMDB, DEM e PSDB.

Para angariar o apoio dos 18 partidos que compõem a base, Temer recorreu ao tradicional fisiologismo na distribuição de cargos da máquina pública e falou o que aliados, como o PSDB, queriam ouvir: não vai concorrer à reeleição em 2018. Também tem dedicado parte de seu tempo nos bastidores às negociações que envolvem as eleições municipais.

Ainda não é claro o mapa político que emergirá do pleito de outubro. O PT está combalido, mas o descrédito na classe política com a crise também pode custar caro aos partidos tradicionais — inclusive ao PMDB. Por ora, publicamente, Temer tem adotado uma espécie de diplomacia do silêncio, evitando embates públicos com o Legislativo, do qual depende em última instância para sacramentar o impeachment.

O novo governo tem sido pressionado a ceder em alguns pontos de pautas centrais da agenda econômica, como o controle dos gastos públicos — deixando boa parte dos analistas do mercado apreensivos se a prática continuará a partir de setembro. Em julho, o Senado aprovou pacotes de reajustes salariais para várias categorias do funcionalismo público, entre eles servidores da Câmara e da Polícia Federal.

A renegociação da dívida dos estados só avançou na Câmara depois de o governo abdicar da contrapartida que vetava reajustes salariais para o funcionalismo estadual por dois anos. E os pleitos continuam chegando.

Nos últimos dias, o presidente se encontrou com governadores do Norte e do Nordeste, que pedem uma ajuda emergencial de 7 bilhões de reais nos moldes dos 2,9 bilhões concedidos ao Rio de Janeiro. Esses governadores também querem mais 7 bilhões de reais em garantias e autorizações para contrair novos empréstimos (é algo impensável dada a situação fiscal do país, mas, na ótica dos políticos, não custa pedir).

Seguindo seu estilo, Temer não disse sim nem não. Lutar contra a realpolitik exigirá uma convicção nas necessidades do país que ele parece ter. Mas Temer terá de ir além do papel de mero conciliador que tem exercido nesta temporada de interinidade. Se ele não tiver mais para mostrar, mesmo com uma equipe de qualidade, sua boa pauta de ideias para a economia poderá ficar somente no papel.

3. Boas ideias na economia

A combinação de Boas propostas com uma equipe capaz de colocá-las em prática é a principal razão que tem levado empresários, economistas e analistas do mercado financeiro a acreditar que o governo Michel Temer tem chance de obter um razoável sucesso. Com Henrique Meirelles à frente do Ministério da Fazenda, o foco inicial se voltou para as contas públicas.

Dois projetos concentram a correção de rota fiscal: a aprovação do teto de gastos do governo e a reforma da Previdência. O primeiro, já em análise no Senado, limita o crescimento do dispêndio público à taxa de inflação do ano anterior por 20 anos. A medida teria impacto positivo imediatamente após a aprovação.

O segundo projeto pretende conter a trajetória explosiva dos gastos com aposentadorias e pensões (se nada for feito, a conta das previdências pública e privada poderá sair dos atuais 11% para 16% do PIB em 2030). Nos anos PT, o gasto com itens como salários do funcionalismo e aposentadorias cresceu 400% e beirou 1 trilhão de reais em 2015.

“O bom senso voltou a pautar as decisões econômicas com um governo que acredita na solidez orçamentária”, diz Celso Toledo, diretor de macroeconomia da consultoria LCA e colunista do app EXAME Hoje.

A confiança que vem sendo depositada no governo também é resultado de uma agenda microe­conômica que, potencialmente, destravaria setores importantes e daria fôlego extra a uma recuperação arrastada (as projeções dos economistas apontam uma expansão modesta do PIB em 2017 e um pouco mais forte em 2018, de até 2,5%).

Um exemplo é o fim da regra que obriga a Petrobras a ter participação de pelo menos 30% em todos os projetos de exploração do pré-sal — proposta que tramita em regime de urgência na Câmara.

O viés nacionalista da atual legislação, criada em 2010, último ano do segundo mandato de Lula, tornou-se um obstáculo à atração de investimento para o setor de petróleo, uma vez que a Petrobras — endividada e sem dinheiro em caixa — não tem condições financeiras de participar de novos leilões de exploração.

“Esse tipo de medida é mais fácil de ser aprovado pelo Congresso porque é evidente a situação complicada da empresa”, afirma Alessandra Ribeiro, economista da consultoria Tendências. A Petrobras também deve liderar uma nova fase de privatizações. Entre os ativos que a estatal colocou à venda estão 9 410 quilômetros de dutos de transporte de gás no país.

O fim do monopólio no setor de gás — que depende ainda de regulação específica — poderia atrair ao Brasil 170 bilhões de dólares em investimentos nas próximas duas décadas, segundo estimativa da consultoria inglesa Wood Mackenzie. No mesmo rol de boas ideias, deverão ocorrer novas rodadas de concessão de infraestrutura.

Estima-se que, nos próximos dois anos, 113 bilhões de reais em projetos de rodovias, aeroportos, ferrovias e portos poderão ser ofertados à iniciativa privada em modelos de concessão. Os projetos prioritários deverão ser anunciados no início de setembro, após a conclusão do processo de impeachment.

Com diferentes graus de dificuldade, as propostas econômicas de Temer terão de ser submetidas à realidade. Como interino, o novo governo angariou crédito de diferentes setores da sociedade e conseguiu se capitalizar com projetos embrionários ou propostas vagas de reformas — o que foi suficiente para fazer a moeda brasileira se apreciar e melhorar os índices de confiança de consumidores e empresários.

Na condição de permanente, Temer será cobrado de outra forma. “O mercado quer agora uma prova de efetividade dessas propostas”, diz o cientista político Fernando Schüler, professor na escola de negócios Insper. Os próximos meses serão decisivos para definir quanto do desejável se tornará possível. As boas ideias estão aí. Mas é vital não se distanciar demais delas no meio do caminho.

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