Ainda dá para salvar a Usiminas?

Um mercado em crise, uma gestão criticada, sócios que não se entendem — como a siderúrgica Usiminas mergulhou na mais profunda crise de sua história

São Paulo — Cada um dos sete executivos que haviam confirmado presença na reunião do dia 27 de janeiro tinha bons motivos para temê-la. O assunto, todos sabiam, era o sombrio futuro da Usiminas, uma das maiores siderúrgicas do país — um colosso que fatura 10 bilhões de reais e emprega cerca de 20.000 pessoas.

A reunião, marcada no 19º andar do escritório do Banco do Brasil, na avenida Paulista, na região central de São Paulo, teria representantes das siderúrgicas Techint (ítalo-argentina) e Nippon (japonesa), as maiores acionistas da Usiminas, um grupo de funcionários da companhia e diretores do banco estatal, seu maior credor.

Os banqueiros vinham acompanhando o desempenho da empresa com lupa há pelo menos quatro meses. Com resultados em queda e uma dívida alta, a situação da Usiminas era tudo, menos confortável. Mas eles não estavam preparados para a notícia que receberiam ali. A companhia anunciaria em três semanas o maior prejuízo anual de sua história.

O nível de endividamento iria às alturas. Não havia como dourar a pílula — a Usiminas estava insolvente. Começava, ali, uma série interminável de encontros para tentar encontrar uma solução para a dívida da Usiminas antes da divulgação do balanço, marcada para 18 de fevereiro.

O mercado seria informado que o endividamento da empresa passaria de sete vezes sua geração de caixa para 20 vezes (numa empresa tida como saudável, esse índice não passa de três ou quatro vezes). Foram semanas marcadas pela mais absoluta confusão. Techint e Nippon, que controlam a Usiminas, tinham visões opostas sobre o futuro e decidiram se comunicar em separado com os bancos.

A Techint defendia a interrupção imediata dos pagamentos de juros, uma moratória de 180 dias e uma brutal reestruturação na empresa. Já a Nippon prometia aos bancos um aporte de capital que garantisse o pagamento de dívidas de curto prazo. Em troca, pedia aos credores uma renegociação das dívidas mais longas.

Mas os bancos sabiam que, pelo acordo de acionistas, Nippon e Techint teriam de chegar a uma proposta consensual. Como não houve acordo, o resultado anual foi anunciado sem que houvesse uma boa notícia a dar. Atualmente, a Usiminas vale na bolsa 2 bilhões de reais, 77% menos do que um ano atrás.

Pode-se dizer que a crise atual teve suas origens no dia 26 de setembro de 2014, quando Nippon e Techint entraram numa guerra pelo comando da Usiminas. O grupo ítalo-argentino havia comprado, três anos antes, a participação dos grupos Camargo Corrêa e Votorantim no bloco de controle da siderúrgica.

A Techint pagou 5 bilhões de reais, o equivalente a 36 reais por ação, ganhou o direito de indicar o presidente e começou uma impopular série de cortes de gastos. Em setembro de 2014, os japoneses decidiram dar um “golpe” nos sócios, na interpretação da Techint.

Disseram ter descoberto uma série de pagamentos irregulares da Usiminas a um grupo de executivos ligados à Techint e, numa manobra no conselho de administração, conseguiram indicar uma nova diretoria. A Techint foi à Justiça alegando que os pagamentos haviam sido aprovados pelos comitês de remuneração da Usiminas, mas perdeu a ação e o recurso em maio de 2015.

Por cinco meses, houve um período de certa trégua — até que, em outubro, ficou claro que a briga recomeçaria, dessa vez em razão das visões opostas de cada lado sobre o que fazer com o pepino em que a Usiminas se transformou. A crise global na siderurgia e na mineração já dragou 1,4 trilhão de dólares de valor das empresas listadas em bolsa em todo o mundo nos últimos anos.

O terror do setor é uma combinação de excesso de oferta com queda no preço das commodities. No Brasil, o péssimo momento dos setores automotivo e de construção piora um tanto mais as coisas. As duas maiores siderúrgicas do país, CSN e Gerdau, demitiram mais de 4 000 funcionários e diminuí­ram até 15% de sua produção de aço desde o pico.

Mas, se está ruim para todo mundo, para a Usiminas está pior. A empresa começou a cortar custos quase cinco meses depois das primeiras reações de CSN e Gerdau. E o acordo de acionistas da Usiminas não ajuda em nada. Nas decisões estratégicas, como venda de ativos, troca de comando ou renegociação de dívidas, Techint e Nippon precisam ter a mesma opinião.

E, desde outubro, há de tudo um pouco na Usiminas — menos consenso. Foi em outubro que o presidente da Usiminas, Rômel de Souza, voltou de uma viagem ao Japão e comunicou ao mercado, no dia seguinte, a decisão de fechar a usina de Cubatão, responsável por 40% da produção de aço bruto da empresa. A decisão não foi debatida no conselho de administração, o que enfureceu os executivos da Techint.

“A decisão sobre Cubatão foi tomada por unanimidade pela administração da Usiminas, incluindo os diretores indicados pela Techint”, diz Souza, para quem o assunto não precisava ter sido discutido previamente no conselho. O episódio aconteceu justamente quando conselheiros e diretores começavam a discutir o orçamento da empresa para 2016.

Para a Techint, a Usiminas já estava indo para o buraco e era necessário fazer um plano que partisse dessa premissa. Para os japoneses, bastava um ajuste nas projeções. O primeiro orçamento apresentado pela diretoria estimava uma geração de caixa para o ano de 1,6 bilhão de reais — na quarta revisão, fecharam em 500 milhões de reais.

Como esse desempenho torna a dívida impagável, os executivos começaram a chamar os bancos para conversar. A primeira renegociação aconteceu já em dezembro, quando ficou claro que a companhia romperia os limites contratuais de endividamento previstos para 2015.

O único que não fechou acordo foi o banco JP Morgan, o que obrigou a Usiminas a quitar à vista a dívida de 101 milhões de dólares com o banco americano. A segunda renegociação é justamente a que começou em janeiro, sobre como evitar que a empresa quebre — e isso depende de um acordo com os bancos e, igualmente importante, dos acionistas.

Techint e Nippon não deram entrevista. Como salvar a Usiminas? O que os acionistas querem e do que eles discordam agora? A Techint defende uma suspensão dos pagamentos para que a companhia possa chegar a um plano de reestruturação.

Nesse plano, querem incluir a troca de gestão da companhia e fazer uma redução de capital na Usiminas Mineração, empresa em que a Usiminas é sócia da japonesa Sumitomo, para “acessar” o 1,3 bilhão de reais que a companhia tem em caixa.

A Techint não quer gastar mais nenhum centavo — afinal, pagou 3 bilhões de dólares por uma participação acionária que hoje é avaliada em seu próprio balanço a 380 milhões de dólares. Os japoneses discordam. Para a Nippon, suspender pagamentos sem nenhum tipo de contrapartida — como dinheiro novo dos acionistas — é o mesmo que dar um calote.

Do 1,9 bilhão de reais de dívidas que vencem neste ano, credores japoneses têm 550 milhões a receber. Parte disso é empréstimo direto da Nippon ou intermediada por ela junto ao JBIC, banco de fomento japonês. Outro constrangimento para os japoneses diz respeito ao que fazer com a sobra de caixa da Usiminas Mineração.

“A Sumitomo decidiu investir na Usiminas Mineração pela presença da Nippon no capital da Usiminas”, diz um executivo ligado à Nippon. Sumitomo e Nippon têm dois grandes acionistas em comum, o Japan Trustee Services Bank e o Master Trust Bank of Japan.

Os credores afirmam que estão negociando a rolagem da dívida, mas querem um reforço no caixa da empresa e um plano de negócios que mostre que a Usiminas pode voltar a gerar caixa. Os japoneses aceitam discutir mudanças na gestão da companhia em abril, quando vencem os mandatos dos diretores, mas apenas se já tiverem resolvido o problema com os bancos.

Naturalmente, a possibilidade de um pedido de recuperação judicial cresce. A Nippon fará de tudo para evitá-lo; já a Techint, que perdeu quase todo o dinheiro que colocou na Usiminas, não se incomoda tanto. Os bancos, como de costume, aceitam qualquer negócio para evitar a recuperação judicial, que os forçaria a reconhecer perdas bilionárias em seus balanços.

Diante do impasse, a Techint passou a insistir com os japoneses para a inclusão de uma cláusula de saída no acordo de acionistas. Esse tipo de cláusula força a saída de um dos sócios a determinado preço — quem não quiser vender é obrigado a comprar a participação do outro. Os japoneses afirmam que não há a menor possibilidade de aceitar esse tipo de cláusula.

Ninguém está ganhando com essa briga. Os investidores minoritários ficaram reféns e ainda podem ser diluí­dos no futuro próximo. O empresário Lírio Parisotto, que viu na crise do ano passado uma oportunidade de investimento, perdeu 140 milhões de reais em um ano.

O dono da CSN, Benjamin Steinbruch, gastou 3 bilhões de reais para montar uma posição de 17% no capital da Usiminas, mas essa dinheirama não serviu para nada. Na cidade mineira de Ipatinga, onde a Usiminas concentra suas operações, a arrecadação tributária caiu 20% em um ano.

O governador do estado, Fernando Pimentel, já esteve em três reuniões com os acionistas tentando intermediar um acordo. “Não adianta trocar a admi­nistração se a companhia continuar travada no conselho”, afirma Ricardo Kim, analista-chefe da XP Investimentos. Faltam 15 anos para o fim do acordo de acionistas entre Nippon e Techint. Eis um consenso: a Usiminas não tem tanto tempo assim.

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