Brasil precisa de uma saída para o campo – e com urgência

A integração entre lavoura, pecuária e floresta eleva a produtividade em fazendas e pode recuperar milhões de hectares de pastagens que atrasam setor brasileiro

Ipameri (GO) — Às margens das estradas que levam ao município de Ipameri, no sudeste goiano, o que se vê é uma paisagem lamentavelmente comum no Brasil rural: uma imensidão de pastagens degradadas. Exploradas à exaustão com a criação extensiva de gado, as terras estão secas, pobres em matéria orgânica e compactadas pelo pisoteamento dos bois.

Estima-se que haja pelo menos 60 milhões de hectares nessas condições no país. No lugar do capim, há muitos cupinzeiros e poucos bois magros, que podem perder 1,5 quilo por semana na seca. E, nos últimos quatro meses, não caiu uma única gota d’água na região. A penúria, no entanto, não atinge todos da mesma forma.

Na Fazenda Santa Brígida, a aproximadamente 10 quilômetros do centro da cidade, o gado se alimenta de pastagens fartas e continua a engordar. O cenário resulta de uma mu­dança iniciada há dez anos. Até 2006 a área de cerca de 1 000 hectares era de­di­cada apenas à pecuária. Assim como boa parte das fazendas vizinhas, era in­capaz de abrigar mais de um animal por hectare.

O salto veio com o plantio inte­grado de soja, milho e capim na propriedade. A lavoura devolveu ao solo nutrientes perdidos e o pasto se regenerou. “A safra dos grãos pagou o investimento inicial e tornou a pecuária mais eficiente”, diz Marize Porto, dona da pro­priedade.

Três anos depois, árvores de eucalipto também foram inseridas no sistema, o que ajudou, entre outras coisas, a criar a sombra que abriga o ga­do quando o sol está a pino. A transformação tornou a fazenda um dos melhores exemplos de uma tecnologia de produção que vem se disseminando no país: a integração lavoura-pecuária e a integração lavoura-pecuária-floresta. 

Estima-se que hoje quase 3 milhões de hectares de toda a área produtiva brasileira operem dessa maneira — sendo que boa parte das experiências começou nos últimos seis anos. Cerca de um terço dessa extensão está no estado de Mato Grosso.

Durante a Conferência do Clima de Paris, no ano passado, encontro da ONU sobre o clima com 195 países, o governo brasileiro se comprometeu a elevar o patamar atual para 5 milhões de hectares até 2030, como parte da meta nacional de redução das emissões de gases de efeito estufa. A extensão é tímida diante dos 300 milhões de hectares de área produtiva do país, mas o potencial é enorme.

Para a empresa de pesquisa Embrapa, a tecnologia poderá ajudar a recuperar áreas em processo de degradação no país, que correspondem a 82% de toda a extensão de terra atualmente dedicada à criação bovina. “É um escândalo que tenhamos tantas áreas degradadas diante do peso do setor na economia”, afirma Maurício Lopes, presidente da Embrapa.

Avanço potencial

Apesar das evidências dos benefícios dos sistemas integrados, acelerar sua curva de adoção não tem sido tarefa fácil. Grandes transformações na agropecuária brasileira nas últimas décadas, como a decorrente do uso de sementes transgênicas nos anos 2000, exigiram uma mudança incremental. Os sistemas integrados, por sua vez, demandam uma transformação estrutural.

Antes de mais nada, o produtor precisa alterar a lógica de seu negócio. É um caminho especialmente árduo para pecuaristas, que precisam introduzir um maquinário caro e complexo em suas operações — plantadeiras, colheitadeiras e pulverizadores.

“São produtores, em sua maioria, com margens baixas, pouquíssimos funcionários e pouca disposição para tomada de risco ou de crédito”, diz Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e chefe do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Para o especialista, o entrave, porém, não é intransponível.

“Na medida em que o pecuarista adotar sistemas integrados, poderemos ter aí o maior avanço deste século no campo”, afirma.
A virada na Fazenda Santa Brígida veio de um encontro de interesses entre a proprietária, Marize Porto, e técnicos da Embrapa. De um lado, a dentista Marize se viu, de uma hora para a outra, à frente da fazenda após a morte de seu marido em 2002.

De outro, a Embrapa tinha disposição de testar empiricamente o que vinha estudando há pelo menos 30 anos. A instituição fez da propriedade uma de suas primeiras unidades de referência tecnológica do sistema integrado. Assim, a propriedade tornou-se campo de experimentação científica e de disseminação de conhecimento para outros produtores.

Duas formas de integração foram aplicadas na Santa Brígida: o esquema de consórcio, em que o milho e o capim — ou a soja e o capim — são plantados simultaneamente no mesmo espaço; e o esquema de sucessão, em que a área de grãos é convertida em pasto após a colheita.

“O rodízio de cultivos numa mesma área tem influência direta no índice de nutrientes alocados no solo, o que é crucial para uma agropecuária mais eficiente”, diz João Kluthcouski, um dos maiores especialistas em solo tropical do país e precursor no estudo de sistemas de integração na Embrapa. A matéria orgânica no solo da Santa Brígida dobrou em dez anos — e está 1 ponto percentual acima da média no cerrado.

A lotação de animais nos pastos quadruplicou. A produtividade do milho mais que dobrou, a soja passou a render 20 sacas a mais por hectare e a primeira safra de madeira de eucalipto já pode ser colhida. 

Um estudo realizado pela Fundação Espaço Eco, da empresa química Basf, e pela Universidade Estadual Paulista mostrou que o sistema integrado é mais eficiente do que o sistema comum não só do ponto de vista econômico mas também da perspectiva ambiental.

Nos últimos dois anos, a engenheira Marcela Porto, analista de socioeficiên­cia da Fundação Espaço Eco e filha de Marize, comparou os dados da fazenda de sua mãe aos números das propriedades vizinhas produtoras de soja, milho, sorgo, gado e madeira.

O levantamento considerou a demanda por alimentos de um grupo de 500 pessoas ao longo de sete anos — ciclo médio de uma árvore de eucalipto, componente florestal do sistema Santa Brígida. Para isso, a pesquisadora usou o conceito de análise de ciclo de vida, que considera a cadeia produtiva dos insumos que entram e saem da fazenda, como fertilizantes, defensivos, grãos e carne.

O resultado: um sistema integrado requer apenas um sexto da área para a produção e custa menos da metade. Os benefícios desdobram-se no consumo de energia, quase 60% menor, e de água, que diminuiu 20%. Mais de 320 000 toneladas de resíduos deixam de ser geradas e a emissão de gases de efeito estufa é cortada pela metade.

“A sinergia de um sistema integrado faz o resíduo de uma atividade servir de insumo para outra, como a palha do milho, que incrementa o alimento dos bois no pasto”, afirma Marcela. A adesão de produtores tradicionais indica que o sistema integrado tem potencial para ganhar escala.

Um dos exemplos é o pecuarista paulista Carlos Viacava, proprietário de duas fazendas, em Caiuá e Presidente Epitácio, no oeste paulista, há 40 anos. Até 2014 Viacava se dedicava exclusivamente à produção de touros. Naquele ano, um terço de seus 3 000 hectares passou a abrigar o plantio de soja. Após cada colheita, o grão dá lugar ao capim.

A mudança rendeu uma pastagem completamente reformada no inverno — uma façanha para o solo arenoso da região. Hoje ele tem 5 100 cabeças de gado, 700 mais do que antes. O ganho de qualidade do capim também permitiu a Viacava enviar suas bezerras para reprodução com 14 meses, já com peso para entrar em gestação — o cruzamento ocorre, em geral, aos 2 anos.

Ao mesmo tempo a soja já responde por 34% de seu faturamento. “Com mais de um produto, diluí os riscos do negócio, que deverá crescer pelo menos 57% até o ano que vem”, diz Viacava. No oeste paranaense, um movimento semelhante foi feito pela Cocamar, uma das maiores cooperativas agrícolas do país.

Cerca de 100 000 hectares de pastagens degradadas de mais de 100 produtores de gado adotam hoje o sistema integrado — e a produção de carne associada à soja já é quase oito vezes mais rentável do que a média de produção de carne da região.

“Tirar os criadores da zona de conforto não é fácil, mas com o tempo eles percebem que a pastagem não vai dar retorno se não houver uma mudança no jeito de produzir”, afirma Luiz Lourenço, presidente da Cocamar.

Sem consenso

Embora a vantagem econômica da integração lavoura-pecuária seja consenso, o mesmo não pode ser dito sobre o papel da floresta nessa equação. Há uma razão prática para que ainda não haja tantas evidências dessa vantagem. Boa parte dos produtores que aderiram ao sistema fez a transição há menos de seis anos.

No caso do eucalipto, espécie mais comumente plantada nos sistemas integrados, as árvores levam, em média, sete anos para chegar ao ponto de corte. “A integração com a floresta pode não só recuperar milhares de pastagens degradadas que temos como também manter florestas de pé.

Produção e conservação de uma vez só”, diz Alysson Paulinelli, ex-ministro da Agricultura, que há 15 anos começou a experimentar sistemas integrados em sua propriedade em Baldim, Minas Gerais.

Segundo produtores ouvidos por EXAME, as árvores barram o vento, minimizando a erosão do solo, fazem sombra para o gado e impedem que os animais gastem energia fugindo do sol forte — o que acelera o ganho de peso. Para Kluthcouski, os ganhos ecossistêmicos são inquestionáveis.

“As árvores adicionam ao sistema uma quantidade importante de matéria orgânica, que mantém o solo nutrido e produtivo por mais tempo”, afirma o pesquisador. “Além disso, não há melhor forma de compensar as emissões de carbono do rebanho.” A incerteza faz com que os produtores sejam mais cautelosos com a inclusão da floresta. Viacava, do interior de São Paulo, é um deles.

Ele plantou em agosto eucaliptos ao longo de 20 quilômetros de sua propriedade. Como vai demorar pelo menos sete anos para ter o retorno desse investimento, a preocupação dele hoje é outra. “A intenção é fazer alguns experimentos e ver como o pasto, a soja, o sorgo e até os girassóis podem interagir com eles”, diz.

Agenor Pelissa, proprietário da Fazenda Dona Isabina, no município mato-grossense de Santa Carmem, aderiu à combinação tríplice há mais tempo — mas também deixou para incluir a floresta bem depois de experimentar a dupla lavoura-pecuá­ria. Há 12 anos ele decidiu integrar a lavoura de soja à criação do gado.

Na época, as áreas mais antigas de plantio de soja, cada dia menos produtivas, receberam sementes de arroz e em seguida o capim, para mais tarde abrigar o gado. Em 2010, foram incorporados eucaliptos ao sistema.

Hoje, parte dos bois de Pelissa se alimenta de pastos ladeados de árvores que em dois anos estarão maduras para o corte e poderão virar fonte de energia na secagem de grãos. “Minha rentabilidade cresceu 20%”, afirma Pelissa. Para tudo isso dar certo, não bastam fazendeiros dispostos. É preciso mão de obra qualificada, um dos desafios latentes do campo no Brasil.

Na Fazenda Santa Brígida, a qualificação dos profissionais foi um passo necessário para avançar no sistema integrado. Eles tiveram de aprender a operar plantadeiras e colheitadeiras ao mesmo tempo em que adquiriram domínio completo do manejo dos bois nos pastos e nas áreas de confinamento.

O agroecólogo Alex Silva, de 30 anos, gerente operacional da Santa Brígida, especializou-se em produção vegetal de 2013 a 2015. Hoje, além de administrar a operação da fazenda, ele acompanha de perto os experimentos realizados pela Embrapa no local. A despeito dos entraves que ainda freiam o ganho de escala dos sistemas integrados, há gente grande investindo na ideia.

Em 2012, a fabricante de máquinas agrícolas John Deere juntou-se à Embrapa e a outros parceiros, como as fornecedoras de insumos agrícolas Dow Agrosciences e Syngenta, a empresa de engenharia Parker e a Cocamar, para disseminar a ideia entre produtores e pesquisadores. O grupo está prestes a finalizar um levantamento para mensurar de maneira precisa a área de integração existente.

Enquanto isso, tem financiado treinamentos Brasil afora, com foco nas quase 100 unidades de referência tecnológica da Embrapa. “Trata-se de uma tecnologia intensiva que nos permite enfrentar vários problemas ao mesmo tempo: a improdutividade de pastos degradados, o desmatamento da vegetação nativa e as emissões de gases de efeito estufa”, diz Paulo Herrmann, presidente da John Deere no Brasil e da Rede de Fomento à Integração Lavoura-Pecuária-Floresta.

Para o executivo, novas tecnologias deverão garantir o protagonismo do país na produção de alimentos para o planeta no próximo século. Dadas as estimativas de que a população mundial chegará a 9 bilhões em 2050, a demanda será de uma produção agrícola 70% maior em 30 anos. “Só o Brasil tem capacidade de suprir essa demanda de forma imbatível”, afirma.

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