Brasil tem chance no longo prazo, diz economista de Harvard

“Quando a turbulência passar, o Brasil estará em uma posição muito melhor”, afirma Dani Rodrik, professor de economia em Harvard

Nova York — O economista turco-americano Dani Rodrik é um dos mais influentes do mundo quando o assunto é desenvolvimento. Ele fez carreira na Universidade Harvard, mas passou os últimos dois anos como pesquisador em Princeton.

De seu retiro acadêmico nasceu o livro “Economics Rules” (“As regras da economia”, numa tradução livre), publicado em outubro nos Estados Unidos e ainda sem previsão de lançamento no Brasil. A obra figura na lista dos livros mais importantes de 2015 da revista britânica The Economist. Nela, Rodrik discute os limites da economia como ciência e reconhece erros graves cometidos por profissionais da área.

Mas também defende a classe de críticas que considera injustas, como a reclamação de que economistas falharam em previsões. Rodrik é um arguto observador dos países emergentes. Nesta entrevista a EXAME, ele explica seu otimismo com o futuro do Brasil e critica a adoção de políticas econômicas por mera convicção ideológica. 

Exame – Em seu novo livro, o senhor aponta que um dos problemas dos economistas é que eles costumam adotar um modelo econômico como se fosse o único correto. Como isso atrapalha a formulação de boas políticas econômicas?

Rodrik – Formuladores de política econômica costumam seguir modismos. Note como as políticas para estimular o crescimento e o desenvolvimento seguiram tendências. O mundo passou por um ciclo de substituição de importações nos anos 70.

Depois passou por uma onda de liberalização da economia nos anos 80 e 90, simbolizada pelo Consenso de Washington, que defendia políticas como a privatização de ativos do governo. Agora há um progressivo retorno à ideia de que o Estado precisa fazer mais intervenções. Economistas tendem a assumir que há sempre apenas um modo correto de encarar problemas econômicos.

Mas a realidade é que, em certos casos, é necessário recorrer a mecanismos como a substituição de importações. Em outros é preciso recorrer aos incentivos ao mercado e ao investimento privado, conforme preconizado pelo Consenso de Washington.

Cabe às autoridades navegar nas circunstâncias diversas sem esse ranço ideológico. Os melhores formuladores de políticas públicas não devem ser dogmáticos. Eles precisam ser pragmáticos.

Exame – Como esses dogmas aparecem no mercado financeiro?

Rodrik – O mercado financeiro passou por uma transformação semelhante. Nos anos 50 e 60, a visão dominante era que os mercados deveriam ser pesadamente regulados pelo governo. Progressivamente essa percepção deu lugar a uma tendência de liberalização, em especial a partir dos anos 90. O apogeu dessa visão ocorreu imediatamente antes da crise de 2008.

Ela tinha raízes profundas em uma estrutura de pensamento de economia que considero dogmática: a de que não é necessário regular os mercados. Apostamos demais na ideia de mercado eficiente do economista Eugene Fama e de menos na teoria de flutuações macroeconômicas de Robert Shiller [dois ganhadores do Nobel de Economia].

Exame – O senhor tem criticado a maneira como o mercado financeiro está analisando o Brasil. Por quê?

Rodrik – O que está acontecendo no Brasil hoje é realmente trágico. Os casos de corrupção ajudaram a criar uma grande crise política. O fato é que todos ou a grande maioria dos países emergentes sofrem com corrupção endêmica. Mas em quase nenhum deles juízes e promotores têm a liberdade de levar as investigações às últimas consequências.

Apesar de haver claras intenções de políticos brasileiros de intervir, eles não têm conseguido frear o processo, e as investigações estão indo longe. A sensação é que a lei é aplicada com mais rigor no Brasil do que em outros países emergentes. México, Turquia, Malásia e, principalmente, Rússia têm demonstrado um nível de maturidade institucional inferior.

Quando a turbulência passar, o Brasil estará em uma posição muito melhor do que a maioria dos emergentes no caminho para se tornar uma economia avançada. E acho que o mercado financeiro internacional não está reconhecendo essa vantagem.

Exame – Como esse fortalecimento institucional beneficia o país economicamente?

Rodrik – Estabelecendo as regras do jogo. Outros países emergentes operam em ambientes altamente informais e há menos proteção a investimentos e acordos. A China teve um crescimento espetacular, mas não fortaleceu suas instituições judiciais.

Como pode haver uma economia avançada onde há dúvidas, por exemplo, sobre as regras que protegem a propriedade intelec­tual? A China ainda enfrentará problemas graves de desinteresse do capital privado estrangeiro devido a esse tipo de incerteza. E o Brasil está equacionando essa questão.

Exame – Essa sua previsão se mantém mesmo que a presidente Dilma Rousseff sofra o impeachment?

Rodrik – O impacto econômico de um impeachment no curto prazo seria grande, mas aqui estou tratando de uma transição que está além do destino de líderes políticos individualmente. O processo de amadurecimento institucional que ocorre no Brasil é maior do que isso.

Mas, para que ele não seja freado, é importante que duas coisas não aconteçam, independentemente do desfecho do impeach­ment: a classe política não pode dominar as investigações judiciais e essas investigações não podem adquirir uma agenda política em particular, seguindo as preferências particulares de um juiz em vez de cumprir a lei.

No momento em que essas linhas são ultrapassadas, todo o processo que descrevi vai por água abaixo.

Exame – É mais difícil para os países emergentes enriquecer agora que a economia mundial está crescendo tão lentamente?

Rodrik – O processo de convergência para um novo patamar econômico vai continuar mundo afora, mas não tão rapidamente quanto se pensava. Isso se aplica ao Brasil, mas também à África, à Ásia e a outras regiões. No passado, um crescimento econômico acelerado era fruto de mudanças estruturais significativas.

Nas últimas décadas, o crescimento veio de uma combinação entre um boom nos preços dos recursos naturais e altos fluxos de investimento estrangeiro. Nenhuma dessas duas coisas oferece uma fonte de crescimento sustentável.

E agora, porque essas anomalias estão deixando de acontecer, há um risco de as pessoas ficarem excessivamente pessimistas. Eu creio piamente que países bem administrados vão continuar seu caminho de desenvolvimento.

Exame – Como esse fenômeno global se relaciona com sua teoria de desindustrialização prematura?

Rodrik – Praticamente todos os casos de crescimento acelerado do século 20 se deram em virtude da industrialização. Foi o caso de Taiwan nos anos 60, do Brasil nos anos 60 e 70 e depois ocorreu com países do Oriente Médio. Há duas boas razões para isso: a indústria colocou mão de obra pouco qualificada em posições mais produtivas e, em muitos casos, criou um bem que podia ser exportado.

Essa combinação fez com que a industrialização se tornasse um motor de crescimento potente. Mas a divisão internacional do trabalho e as mudanças tecnológicas, que exigem mão de obra muito mais qualificada, viraram o jogo. Isso está produzindo o que chamo de desindustrialização prematura.

Esse fenômeno limita o crescimento de muitos países emergentes, como o Brasil. Principalmente porque essa tendência de longo prazo foi combinada com uma mais pontual, que é a elevação do preço das commodities, algo que certamente acelerou a desindustrialização.

Exame – O senhor já escreveu que a desindustrialização é irreversível. Se esse é o caso, como buscar crescimento acelerado no século 21?

Rodrik – Terá de ser pelo caminho mais difícil: investimentos em capital humano, em melhoria das instituições e bom cumprimento das leis. A partir de agora, só será possível crescer melhorando os fundamentos. E isso não produz milagre econômico, mas permite que um país cresça de forma consistente, com aumentos no PIB per capita de mais ou menos 3% ao ano.

Exame – Em seu primeiro mandato, a presidente Dilma deu farto crédito com juros subsidiados a indústrias e depois promoveu a desoneração para vários setores. Isso criou um enorme problema fiscal. O senhor acha que os governos devem tentar políticas para frear a desindustrialização prematura?

Rodrik – É um erro pensar que política industrial é apenas conceder subsídios. É muito melhor buscar entender as necessidades urgentes e específicas de cada setor. Essas demandas podem estar no campo financeiro, mas podem ser relativas à infraestrutura, à falta de mão de obra qualificada ou a aspectos das leis trabalhistas. O segredo é estabelecer um diálogo constante entre o governo e a indústria.

Já a questão fiscal vai muito além disso. Os governos deveriam aprender a perseguir superávits primários maiores durante períodos de alto crescimento para criar uma reserva que permita mais gastos em períodos de baixo crescimento. Não apertar a política fiscal quando os ventos estão soprando a favor é um erro muito comum entre os países emergentes. Mas, como se vê hoje, ele pode custar caro.

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