Ciência trará era de prosperidade ao mundo, diz especialista

Para Joel Mokyr, um dos principais historiadores econômicos da atualidade, o atual progresso científico vai gerar uma nova era de crescimento econômico

São Paulo — O avanço tecnológico sempre foi o motor do crescimento econômico. Com as invenções feitas desde a Revolução Industrial, esse processo se acelerou, e a qualidade de vida da humanidade deu um salto. Assim, nos acostumamos com a ideia de que o surgimento de novas tecnologias sempre garantirá a expansão das riquezas.

Mais recentemente, um grupo de economistas liderado pelo americano Robert Gordon, considerado uma das maiores autoridades sobre o tema da produtividade, começou a colocar essa certeza em xeque. Para esses especialistas, nós já realizamos as grandes invenções.

Os avanços que melhoraram nossa vida ao longo do século 20 eram como as frutas que ficam penduradas na parte mais baixa da copa das árvores. Como eram as mais fáceis de alcançar, foram colhidas. Ainda de acordo com esses economistas, o dinamismo tecnológico está perdendo força e deveríamos esperar por uma era de estagnação na economia mundial. Será?

Na minha opinião, eles estão errados. O passado dá boas pistas sobre o que torna as sociedades tecnologicamente criativas. E, se olharmos para o que acontece hoje, veremos que todos os fatores que embalaram o progresso científico nos últimos 200 anos continuam presentes. Um dos maiores catalisadores da inovação ao longo da história tem sido a competição global.

Durante a Revolução Industrial, a concorrência entre a Inglaterra e as demais potências da época foi crucial para o avanço tecnológico. Ao longo do século 20, nada ajudou mais a inovação americana do que os soviéticos terem lançado o primeiro satélite artificial em 1957, o Sputnik.

ssa derrota espacial dos Estados Unidos fez com que o governo americano desse um enorme impulso ao desenvolvimento da ciência básica e das tecnologias aplicadas. Essa nova ênfase garantiu que, 12 anos depois, os americanos fossem os primeiros a levar o homem à Lua e colhessem os frutos do que ficou conhecido como ‘efeito Sputnik’ — os progressos obtidos de forma indireta em outras áreas, como a medicina e a tecnologia digital.

Esse tipo de motivação continua a existir e não há nada que indique que desaparecerá no futuro. A União Soviética sucumbiu, mas houve a ascensão da China e de vários outros países emergentes. Em larga medida, a competição internacional na área de tecnologia aumentou.

Num mundo em que as barreiras comerciais diminuíram, a tecnologia é, em muitos casos, uma questão de sobrevivência — não uma opção.
Mas resumir tudo a incentivos econômicos seria uma simplificação. Não podemos esquecer as ambições pes­soais. As descobertas são, muitas vezes, batizadas com o nome dos inventores.

Um pesquisador bem-sucedido geralmente consegue trocar uma universidade pouco conhecida por uma de renome. Se for excepcional, pode ganhar prêmios. Esse tipo de incentivo tem sido suficiente para fazer os cientistas criar coisas novas — mesmo que o inventor pouco se beneficie financeiramente. O médico americano Jonas Salk inventou a vacina contra a pólio em 1952.

Seus benefícios para a sociedade poderiam ser medidos na casa dos bilhões de dólares. Salk, no entanto, não ganhou nem uma fração desse dinheiro, mas ainda assim ficou satisfeito com o reconhecimento que veio anos mais tarde com um Prêmio Nobel. Essencialmente, esse sistema de recompensa não mudou.

Fora isso, há outro pilar da inovação que continua inabalável. O registro histórico mostra que o progresso tecnológico resulta em larga medida das ferramentas e dos instrumentos com os quais os pesquisadores trabalham. A revolução científica do século 17 dependeu do desenvolvimento do telescópio, do microscópio, do barômetro e de engenhocas semelhantes.

Esse conjunto de instrumentos permitiu a observação de coisas que antes eram invisíveis. Hoje contamos com o nanoscópio, que permite analisar o percurso das moléculas dentro de células vivas — recurso com o qual o cientista francês Louis Pasteur, um dos fundadores da microbiologia, nem sonharia no século 19. As perspectivas de avanço na área da saúde continuam extremamente altas.

Na área da matemática, os computadores têm proporcionado uma verdadeira revolução. Hoje temos ferramentas que não eram sequer imaginadas há 15 anos.

Novos problemas

Nada disso faria muito sentido se a humanidade não tivesse um imenso conjunto de desafios a ser enfrentado. Historicamente, o surgimento de novos problemas tem movido o mundo. Quando se analisa a Revolução Industrial, vemos que havia uma série de limitações bem objetivas que precisavam ser resolvidas. Uma delas estava relacionada ao comércio por via marítima.

Os marinheiros daquela época conseguiam medir a latitude, mas não a longitude — o que fazia com que perdessem seu curso em centenas de quilômetros e muitas vezes acabassem afundando por colidir com barreiras que já constavam nos mapas.

Em 1714, o governo britânico prometeu um prêmio a qualquer indivíduo que criasse um método ou um instrumento que medisse a longitude — problema resolvido pelo relojoeiro inglês John Harrison, que inventou o primeiro relógio marítimo de alta precisão. Ao calcular o horário local pela altura do sol e olhar o relógio presente no barco com a hora de Greenwich, na In­glaterra, os navegadores passaram a saber onde estavam.

Uma grande quantidade de problemas é o que não nos falta hoje. O aquecimento global está aí e ainda não sabemos de onde virá a solução. Sairá da geoengenharia climática, que propõe soluções como o uso de refletores solares para diminuir a temperatura da Terra? Ou da adoção em larga escala de uma matriz energética renovável?

Sairá, talvez, de uma combinação dessas duas estratégias? Como a história tem nos mostrado, os desafios provavelmente não serão resolvidos todos ao mesmo tempo. Simplesmente porque alguns deles são mais difíceis do que os outros. O certo é que há um exército de pesquisadores em todo o mundo que trabalham diariamente para que esses problemas sejam resolvidos.

Se analisarmos com cuidado como a inovação acontece hoje, temos todas as razões para acreditar que o melhor ainda está por vir. Estamos construindo escadas que vão nos permitir colher os frutos que ficaram na parte mais alta das árvores — e continuar tendo crescimento econômico.”

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