Donald Trump sente o sabor da vitória nos EUA

O magnata ganha a primária de New Hampshire, reforça sua imagem de outsider, mas na área econômica parece concordar com outros pré-candidatos republicanos

São Paulo – Nada mais certo numa eleição americana do que o Partido Republicano defendendo a redução dos impostos. Não é exagero adaptar a famosa frase de Benjamin Franklin, um dos pais fundadores dos Estados Unidos (“Nada é mais certo neste mundo do que a morte e os impostos”), para as campanhas presidenciais do país.

Ainda faltam meses para que seja definido o candidato da oposição à sucessão de Barack Obama, mas, com o excelente desempenho de Donald Trump na segunda eleição primária, em New Hampshire, a candidatura do empresário é levada cada vez mais a sério.

O senador pelo Texas Ted Cruz, vencedor na primária anterior, em Iowa, e o senador pela Flórida Marco Rubio são os outros — até o momento — apontados como favoritos. As histórias pessoais e os estilos dos três não poderiam ser mais diferentes, mas suas receitas para a economia são semelhantes — e elas passam, naturalmente, pelo corte de impostos. 

Com declarações ultrajantes sobre imigrantes, mulheres, jornalistas e adversários, Trump dominou o noticiário da campanha. Suas propostas econômicas, apesar de menos noticiadas, não ficam devendo muito em termos de exagero.

O magnata do setor imobiliário promete isenção completa do imposto de renda para indivíduos que ganhem menos de 25 000 dólares por ano — ou para casais que tenham renda anual inferior a 50 000 dólares. “Eles vão receber um formulário de uma página para enviar à Receita Federal dizendo: ‘Vitória’ ”, informa o site oficial de Trump. Isso significaria que mais da metade dos domicílios dos Estados Unidos não pagaria IR.

Parece bom demais para ser verdade, e quem fez as contas concorda. O centro de estudos Tax Foundation projeta que a arrecadação do governo federal cairia quase 12 trilhões de dólares em dez anos, desconsiderando o eventual crescimento econômico trazido pelo capital extra em circulação. Em seu programa, Trump diz que o plano se pagará com o fim das deduções e das brechas fiscais dos muito ricos e das empresas. Trata-se de uma questão de mero “bom senso”, diz o candidato.

Seus principais adversários também dão grande destaque à reforma fiscal para atender “milhões de famílias americanas que estão sendo esmagadas pela economia de Obama”, como diz a campanha de Cruz. Os números atuais da economia americana não são ruins, pelo contrário. A taxa de desemprego está em torno de 5%, um número classificado como de pleno emprego.

Mas a economia teve uma desaceleração importante no último trimestre de 2015, e já há quem fale em recessão no horizonte. Um dos indicadores é o consumo, responsável por 70% da economia do país. As vendas da temporada de Natal ficaram aquém da previsão.

“Um dos fatores preocupantes é que o dinheiro economizado com a gasolina, que está com o preço muito baixo, não está sendo gasto com outros bens e serviços”, diz Paula Camp­bell Roberts, diretora executiva de pesquisas do banco Morgan Stanley.

Cruz, que saiu na frente ao vencer a primeira primária, promete uma alíquota única de 10% para os rendimentos pessoais. A Tax Foundation calcula que essa redução de impostos possa gerar até 4,8 milhões de empregos — desde que se encontre o dinheiro para cobrir o rombo nas contas do governo.

Dos três favoritos, Rubio tem o plano menos ousado de redução de tributos. Todos os candidatos também prometem reduzir a carga tributária para as empresas, mas a ênfase na campanha, é claro, está no bolso dos contribuintes.

Outro tema crucial é a imigração. Depois de oito anos, ele voltou a figurar entre as quatro maiores preocupações dos eleitores. O assunto ganhou uma nova dimensão na campanha de 2016 por causa dos recentes atentados em Paris e na Califórnia.

A ideia de que refugiados da guerra civil na Síria possam entrar no país para cometer atos de terrorismo tem sido um dos temas obrigatórios dos debates e discursos de todos os candidatos, republicanos e democratas. Entre os republicanos, a retórica anti-imigrantes também tem viés econômico.

Os três favoritos prometem ampliar o muro na fronteira entre Estados Unidos e México. Rubio, filho de cubanos que imigraram para Miami nos anos 50, defende o registro de todos os ilegais. Eles terão de se apresentar voluntariamente, pagar multa e passar por verificação de antecedentes criminais — e não terão direito a nenhum tipo de programa social do governo. Mas começarão a pagar impostos imediatamente, é claro.

Uma pesquisa recente realizada pelo instituto Gallup indica que 27% dos republicanos só votarão em candidatos que compartilhem de suas posições em relação à imigração. Foram as palavras duras (ou xenofóbicas) de Trump em relação à imigração que o levaram a ditar a agenda das primárias republicanas.

Mas há dúvidas de que ele tenha fôlego para levar sua candidatura até o final. “Campanhas dependem de uma enorme organização e de muito dinheiro”, diz Corey Boles, analista sênior da consultoria política Eurasia Group. “Trump é bilionário, mas seus adversários têm uma estrutura mais bem preparada. Isso não pode ser esquecido.”

O establishment republicano ainda não decidiu em quem vai apostar todas as suas fichas. Jeb Bush, irmão do ex-presidente George W. Bush, teve um desempenho horrendo em Iowa, mas surpreendeu positivamente em New Hampshire. John Kasich, governador de Ohio, teve boa votação na segunda primária, mas é considerado um azarão.

Rubio, com apenas 44 anos, tenta usar a falta de experiência a seu favor. Como Obama em 2008, está em seu primeiro mandato no Senado, é de uma geração mais jovem e não carrega o ­peso de fazer parte da “turma de ­Washington”.

Para a ala moderada de seu partido, acima de tudo, Rubio não é Cruz. A base de sustentação de Cruz é a ala mais à direita dos republicanos. Suas ideias ecoam nos eleitores mais religiosos. Seu programa afirma, por exemplo, que casamento é a união sagrada entre um homem e uma mulher — em 2014, a Suprema Corte legalizou o casamento gay em todo o território.

Qual é o caminho da vitória?

A escolha de um candidato extremista po­de representar uma ruptura sem precedentes para os republicanos. “É muito pouco provável que um político com ideias mais radicais seja capaz de derrotar Hillary Clinton na eleição de novembro”, diz Boles, citando a favorita do Partido Democrata.

Apesar da vitória de Bernie Sanders na primária democrata em New Hampshire, Hillary é tida como a candidata com as melhores chances de vencer a disputa no partido. Numa conversa com o conselho editorial do jornal The New York Times, Trump disse que as importações da China deveriam ser taxadas em 45%, em resposta à suposta manipulação do iuane pelos chineses.

“Sou a favor do livre-comércio. Amo o livre-comércio. Mas tem de ser razoavelmente justo”, disse. Dias depois, Trump negou ter feito a declaração (a gravação da conversa está no site do jornal). Esbravejar contra os chineses é uma coisa. Imaginar um presidente americano, ainda por cima republicano, dando marcha a ré na globalização é outra bem diferente.

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