Donald Trump tenta sua última cartada: ser menos Trump

O candidato republicano à Presidência americana tem sido seu pior inimigo. Em queda nas pesquisas, tenta agora uma última cartada: ser menos Trump

Nova York — Depois de mais de um ano de ofensas, gafes e ultrajes, Donald Trump parece estar disposto a se comportar como um candidato à Presidência dos Estados Unidos. A eleição acontece daqui a dois meses e meio, e o republicano mostra sinais de que vai tentar mudar o tom de sua campanha — ou, pelo menos, diluir sua retórica inflamável.

No dia 18 de agosto, fez algo inédito: expressou penitência em público. “Às vezes, no calor do debate e falando sobre inúmeras questões, você não escolhe as palavras certas, ou diz algo errado. Fiz isso”, disse Trump. Depois de uma longa pausa, acrescentou: “Acreditem ou não, me arrependo”.

Dias mais tarde, surgiram relatos de que ele estaria disposto a apresentar um plano para lidar com a questão da imigração ilegal que vai além da construção de um muro na fronteira com o México e da proibição da entrada de muçulmanos no país. Em baixa nas pesquisas e isolado em seu partido, estaria Trump tentando deixar de ser Trump?

Essa mudança era esperada havia semanas. “Pivô” era a palavra mais comentada entre os republicanos depois da confirmação do empresário nova-iorquino nas primárias do partido no final de julho. Como uma modelo no fim da passarela, a expectativa era que Trump desse uma volta de 180 graus e se transformasse num candidato tradicional — ou algo próximo disso.

Mas ele manteve a mesma estratégia que derrotou os 16 adversários na disputa interna do partido: falar o que der na telha. Quando sua candidatura era novidade, o plano funcionou à perfeição. O espaço gratuito conquistado na mídia permitiu a Trump que não investisse um centavo em publicidade.

Mas, depois de se tornar o candidato do Partido Republicano, a confiança excessiva na figura do antipolítico pode ter sido um erro de cálculo. As críticas à família de um soldado americano muçulmano morto em combate e a sugestão de que defensores das armas “fizessem algo” a respeito de Hillary Clinton, só para mencionar os dois casos mais recentes, foram extremamente mal recebidas e tiveram impacto direto em sua posição nas pesquisas.

As declarações deram crédito ao alerta do presidente Barack Obama: Trump estaria “calamitosamente despreparado” para assumir a Presidência. Guinadas em campanhas podem dar certo ou não. No caso em questão, sobram dúvidas sobre se os recentes atos de contrição vão convencer.

Trump corre o risco de afugentar quem se encantou com seu discurso radical até há pouco tempo, sem conseguir conquistar novos apoios entre os hispânicos e outras minorias étnicas. De forma geral, os especialistas em marketing político dizem que os candidatos têm mais chance de voltar atrás em temas periféricos. Em algo central do discurso, a tarefa fica mais difícil.

E há ainda o perigo de isolamento no próprio partido de Trump. Além das eleições presidenciais, 34 cadeiras do Senado serão renovadas em 6 de novembro. O Partido Republicano, hoje maioria, teme que o contágio da candidatura de Trump represente um risco real de perda do controle da Casa.

“As pessoas estão nervosas com nossos candidatos porque Trump está numa espiral negativa e ninguém sabe onde fica o fundo do poço”, disse recentemente o senador republicano Lindsey Graham. A senadora Kelly Ayote, do estado de New Hampshire, é uma das que tentam a reeleição.

Em maio, ela declarou seu apoio a Trump, mas um porta-voz logo esclareceu que Kelly não estava “endossando” o nome do candidato. Ron Johnson, senador republicano de Wisconsin que também pode perder a vaga em novembro, disse que se concentraria “nas áreas em que há concordância com Trump”.

Eis a escolha que se apresenta a muitos republicanos: fechar com um candidato polarizador e cometer suicídio político agora ou então trair o partido e ficar marcado no futuro como um republicano desleal. Dentro do partido, entretanto, cresce a sensação de que abandonar o barco enquanto é tempo é a única saída.

Nos estados em que há eleições para o Senado, os republicanos estudam apresentar seus candidatos como uma forma de “contenção” a uma inevitável vitória de Hillary. Em vez de jogar para ganhar, a ideia é evitar uma goleada. A escolha do novo coordenador de campanha também abre espaço para dúvidas sobre a sinceridade de um eventual Trump “paz e amor”.

Stephen Bannon, diretor do site de extrema direita Breitbart News, ficou milionário trabalhando no mercado financeiro e, como seu novo chefe, é um não político. Bannon é um dos líderes informais de um movimento conhecido como alt-right (“direita alternativa”), uma denominação genérica de grupos que usam a internet para expressar ódio aos imigrantes, aos muçulmanos e ao multiculturalismo em geral.

Sob a direção de Bannon, o site Breitbart News tornou-se um núcleo de supremacistas brancos, desencantados com o “conservadorismo light” representado pelos políticos tradicionais. Trump escolheu um chefe de campanha associado à intolerância num país cada vez mais diverso etnicamente, no qual os votos da população negra e dos descendentes de imigrantes têm cada vez mais peso.

Em pesquisas recentes, menos de 2% dos negros americanos declararam apoio ao republicano, ante 90% que pretendem votar em sua adversária. Os eleitores negros foram essenciais na vitória de Obama em sete estados na eleição de 2012.

“Trump rejeita todo tipo de restrição às suas palavras e ações: a liderança do partido, a mídia, a correção política, os fatos, nada é capaz de detê-lo”, diz Jennifer Mercieca, professora de ciên­cia política na Universidade Texas A&M e especialista em análise do discurso dos políticos americanos. Ao que tudo indica, Trump ainda não está sozinho no cenário político — está mal-acompanhado.

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