Empresas e catadores se ajudam para seguir lei do lixo

Por lei, empresas de bens de consumo têm de mandar menos lixo para os aterros. Mas, sem fortalecer a ação dos catadores, elas não conseguirão.

São Paulo — Em janeiro, os 28 membros da cooperativa de reciclagem Rosa Virgínia, na cidade de Fortaleza, no Ceará, receberam uma meta: aumentar, até meados deste ano, em 1 tonelada o volume de material reciclável coletado por mês. Até então, a cooperativa coletava 27 toneladas.

Quem lançou aos catadores o desafio foi a fabricante de bebidas Ambev, com quem a cooperativa tem uma parceria há quatro anos. A fórmula para chegar lá, sugerida pela empresa, foi reforçar a coleta nas ruas da capital e instalar um ponto de entrega voluntário num colégio público da cidade. A meta foi superada em abril, quando foram coletadas 29 toneladas.

O aumento permitiu manter a renda mensal de cerca de 650 reais por cooperado, a qual, por causa da crise, vinha sofrendo com a queda no preço de venda do material reciclável. Na cidade mineira de Poços de Caldas, outra cooperativa, a Ação Reciclar, mudou em fevereiro a maneira como seus cooperados trabalhavam havia anos no galpão.

Antes, o material reciclável chegava das ruas e os catadores se reuniam para separá-los, de acordo com o tipo, em 19 sacos de até 700 litros. Devido à desorganização dos cooperados, alguns desses sacos demoravam quase um mês para ficar cheios.

Agora, cada um deles trabalha individualmente numa mesa, tem pelo menos dez sacos de 200 litros para encher e obedece à regra de entregar, no mínimo, um saco de material diariamente. Com isso, 3,5 toneladas de recicláveis passaram a ser separadas em 6 horas, em vez de 8 horas.

Quem aconselhou a Ação Reciclar a fazer a mudança foi a multinacional de produtos lácteos Danone, com quem ela se relaciona desde 2012. “Resistimos, mas a empresa propôs um mês de teste e nós topamos”, afirma Antonio Aparecido Almeida, presidente da Ação Reciclar. 

A exemplo da Ambev e da Danone, são muitas as empresas Brasil afora que, nos últimos anos, se aproximaram de cooperativas de catadores de material reciclável na tentativa de ajudá-las a se profissionalizar. O que está por trás dessa iniciativa não é o bom-mocismo.

Em novembro, como parte dos esforços de implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, em vigor desde 2010, centenas de empresas de bens de consumo e fabricantes de embalagens assinaram um acordo com o governo federal. Nele, comprometeram-se a reduzir 22% do volume de resíduo que chega aos aterros até 2018, na comparação com 2012.

Para isso, estima-se que todas essas companhias devam coletar 3 815 toneladas de embalagens por dia nos próximos dois anos, e não há outra maneira de atingir essa meta a não ser contando com a ajuda dos catadores. No acordo, inclusive, ficou definido que cabe às empresas fortalecer o trabalho dessas cooperativas. Não se trata, porém, de uma tarefa simples.

Calcula-se que existam hoje 800 000 catadores no país. Boa parte trabalha em condições precárias e tem baixa ou nenhuma escolaridade — segundo o Ipea, cerca de 20% deles são analfabetos. De todo esse contingente, apenas 10% estão vinculados a uma cooperativa, o que também não quer dizer muito.

Muitas delas não estão legalizadas nas prefeituras. Por isso, ajudá-las a sair da informalidade é o primeiro desafio com o qual as empresas deparam. A Ambev começou a se relacionar de maneira estruturada com as cooperativas em 2011. Hoje lida com 60 delas em dez estados do país. Desse universo, 45% contaram com a orientação da empresa em alguma etapa do processo de legalização.

Ou seja, elaborar e aprovar um estatuto em assembleia geral, registrá-lo em cartório, reunir documentos, conseguir um CNPJ e abrir uma conta num banco, entre outras providências. “Muitas vezes, só orientar não basta”, afirma Simone Veltri, gerente de relações socioambientais da Ambev. “É preciso pegar na mão: ir atrás da documentação e até intermediar a conversa com o gerente do banco.”

Dificuldades como essa, inerentes à rotina dos catadores, são tão inusitadas para as empresas de grande porte que, para ajudá-las nesses programas, tornou-se uma prática comum recorrer aos serviços de consultorias, ONGs ou entidades familiarizadas com esse universo. Quem auxilia a Ambev desde 2014 em seu trabalho com as cooperativas é a Giral, uma consultoria com sede em São Paulo.

A Vigor, fabricante de laticínios do grupo J&F, esteve sozinha nessa empreitada de 2010 a 2013, quando se limitou a mandar resíduos de suas fábricas para duas cooperativas.

Quando seus executivos decidiram que precisavam conhecer melhor o modus operandi dos catadores, pediram ajuda ao Compromisso Empresarial para Reciclagem, uma das entidades que coordenaram a assinatura do acordo com o governo federal e que milita há mais de duas décadas nessa seara.

“Precisávamos dar à nossa ação um cunho mais profissional e não saberíamos fazer isso sozinhos”, afirma Gilberto Xandó, presidente da Vigor. A presença desses interlocutores, acostumados à realidade das cooperativas, mostra-se ainda mais crucial para as empresas quando o assunto é melhorar sua gestão.

Eles costumam alertar as companhias de que o setor privado não tem superpoderes para fazer com que os catadores simplesmente adotem boas práticas de um dia para o outro. A Danone, que tem hoje um programa de profissionalização com 27 cooperativas em Minas Gerais, aprendeu isso com o Instituto Nenuca de Desenvolvimento Sustentável (Insea), ONG que presta ajuda humanitária aos catadores.

Veio dela a orientação de que a empresa deveria abolir termos financeiros do treinamento dado aos cooperados. Entre eles “capital de giro”. “Passamos a explicar que é melhor que eles recebam logo pela venda e negociem um prazo maior para pagar as despesas”, afirma Mauro Homem, gerente de sustentabilidade da companhia.

Também em conversas com os profissionais do Insea, a empresa instituiu no programa a figura do “mobilizador”, um cooperado que se destaca como líder e é treinado para repassar informações para os catadores na ausência dos técnicos da Danone e da ONG, que fazem visitas semanais às cooperativas. Desde o início do programa, em 2012, o número de cooperados saltou de 470 para 827.

A renda mensal média deles mais que dobrou e é hoje de 1 136 reais. Além disso, o volume de material coletado em 2015, cerca de 23 000 toneladas, equivale a 39% do volume total de embalagens que a Danone colocou no mercado nesse período. A priori, a empresa pretendia chegar a 28% de reaproveitamento.

Para ampliar o alcance dos catadores, as empresas também têm ajudado as cooperativas a vender diretamente para a indústria recicladora. É um jeito de evitar intermediários, que compram o material por um preço até 70% menor. A fabricante de bebidas Diageo faz isso.

Além de coletar garrafas em 151 bares de seis cidades do país e entregá-las a 13 cooperativas, a empresa ajuda na venda do material a fabricantes de vidro, como a americana Owens-Illinois.

Nos próximos 18 meses, segundo especialistas, para as empresas que assinaram o acordo com o governo, órgãos de fiscalização, como o Ministério Público, deverão ser tolerantes e apenas monitorar se elas estão, de fato, aumentando o reaproveitamento de suas embalagens. Passado esse período, multas poderão ser aplicadas.

Quem já está se mexendo tende a se sair melhor lá na frente — o processo de mobilizar as cooperativas, como se vê, leva tempo. “Hoje sabemos que a luta diária das cooperativas para garantir uma renda mínima aos cooperados é árdua”, diz Tatiana Correia, gerente de sustentabilidade da Diageo. A luta das empresas para bater a meta firmada com o governo não será mais fácil.

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