Fábricas fechadas compõem cenário de horror na indústria

Canteiros de obras abandonados, fábricas novinhas fechadas, máquinas desligadas e encostadas. O investimento parou e isso compromete o futuro do Brasil

São Paulo — O economista britânico John Maynard Keynes, o primeiro a elaborar uma teoria sobre o comportamento do investimento privado, escreveu que investir envolve tomar decisões em condições de incerteza. Daí a importância das expectativas: se elas forem boas, há estímulo para a troca de máquinas e para a expansão de operações que permitam vender mais no futuro.

Mas, se a perspectiva não for boa, nada disso ocorre e a economia para de crescer. Assim está o Brasil. Um número crescente de empresas vem reduzindo os investimentos devido à desconfiança na capacidade de o governo endireitar a economia depois dos erros que cometeu — e continua cometendo. As consequências da Operação Lava-Jato e o enrosco político pioram ainda mais a situação.

Os investimentos caem há dez trimestres consecutivos. No fim de 2015, representavam 17% do produto interno bruto, 5 pontos menos do que em meados de 2013. Neste ano, devem ficar em 940 bilhões de reais, o nível de sete anos atrás.

“São tantos fatos po­líticos novos a cada dia que fica difícil tomar uma decisão, ainda mais as que têm efeito de longo prazo, como a de investir”, diz Cláudio ­Frischtak, presidente da consultoria de negócios Inter.B. “Os empresários estão em modo de espera.” Os reflexos da queda nos investimentos estão por toda parte.

Fábricas estão fechando, há mais desemprego, a renda está caindo e os brasileiros estão consumindo menos. O ciclo recessivo está instaura­do — espera-se para este ano uma queda no PIB igual ou superior aos trágicos 3,8% negativos de 2015.

Em alguns setores, o problema é mais evidente, principalmente os que foram beneficiados por incentivos fiscais, crédito fácil e juros baixos nos últimos anos, como o automotivo e o de construção. As empresas, cada uma a seu modo, vão se adaptando à nova rea­lidade.

A montadora japonesa Honda, por exemplo, não tem previsão de quando iniciará a produção na unidade recém-construí­da em Itirapina, no interior paulista. A fábrica custou 1 bilhão de reais e tem ca­pacidade para montar 120.000 carros por ano. As obras ficaram prontas há um ano, e as linhas de pro­dução foram instaladas em seguida, mas, até agora, não entraram em operação.

Em nota, a Honda informa que a unidade iniciará a produção assim que o mercado der sinais de retomada. A Votorantim Cimentos mantém desligados há sete meses os equipamentos da fábrica de Ribeirão Grande, município também do interior paulista. Em março, ou­tra fábrica (a Votorantim tem 27), a de Cubatão, parou de produzir.

Em nota, a empresa comunicou que o objetivo da decisão é a adequação às condições de mercado e a manutenção da competitividade. As unidades passaram a operar apenas como centros de distribuição. Um dos aspectos mais perversos da pa­ralisia é uma verdadeira destruição de capital. Sem uso, máquinas e es­tru­tu­­ras se deterioraram.

Enrolada no esquema de corrupção da Lava-Jato e com uma dívida de meio trilhão de ­reais, a Petrobras cortou investimentos e está contro­lando melhor os pedidos de aumento em contratos antigos. O es­taleiro Eisa Petro-Um, de Niterói, no Rio de Janeiro, briga desde o ano passa­do com a Transpetro, braço de transporte da estatal, pelo valor a ser de­sem­bol­sado por três em­barcações.

A Trans­petro já pagou 800 milhões de reais e considera que de­ve mais 100 milhões, mas o Eisa Petro-Um exige 200 milhões. Enquanto a briga se arrasta, os navios estão encostados. Um de­les teve o casco perfura­do por uma pe­­dra durante o lançamento ao mar. O es­­taleiro tentou fazer um re­pa­ro subaquático, mas não funcionou.

Sem dinheiro para retirar o petroleiro do mar e consertá-lo de vez, a solução foi escalar sete funcionários para drenar dia­ria­mente a água que se infiltra na em­bar­ca­ção. Há o risco de es­tragar as ins­talações elétricas. Procurado, o Eisa não quis co­mentar. A Transpetro informa que res­cindiu o contrato em julho e estuda opções para resguardar seus direitos.

Quando as grandes empresas cortam investimentos, elas afetam toda uma cadeia de pequenas e médias, num efeito cascata. A Omel, fabricante de bombas e compressores de Guarulhos, na Grande São Paulo, é vítima de uma dessas interrupções de projeto.

A Petrobras suspendeu, em dezembro de 2014, a construção de uma usina de fertilizantes em Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, um projeto de 3,2 bilhões de reais e que estava mais de 80% concluído. A Galvão Engenharia, construtora responsável pela obra, havia encomendado 30 bombas da Omel, no valor de 12 milhões de reais. As máquinas ficaram prontas há um ano e meio.

Até agora, a Galvão não pagou nem retirou os equipamentos. A construtora alega que a inadimplência da Petrobras a impediu de honrar os compromissos, mas que os créditos serão honrados. Enquanto isso, as bombas estão embaladas em plástico e estocadas no meio da fábrica em Guarulhos. “É um capital parado, que não está se pagando”, afirma Corrado Vallo, sócio da Omel.

Desde 2013, o faturamento da empresa caiu 30%, para 35 milhões de reais. Vallo teve de demitir 60 funcionários. Das 30 máquinas que fazem parte da linha de produção da Omel, duas estão quebradas e não serão consertadas. Outras sete estão desligadas por falta de demanda. “Elas estão encostadas, envelhecendo”, diz Vallo.

Eis outro efeito danoso da crise: um sucateamento das estruturas do país. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos mostram que um terço do parque produtivo tem mais de 20 anos de idade e precisaria ser trocado quanto antes — algo que a crise só joga para a frente.

“O maior problema disso é que gera um atraso tecnológico”, diz o economista Aloísio Campelo, especialista em ciclos econômicos no Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas.

A italiana Metal Work, fornecedora de cilindros e válvulas com fábrica na cidade gaúcha de São Leopoldo, teve queda de 15% na receita em 2015, para 30 milhões de reais, e suspendeu investimentos de 3 milhões na atualização de suas máquinas. A mudança permitiria que todo o processo de montagem das peças fosse feito em um equipamento só, aumentando 20% a produtividade.

“Nesta crise, estamos ficando ainda mais defasados em termos de tecnologia em relação aos nossos pares em outros países”, diz Hernane Cauduro, diretor da Metal Work no Brasil. “E isso afeta nossa produtividade: a unidade na Alemanha produz três peças no mesmo tempo em que produzimos uma.” O Brasil perde competitividade por não investir o suficiente.

Desde 2000, o estoque de capital do país cresceu 5%, enquanto houve elevação de 37% no México e de 30% na China. O aumento do estoque de capital representa a construção de usinas de energia, redes de comunicação, estradas e portos e a compra de equipamentos novos para gerar mais produtividade na indústria e melhoria da oferta de serviços. Sem isso, o potencial de crescimento da economia cai.

Um levantamento do banco Credit Suisse, com base em dados do Banco Mundial sobre 76 países entre 1960 e 2014, mostra que os países que reforçam os investimentos por oito anos consecutivos podem crescer até 2,4 pontos percentuais acima da média mundial. O momento é decisivo para o horizonte brasileiro deixar de ser sombrio.

A consultoria Inter.B traçou dois cenários para os in­vestimentos no país, levando em con­ta a situação política. No mais otimista, a presidente Dilma Rousseff sai do governo até junho e o substituto adota uma agenda comprometida com o ajuste fiscal e reformas básicas. As mudanças fariam a taxa de investimento terminar o ano em 17% do PIB e voltar para 18% em 2018.

Já no cenário pessimista a presidente segue até o final do mandato e continuam os erros na gestão da economia. Sem a retomada da confiança dos investidores, a taxa de investimento poderá cair para 15% do PIB neste ano e para 10% em 2018.

“São números bem distantes dos 25% que o país precisa para voltar a crescer 4% ao ano”, diz Frischtak, da Inter.B. Sem voltar a investir logo, o Brasil está contratando a estagnação do futuro.

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