Gestores, vendam seus jatinhos, pedem investidores

É o que pedem alguns investidores de fundos de hedge, decepcionados com os retornos medíocres. Nem os ícones do mercado têm ganhado dinheiro. Acabou o encanto?

São Paulo – Os gestores de fundos de hedge foram responsáveis por investimentos memoráveis. O mítico George Soros, que geriu um dos fundos de hedge mais rentáveis do planeta por 36 anos até se aposentar em 2011, ganhou 1 bilhão de dólares num único dia, em setembro de 1992, ao apostar na desvalorização da libra esterlina.

Durante a crise de 2008, John Paulson, até então um desconhecido gestor de Nova York, ganhou o maior bônus já pago em Wall Street ao antecipar o estouro da bolha imobiliária: embolsou 4 bilhões de dólares, depois de ter gerado um ganho anual de quase 600% para seus investidores.

É claro que esse tipo de desempenho é raríssimo, mas a esperança de ser cotista de um gestor iluminado levou milhares de pequenos e grandes investidores, especialmente fundos de pensão, a aplicar em fundos de hedge na última década. O patrimônio somado dessas carteiras beirou 3 trilhões de dólares no início do ano passado.

Foi um recorde — e é bem possível que aquele tenha sido o pico do mercado. Hoje, a decepção com os fundos de hedge é generalizada. Os críticos — entre eles o bilionário americano Warren Buffett — dizem que os únicos que têm conseguido ganhar dinheiro com esses fundos são seus gestores, que cobram taxas altíssimas por um trabalho medíocre. 

Os resultados recentes dos fundos de hedge têm municiado os críticos. Faz sete anos que o rendimento médio dessas carteiras é inferior ao da bolsa americana. De 2009 até abril deste ano, enquanto o índice S&P 500 rendeu 128%, o índice de fundos de hedge da consultoria HFRI, especializada nesse mercado, rendeu 49% — um retorno pouco superior ao dos títulos americanos de renda fixa, que foi de 36% no período. Nem mesmo os ícones do mercado têm conseguido ganhar dinheiro.

O bilionário Carl Icahn, que montou seu fundo de hedge em 1985, e entregou um rendimento médio anual de 30% até 2014, perdeu 18% no ano passado. Foi seu pior desempenho desde 2008. O fundo de Icahn tinha grandes investimentos em ações de empresas de energia, e a queda nos preços das commodities prejudicou os resultados.

Paulson, que se tornou um dos principais gestores do mundo depois do acerto de 2008, perdeu mais de 2 bilhões de reais com uma série de apostas erradas, algumas delas em títulos de bancos da Grécia e de Porto Rico.

Talvez nenhum gestor tenha decepcionado tanto seus investidores quanto Bill Ackman, dono da Perkshire Square Capital. Em 2012, seu fundo apostou o equivalente a 1 bilhão de dólares na queda das ações da empresa de suplementos alimentares Herbalife. A tese de Ackman era que a companhia só crescia porque seu sistema de vendas era uma pirâmide (ou seja, vendedores vendiam para outros vendedores, e não para os consumidores).

Ele deu uma série de entrevistas sobre o assunto, o que motivou a abertura de um processo contra a Herbalife na Justiça americana. Meses depois, o processo foi encerrado por falta de provas. Para piorar, as ações subiram em vez de cair. Em 2015, ele voltou a se dar mal.

Comprou 9% do capital da companhia farmacêutica Valeant, que passou a ser investigada pelo Congresso americano por subir demais os preços de alguns medicamentos. Com isso, suas ações já caíram 70% desde outubro. Tudo somado, o fundo de Ackman perdeu 21% no ano passado.

Com medo de cair em armadilhas, investidores, especialmente os fundos de pensão, têm reduzido seus investimentos em fundos de hedge. O patrimônio desses fundos diminuiu 1,5% em 2016, a primeira queda desde a crise de 2008. O Calpers, maior fundo de pensão dos Estados Unidos, resgatou tudo o que tinha aplicado em fundos de hedge no fim de 2014 e declarou não pretender voltar a investir nesse segmento.

“Que os gestores vendam suas casas de campo e seus jatinhos e devolvam as taxas pagas por seus cotistas”, disse recentemente Letitia James, advogada do fundo de pensão dos funcionários de Nova York, que resgatou 1,5 bilhão de dólares de fundos de hedge. Para ela, os gestores não deveriam cobrar “taxas elevadas quando deixam de entregar os resultados prometidos”.

É possível que o desempenho ruim de 2015 seja fruto de uma atípica conjunção de problemas. A valorização do dólar prejudicou o rendimento das aplicações no exterior, e a bolsa americana, depois de valorizar 44% de 2012 a 2014, anda meio de lado há um ano e meio.

“Além disso, as baixas taxas de juro nos países desenvolvidos têm distorcido os preços de diversos ativos, o que dificulta a vida dos gestores, já que é impossível calcular seu verdadeiro valor”, diz Amin Rajan, presidente da consultoria britânica Create Research, especializada em fundos. Mas também é possível que existam fundos de hedge demais — são 8.430 hoje (quase 1.000 fecharam em 2015).

Quando a bolsa está indo bem e os países emergentes estão crescendo, todos conseguem encontrar oportunidades. Num ambiente de menos euforia, porém, falta espaço para todo mundo. Segundo os especialistas, os fundos acabaram se concentrando em poucas alternativas que pareciam minimamente interessantes e perderam juntos quando elas deram errado. Foi o caso da farmacêutica Valeant: além de Ackman, Paulson teve prejuízo com suas ações.

Altos e baixos fazem parte de qualquer investimento de risco. O mau humor com os fundos de hedge deverá diminuir se o rendimento do setor melhorar — ou se algum gestor conseguir um retorno memorável (o que pode acontecer do dia para a noite, dada a natureza desses fundos). Para tentar sobreviver até lá, muitos gestores começaram a reduzir suas taxas.

“Não acredito que os retornos vão melhorar no curto prazo a ponto de justificar quanto muitos desses gestores cobram”, diz John Rekenthaler, analista da empresa de informações financeiras Morningstar. Por enquanto, a queda foi tímida: a taxa de administração média caiu de 1,6%, em 2010, para 1,5% atualmente; e a de performance, de 19% para 17,7%. Dinheiro para os jatinhos não há de faltar.

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