Guru dos ricos alerta para aumento da desigualdade no mundo

Para Mohamed El-Erian, um dos nomes mais respeitados por banqueiros, a economia global pode atolar de vez se a desigualdade social continuar crescendo.

Nova York — O nova-iorquino filho de egípcios Mohamed El-Erian é um dos principais nomes do mundo das finanças. Entre 2007 e 2014, foi presidente da gestora de recursos americana Pimco, que tem cerca de 2 trilhões de dólares sob gestão. Mesmo depois de sair da Pimco, El-Erian manteve sua influência.

Hoje divide o tempo entre a presidência do conselho da Casa Branca, que orienta Barack Obama sobre assuntos eco­nômicos, e o cargo de estrategista do grupo alemão Allianz, dono da Pimco. No começo deste ano, El-Erian lançou o elogiado The Only Game in Town (“O único jogo possível”, numa tradução livre), livro sobre o papel dos bancos centrais e os desafios da economia mundial.

Após uma palestra na Universidade Colúmbia, El-Erian concedeu a seguinte entrevista a EXAME. Um relatório da Pimco em 2009 cunhou a expressão “novo normal” para descrever o período que estava por vir nos países ricos, de baixo crescimento e alto desemprego. 

Exame – O que é o “novo normal” hoje?

El-Erian – O conceito de um novo normal foi muito preciso ao descrever o período de recuperação econômica após o estouro da crise de 2008. Os Estados Unidos e a Europa não estavam diante de um mero choque cíclico, mas lidando com um gargalo estrutural. Por isso, a recuperação requereria uma mentalidade diferente. Logo depois de lançarmos esse conceito, muitas pessoas nos criticaram.

Hoje, no entanto, creio que virou consenso. O Fundo Monetário Internacional usa o termo “era de mediocridade” e o economista americano Larry Summers, ex-assessor de Obama para temas econômicos, fala em “estagnação secular”.

No fundo, porém, estamos falando do mesmo fenômeno. O curioso é que agora, depois de vencidas as resistências iniciais, tenho me perguntado se a ideia de um novo normal serve para descrever os próximos cinco anos.

Exame – De que forma os próximos cinco anos serão diferentes do passado recente?

El-Erian – Esse longo período de baixo crescimento que tivemos nas economias ricas criou tensões que vão mudar o curso da economia global. Falo de questões como volatilidade dos mercados financeiros, fortalecimento de forças políticas anti-establishment e aumento da desigualdade social.

Exame – Seu livro tem um tom pessimista sobre esse futuro mais desafiador. Por quê?

El-Erian – A resposta dos governos até aqui tem sido frustrante. No passado, tivemos governos dispostos a adotar políticas fiscais mais ativas, a promover reformas estruturais e a ter uma coor­denação global de política econômica. Também já tivemos épocas em que os países tinham maior aversão a acumular dívida. Atualmente, a política fiscal parece estar paralisada nas principais economias.

Nos Estados Unidos, o Congresso passou cinco anos sem conseguir aprovar um novo orçamento. Qualquer família sabe que o orçamento é o elemento mais básico de sua governança financeira, porém a maior economia do mundo passou anos sem conseguir renovar o seu.

Além disso, o mundo está preguiçoso para fazer reformas estruturais, principalmente nas áreas de educação, infraestrutura e no mercado de trabalho. Há diversas regiões com endi­vidamento excessivo, igualzinho à América Latina da década de 80. O mundo está muito diferente.

Exame – Esse vácuo na ação dos governos é a explicação para o papel cada vez maior dos bancos centrais?

El-Erian – Sem dúvida. Os bancos centrais tiveram de agir diante da disfunção política, diante de congressos e parlamentos cada vez mais polarizados. Os bancos centrais são como um médico que passa ao lado de um homem que acabou de sofrer um grave acidente. Nessa situação, é óbvio que o médico não vai contar com os equipamentos necessários para resolver o problema da vítima.

Mas o médico intervém para tentar fazer o melhor possível — afinal, ele tem o conhecimento técnico. Com a crise econômica de 2008, os bancos centrais dos países ricos sentiram uma obrigação moral de intervir porque outros formuladores de políticas públicas estavam paralisados. Nesses países, os bancos centrais são instituições autônomas. Por isso, conseguiram ocupar esse vazio.

O que ninguém imaginou é que, tantos anos depois, os bancos centrais continuariam desempenhando esse papel decisivo, com medidas pouco convencionais, como estabelecer juros negativos no Japão e na Europa.

Exame – Por que o senhor tem dito que essa fase de grande atuação dos bancos centrais vai acabar em até três anos?

El-Erian – O mundo tem tantas contradições atual­mente que a situação não permanecerá igual por mais de três anos. Os bancos centrais estão ficando cada vez mais poderosos, mas também cada vez menos eficazes. Eles podem controlar os mercados e reprimir a volatilidade financeira, mas está cada dia mais difícil produzir crescimento econômico. Até as economias mais saudáveis estão sendo contaminadas.

O senhor espera um novo colapso, algo comparável à quebra do banco Lehman Brothers, que desencadeou a crise da década passada?
O que aconteceu em 2008 foi diferente. O colapso do Lehman Brothers foi como um infarto para o mercado financeiro. Os bancos centrais não deixarão que algo parecido aconteça de novo. O sistema hoje está mais protegido do que nunca.

Por isso, não prevejo uma grande crise daquele tamanho. Não acho que será uma virada brusca — embora essa possibilidade sempre exista. Quando o atual modelo se esgotar, a economia mundial vai deparar com uma encruzilhada. Em um dos caminhos a desigualdade se acentua mais, e a tensão na economia e na política se agrava, com a recessão se espalhando pelo mundo inteiro.

A alternativa é encontrar uma maneira de crescer de forma inclusiva. Se formos por esse caminho, os solavancos serão mais esporádicos. O mundo vai convergir para um lado ou para o outro da encruzilhada. Mas uma coisa é certa: os resultados dessa decisão serão sentidos por um longo tempo.

Exame – Por que o senhor aponta a desigualdade como questão-chave?

El-Erian – Um pouco de desigualdade social tem benefícios econômicos claros porque faz com que as pessoas se sintam estimuladas a estudar e a trabalhar mais e melhor. Mas uma desigualdade excessiva tem efeitos nefastos para a economia. Os ricos, que nessa situação acumulam a maior parte da renda, são poucos e têm um limite para o que conseguem gastar.

Isso cria um problema de demanda agregada. No longo prazo, há outras questões. A ideia de igualdade de oportunidades se esvai. Quem nasce pobre não consegue mudar de classe social, e a desigualdade acaba sendo transmitida de geração para geração — outro fator que afeta negativamente o potencial de crescimento econômico.

Essa não é uma questão estritamente social. Trata-se de um problema econômico. De certa forma, a atual dinâmica da corrida presidencial americana exemplifica isso. Tanto Donald Trump, à direita, quanto Bernie Sanders, à esquerda, reconhecem que a desigualdade social foi longe demais.

Exame – O senhor acha que o mundo seguirá o caminho de Trump, de Sanders ou há outra opção?

El-Erian – Não dá para saber. Há questões muito controversas e outras mais consen­suais. Uma das mais controversas é a tributária. Políticos como Sanders propõem elevar impostos de grandes fortunas e oferecer mais benefícios aos mais pobres. A turma de Trump prefere baixar impostos sob o argumento de que isso estimulará a atividade econômica, gerará mais empregos e beneficiará a todos.

O que há de menos controverso se refere a fechar brechas no sistema tributário que permitem aos mais ricos evadir impostos. A ideo­logia e o peso dos políticos com discursos anti-establishment podem variar de país para país, mas eles estão presentes nos Estados Unidos e em ­várias partes da Europa.

Exame – Qual é sua avaliação sobre a política econômica no Brasil?

El-Erian – No Brasil, o problema é que o único instrumento hoje para atacar a estagflação — conjunção de estagnação econômica com inflação alta — é o aumento dos juros. Quanto mais o Banco Central aumenta os juros, mais enfraquece o crescimento. Ou seja, sozinho o Banco Central não consegue resolver o problema. Pode até piorá-lo.

O Brasil não está usando outras ferramentas fundamentais para estimular o crescimento do PIB e segurar a inflação. Houve tentativas de avançar com reformas estruturais por parte do ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, mas acabaram não funcionando. Isso acaba sobrecarregando o Banco Central, que, por sua vez, não consegue entregar resultados satisfatórios.

Nesse ponto, há semelhanças entre o caso brasileiro e o internacional. A ausência de reformas também está prejudicando a eficácia dos bancos centrais de Estados Unidos, zona do euro, Japão e China.

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