Mauricio Macri não tem tempo para festa na Argentina

Mauricio Macri, presidente eleito argentino, enfrenta a herança maldita dos Kirchner e reforça a nova tendência de alternância de poder nos emergentes

São Paulo — Se Mauricio Macri, presidente eleito da Argentina que toma posse no dia 10 de dezembro, tinha alguma ilusão sobre a via­bili­dade de uma transição civili­zada de poder, esse sonho logo se esvaiu.

Dois dias após o pleito, a atual presidente Cristina Kirchner chamou Macri, um político de centro-direita filho de uma das famílias mais ricas do país, à residência oficial de Olivos, mas não quis posar para fotos ao lado do vencedor. Na saída de Macri, a notícia era que não haveria um período de transição, com conversas entre os atuais titulares dos ministérios e os que tomarão posse no início de dezembro.

A repercussão nos dias seguintes foi tão ruim que Cristina voltou atrás, mas a primeira das três semanas de transição já tinha sido perdida. O episódio é importante porque resume dois pontos marcantes da realidade argentina. O primeiro é o total desprezo de Cristina pelas instituições.

Durante os 12 anos em que ela e Néstor Kirchner, seu falecido marido, presidiram o país, os tribunais sofreram enorme pressão, a imprensa foi duramente perseguida e órgãos estatais passaram a atuar abertamente com viés político — para ficar em um exemplo, as estimativas oficiais de inflação há muito perderam a credibilidade. 

A falta de civilidade de Cristina com o presidente eleito também revela que Macri não terá vida fácil. Ele ganhou com uma margem pequena — menos de 3% dos votos —, e a ala kirchnerista do peronismo vai continuar forte no Congresso, principalmente no Senado.

Politicamente, a situação só não é pior porque os kirchneristas perderam o governo da província de Buenos Aires, a mais importante do país, e estão sem poder para distribuir cargos. As condições que Macri terá para governar estão sendo acompanhadas de perto pelos argentinos e também por setores da oposição em vários países da América Latina.

Numa região dominada por partidos de centro-esquerda, Macri representa a mudança. Seu sucesso ou fracasso alimentará o debate além das fronteiras da Argentina. Macri foi eleito com base em duas promessas. Resgatar a democracia e as instituições republicanas e promover o desenvolvimento.

A primeira de­pende de o novo governo não tratar a Presidência como se fosse uma propriedade particular — algo que parece factível. A segunda vai ser uma enorme pedreira.

“A situação é como se Aécio Neves tivesse ganhado a eleição no Brasil, com a missão de fazer um grande ajuste, mas contando com uma base de sustentação limitada”, diz Alberto Ramos, diretor para a América Latina do banco americano Goldman Sachs.

Em um recente artigo publicado no jornal argentino Clarín, Marcos Novaro, respeitado professor de ciência política na Universidade de Buenos Aires, ressaltou que “pluralismo e escassez não são coisas fáceis de conciliar”. Na comparação com a Argentina que será entregue por Cristina, até a situação brasileira fica parecendo boa.

A inflação deverá fechar o ano em 28%, há déficit fiscal há quatro anos, em dois dos últimos três anos o PIB foi negativo e a previsão para este ano é que cresça mero 0,5%. O governo mantém sob controle a venda de dólares para importadores, numa tentativa de segurar a cotação do peso e proteger as minguadas reservas cambiais.

“Esse tipo de política só tem paralelo com países que passaram por guerras, como Iraque e Afeganistão, e, claro, a Venezuela”, diz o argentino Fernando Alvarez, professor de economia na Universidade de Chicago. As reservas internacionais, de 52 bilhões de dólares em 2010, somam agora apenas 25,8 bilhões de dólares (no Brasil são de 370 bilhões).

No final de novembro, a companhia aérea American Airlines comunicou que deixará de vender passagens porque não consegue transferir divisas para a matriz. Como os exportadores de soja, principal produto da pauta argentina, consideram que o dólar está sobrevalorizado, estão estocando o produto à espera de uma valorização da moeda.

O estoque de soja da Argentina é de 31,1 milhões de toneladas, quantidade 70% maior do que a do Brasil, que produz um terço a mais. Diante desse quadro, a expectativa é que o novo governo comece logo a desmontar as bombas deixadas por Cristina e mude a política cambial, fazendo o peso perder valor.

A grande dúvida é para quanto vai a cotação da moeda — atualmente, 1 dólar vale 9,50 pesos no câmbio oficial e 15 no paralelo, mas Macri já anunciou que pretende acabar com o câmbio negro. “É difícil administrar uma desvalorização forte sem ter impactos inflacionários e novas ondas de depreciação”, diz Juan Barboza, economista do banco Itaú em Buenos Aires.

Os principais bancos estimam que 12 pesos por dólar seriam suficientes para fazer os produtores de soja diminuir seus estoques, o que poderia render ao país entre 5 bilhões e 8 bilhões de dólares em divisas. Alfonso Prat-Gay, futuro ministro da Fazenda, é ex-presidente do Banco Central com passagem pelo banco JP Morgan.

O economista Federico Sturzenegger, apontado como futuro presidente do BC, também é um liberal. Uma vez empossados, é preciso ver se vão adiante com o plano de adotar medidas impopulares já na largada ou se adotarão uma estratégia em conta-gotas.

Entre os primeiros problemas que terão de resolver está o dos fundos abutres. Para poder voltar a captar ­dinheiro sem problemas, o governo terá de pagar o valor estabelecido pela ­Justiça americana — 8 bilhões de dólares — aos detentores de títulos da dívida que não aceitaram as reestruturações feitas em 2005 e 2010.

O reflexo da economia nas urnas

A alternância de poder na Argentina é parte de uma tendência mundial. Depois de anos do que ficou conhecido como “superciclo político”, período em que um mesmo partido ou coa­lizão ficou bem mais tempo do que o normal no poder, as oposições estão começando a ganhar mais eleições nos países emergentes.

Entre 2002 e 2014, a alta dos preços das commodities impulsionou o crescimento econômico, o que facilitou as reeleições mesmo quando a política macroeconômica adotada não era a mais acertada. No período de vacas gordas, os excessos populistas foram mascarados. Em 2002, os partidos no poder governavam, na média, há quatro anos.

No ano passado, esse número tinha pulado para 8,5 anos. Com a queda dos preços das commodities e a desaceleração econômica, isso começa a mudar. De acordo com um levantamento da consultoria Eurasia Group, em 2014 a oposição ganhou apenas cinco das 19 eleições em países emergentes. Neste ano, dos 13 pleitos, os oposicionistas levaram sete.

“Na América Latina é clara a frustração da nova classe média, que tinha expectativas altas e está tendo dificuldades com o quadro econômico ruim”, diz o cientista político Christopher Garman, diretor de países emergentes da Eurasia Group.

Políticos de partidos que conseguiram ganhar mais um mandato no ano passado estão sofrendo com índices de popularidade muito baixos. O leitor, por um acaso, lembrou de alguém conhecido?

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