Mercado financeiro segue à beira de um ataque de nervos

A volatilidade de algumas ações é a maior desde 2008 e as negociações de títulos públicos foram suspensas oito vezes. Como o investidor pode sobreviver ao caos?

São Paulo — Cisne Negro é como os operadores de mercado chamam os eventos imprevistos que, quando acontecem, têm um grande impacto no mundo — e, claro, nos investimentos. Entram nessa categoria tragédias como os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York e os tsunamis que devastaram a Ásia e o Japão — e também as grandes fraudes corporativas e as quedas de governos.

É comum passar anos sem nenhum cisne negro ser visto no mercado. No Brasil de hoje, porém, tem havido a ameaça diária de um evento do gênero, o que tornou caótica a vida de quem tem dinheiro aplicado em quase qualquer coisa cujo valor oscile.

Os desdobramentos da Operação Lava-Jato, a reação do Planalto e os protestos contra e pró-governo que tomaram as principais capitais do país ditaram o rumo da bolsa, do câmbio e até dos juros pagos pelos títulos públicos em março. Como é dificílimo prever o que vem por aí, os investidores estão atordoados. 

A volatilidade de algumas das principais ações da Bovespa é a maior desde a crise de 2008. As ações do Banco do Brasil chegaram a subir quase 60% em menos de dez dias, de 3 a 11 de março. Caíram 23% nos dois pregões seguintes, subiram mais 18% e voltaram a oscilar.

Movimentos parecidos aconteceram com os papéis da Petrobras, das siderúrgicas CSN, Gerdau e Usiminas e da companhia de energia elétrica Cemig ao longo do mês de março. A oscilação de preços das ações da Usiminas neste mês foi a mais acentuada desde 1994, de acordo com um levantamento da empresa de informações financeiras Economatica.

Ainda em março, as negociações de títulos públicos foram suspensas oito vezes por causa da intensa volatilidade dos juros nos mercados futuros. Os altos e baixos provocaram uma onda de perdas entre os fundos de ações e multimercados.

Grandes gestoras foram pegas no contrapé. Uma pesquisa realizada pelo Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas mostra que 20 fundos perderam de 8,5% a 12% somente de 29 de fevereiro a 10 de março.

Foi o caso dos fundos multimercados Pátria Multimanager Crédito Privado (da gestora Pátria), Gávea Macro Dólar (da gestora Gávea), Ciclotron (do banco BBM), CSHG Egerton (do banco Credit Suisse), BTG Pactual Inter Equities (do banco BTG Pactual), Whistler (da gestora Ventor) e do fundo de ações Indie Logos (da gestora Indie Capital).

Em alguns casos, os prejuízos foram provocados pela valorização do real, que prejudicou o rendimento dos fundos que aplicam o patrimônio no exterior — a cotação do dólar chegou a 3,58 ­reais em março, o menor patamar desde agosto do ano passado. Mas uma reviravolta de expectativas na bolsa explica outra parcela das perdas.

Até fevereiro, o pessimismo imperava entre os investidores e, assim, as apostas na queda da bolsa eram frequentes. Segundo um levantamento da corretora Guide, o volume de aluguel de ações do Banco do Brasil e da Usiminas aumentou, respectivamente, 48% e 93% desde o início de 2015.

Tipicamente, operações de aluguel são feitas por quem acha que os preços vão cair: o investidor aluga as ações, vende-as na bolsa e faz a recompra quando a cotação baixar, ganhando a diferença.

Se o preço sobe, porém, ele perde dinheiro, e foi isso que aconteceu em março: encorajados pela perspectiva de uma troca de governo, investidores, especialmente estrangeiros, saíram comprando ações de empresas estatais, varejistas e companhias endividadas. Além disso, a recuperação do preço das commodities beneficiou os papéis de companhias do setor.

Os papéis da Usiminas subiram 117% só em março; e os da CSN, 57%. “A situação das produtoras de commodities continua complicada. Mas desfizemos nossa aposta na queda dessas ações porque o mercado está volátil demais”, diz Luiz Guerra, sócio da gestora Indie.

A incerteza é tão grande que, em vez de aproveitar a alta da bolsa para vender ações e embolsar algum lucro, os gestores de fundos decidiram comprar mais — e os analistas de corretoras que, até um mês atrás, diziam que era melhor ficar fora da bolsa brasileira passaram a indicar o investimento na Bovespa. Para o Bank of America Merrill Lynch, as estimativas de lucro das empresas estão pessimistas demais.

Num relatório recente, no qual enfatiza o fato de o Ibovespa estar no mesmo patamar de 2004 em termos reais, o banco afirma que o índice deve fechar o ano em 62 000 pontos (hoje está em torno de 50 000 pontos).

O banco Credit Suisse passou a recomendar a compra de ações brasileiras. Na opinião da instituição, o preço da bolsa aqui “finalmente” começou a ficar interessante. Os investidores estrangeiros aplicaram 6,5 bilhões de reais na Bovespa em março, até o dia 18.

“O preço das ações brasileiras, especialmente em dólar, está perto das mínimas históricas”, diz Mark Mobius, presidente da divisão de mercados emergentes da gestora americana Franklin Templeton. “Além disso, o país está demonstrando que sua democracia funciona, e isso está deixando os investidores mais confortáveis para aplicar.”

Kit impeachment

Quem resolveu investir mais na bolsa brasileira está comprando, principalmente, os papéis do chamado “kit impeachment”, que inclui estatais, varejistas, empresas endividadas, bancos e a própria BM&F Bovespa. São as companhias que mais têm a ganhar num desejado cenário de melhora da economia — e também as que estavam mais depreciadas na bolsa por causa da crise.

Quem antecipou esse movimento está comemorando. É o caso da gestora GTI, cujo fundo de ações rendeu 40% apenas em março por ter virado o ano investindo nas ações do Banco do Brasil e das varejistas Via Varejo e Guararapes, dona da Riachuelo. Os papéis continuam na carteira. “Se eu achar que o Brasil vai se tornar a Venezuela, não poderei investir em nada.

Mas acredito que, ainda que leve alguns anos, a economia do país vai voltar a crescer. O preço de alguns papéis está ótimo para quem tem um horizonte de médio e longo prazo”, afirma André Gordon, sócio da GTI. O problema é que as ações do kit im­peach­ment estão entre as mais voláteis da bolsa e podem desvalo­rizar bastante se a possibilidade de troca de governo diminuir.

“Sabemos dos riscos, mas o investidor nos paga para tomar uma posição, e achamos que é o momento de sermos um pouco mais agressivos”, diz Walter Maciel, pre­sidente da gestora AZ Quest, que reduziu o volume em caixa dos fundos e recentemente comprou mais ações do Banco do Brasil e da produtora de açúcar e etanol Cosan.

Por enquanto, o mercado externo tem ajudado os otimistas. A alta do preço das commodities e a manutenção dos juros nos Estados Unidos beneficiaram a maioria dos mercados emer­gentes em março. A bolsa da África do Sul valorizou 17%; a da China, 10%; a da Índia, 6% (o Ibovespa subiu 19%).

A continuidade desse movimento, porém, é incerta, em razão das dúvidas sobre o futuro da economia chinesa, que dita o preço de boa parte das commodities. Solavancos lá podem provocar uma nova onda de queda das bolsas.

“A reação dos investidores a qualquer mudança de tendência tem sido muito mais brusca do que no passado por causa dos traumas da crise de 2008”, afirma Arthur Mizne, sócio da gestora M Square. O ano do cisne negro acabou de começar.

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