No meio do pesadelo, a Vale constrói um sonho

Enquanto corta custos e dividendos, a Vale ergue o maior projeto de sua história no meio da Amazônia, entre chuvas torrenciais e invasões de sem-terra

Canaã dos Carajás (PA) — O trajeto até o topo da montanha leva 15 minutos de caminhonete, primeiro por estradas asfaltadas, depois no puro barro, e exige habilidade do motorista para desviar de escavadeiras e caminhões cujos pneus têm a altura de uma casa.

O calor é infernal, mas boa parte dos 10 000 funcionários trabalha com pescoço e rosto cobertos para se proteger do minério de ferro, que em poucos minutos deixa tudo à sua volta coberto de um vermelho-escuro, quase roxo. Lá em cima, a 450 metros do chão, os paredões de minério começam a aparecer. Embaixo de nossos pés, estão cerca de 4,2 bilhões de toneladas do minério mais puro do planeta.

Estamos no coração daquilo que, dentro de um ano, será a mina de S11D, a maior já construída pela mineradora Vale em seus 70 anos de história. Cerca de 100 quilômetros ao norte dali, do outro lado da Floresta Nacional de Carajás, está o complexo de Carajás, o maior do mundo, de onde todos os anos a Vale extrai 120 milhões de toneladas de minério de três minas.

O plano é que S11D produza 90 milhões de toneladas por ano — e mude a história da empresa. “A Vale estava com seu futuro ameaçado. A produção estava estagnada desde 2006 e as minas perdiam qualidade. S11D é nosso rejuvenescimento”, diz Murilo Ferreira, presidente da Vale. A região de Carajás foi descoberta por acaso pelo geólogo Breno dos Santos nos anos 60.

Ele sobrevoava a Amazônia à procura de manganês quando tropeçou na maior reserva de minério do pla­neta. Fez a primeira extração com um martelinho que carregava na bagagem. Depois, a Vale levou 50 anos entre estudos e melhorias para chegar à estrutura atual de Carajás. Agora a meta é que S11D chegue à sua plena capacidade em apenas dois anos. Para isso, a Vale está investindo 16 bilhões de dólares.

As obras incluem a duplicação de 570 quilômetros da Estrada de Ferro Carajás, a construção de uma nova ferrovia de 100 quilômetros para ligar a mina à ferrovia já pronta, a montagem de uma usina de processamento, a construção de um novo terminal no porto de São Luís — e, claro, a escavação da mina.

Com S11D, a Vale vai aumentar de 330 milhões para 420 milhões de toneladas sua produção anual de minério e ampliar a vantagem sobre as principais concorrentes — as australianas BHP Billiton e Rio Tinto produzem cerca de 230 milhões de toneladas por ano. Vai também reduzir os custos de produção.

Em Carajás, sua mina mais eficiente, a Vale gasta cerca de 12 dólares para extrair e embarcar cada tonelada de minério. Em S11D, a conta cai para menos de 10 dólares — alguns analistas calculam que o custo cairá para 7 dólares graças à automação dos processos. Só há um problema — a mina vai entrar em operação no pior momento possível para a Vale.

O projeto S11D foi desenhado num momento em que a demanda por minério parecia infinita. As obras começaram em 2004, no meio de um “superciclo” das commodities que quintuplicou o preço do minério de ferro para mais de 150 dólares por tonelada. Começar S11D fazia todo o sentido. Mas a China reduziu o ritmo e, nos últimos três anos, o preço do minério de ferro caiu mais de 50%.

Como 74% da receita da Vale depende desse produto, seu valor de mercado caiu junto. Nos últimos 12 meses, as ações caíram 30% — e estão, hoje, em seu patamar mais baixo desde 2006. Para conter uma dívida que chegou a 26 bilhões de dólares, a empresa anunciou uma redução de custos de 1,6 bilhão de dólares no primeiro semestre e vai cortar 64% dos dividendos a ser pagos a seus acionistas em 2015.

“S11D será, de longe, a mina mais eficiente do mundo”, diz Felipe Reis, analista de mineração do banco Santander. “Mas seu sucesso, assim como o da própria Vale, está 90% nas mãos da China.” Com S11D, portanto, a Vale está chegando com cerveja gelada a uma festa que já acabou.

No coração da floresta

S11D é uma das obras mais complexas da história da mineração e a segunda maior obra de infraestrutura em andamento no Brasil — atrás apenas da hidrelétrica de Belo Monte. Construir uma obra desse porte em plena Amazônia é uma tarefa inglória. Todos os equipamentos e as peças precisaram ser transportados do Sudeste até o Pará em 12 000 carretas.

O bioma sensível dificulta a obtenção de licenças ambientais. Para evitar maiores atrasos, a Vale decidiu montar as usinas em blocos num terreno a 45 quilômetros de S11D. Depois, quando a licença de instalação foi emitida, em 2013, cada um dos 109 blocos — alguns deles com 600 toneladas e até 50 metros de altura — começou a ser transportado de carreta até a área da mina.

A estrada, que mais tarde será cedida ao governo do estado, foi reformada com esse fim, incluindo a largura do acostamento, a altura da rede elétrica, a sustentação das pontes. Enquanto essas peças gigantes de ferro estão sendo encaixadas em seu local definitivo, os 65 quilômetros de esteiras que vão levar o minério para ser processado fora da floresta estão em construção.

É uma medida para reduzir o impacto ambiental do projeto. Outra é quebrar e peneirar o minério sem precisar de água, o que vai evitar o uso dos rios da região e descartará a necessidade de construir um lago para acumular a água suja que sobra desse tipo de processo.

Os 4.200 trabalhadores que estão construindo a nova estrada de ferro precisam terminar a terraplenagem dos 100 quilômetros antes de novembro, quando começa a temporada de chuvas. É uma etapa que demanda rapidez e precisão — por causa do peso dos vagões de minério, a ferrovia não poderá ter mais de 0,5% de inclinação depois de concluída sob o risco de as locomotivas não conseguirem subir.

As chuvas também complicam a vida dos engenheiros, que precisam calcular a altura das pontes com base na cheia de rios que quase secam no verão e que depois sobem mais de 10 metros todos os anos. Os rios e as chuvas são ainda um empecilho para os equipamentos chegarem até os pontos mais avançados da obra.

Barras de ferro de 75 toneladas precisam passar por pontes improvisadas de madeira que parecem frágeis até para carros de passeio. Uma parte realmente arriscada, mas já resolvida, são os quatro túneis do trajeto — os primeiros já construídos pela Vale.

Na entrada de cada um deles, foi colocada uma imagem de Santa Bárbara, a protetora dos tuneleiros — porque, como eles gostam de dizer, todos os cuidados não bastam para quem vai se meter debaixo da terra com um punhado de explosivos. No meio de tudo isso, estão os sem-terra. A região já viveu intensas disputas entre fazendeiros e trabalhadores sem-terra, como o massacre de Eldorado dos Carajás em 1996.

Para construir a ferrovia, a Vale comprou 20 fazendas localizadas no trajeto dos trilhos. Elas já foram invadidas 20 vezes. Em alguns trechos, como na altura da Fazenda Bocaina, os manifestantes armam-se de paus e foices e escolhem quem pode ou não passar. “Ainda não tivemos conflitos, mas dá medo”, diz um funcionário. A mina de S11D será a primeira da Vale a não utilizar caminhões para o trans­porte de minério.

Eles serão substituídos por um conjunto de máquinas que ficarão instaladas ao lado das escavadeiras. Dali, esteiras que chegam a 9 quilômetros levarão o minério para ser processado nas usinas. Eliminar os caminhões traz uma vantagem financeira. Cada caminhão custa cerca de 5  milhões de dólares, o que de largada já elevaria o custo do projeto em quase 500 milhões de dólares.

Em operação, eles consomem até 150 litros de diesel por hora e demandam o trabalho de quatro motoristas e de uma equipe de controle de tráfego e de abertura de estradas. “Vamos operar com 2 600 funcionários, menos da metade da equipe de Carajás”, afirma Jamil Sebe, diretor da Vale responsável pelo pro­jeto de S11D. A parte final da obra está a quase 1 000 quilômetros de Canaã dos Carajás.

No porto de São Luís, de onde o minério partirá para a China, um novo terminal está sendo construí­do para receber supercargueiros capazes de transportar até 400 000 toneladas — os maiores do mundo.

A manutenção dos vagões será feita num novo equipamento que vai derrubar o tempo de parada dos atuais dois dias para 6 horas. Com todos esses detalhes somados, a mina vai cortar de 1 a 2 dólares os custos por tonelada. Para quem produz mais de 300 milhões de toneladas por ano, é um dinheirão.

A corrida do minério

Mas há outro motivo que explica a obsessão da Vale pelos centavos. Como estão muito mais próximas dos portos chineses, BHP e Rio Tinto, que extraem minério da Austrália, gastam cerca de 10 dólares de frete por tonelada, ante 20 da Vale. E, de uns anos para cá, investiram em expansão para ganhar também em escala.

Hoje, as operações de minério de BHP e Rio Tinto são duas vezes maiores do que uma década atrás. Resultado: a Vale, que até 2007 era maior (em minério de ferro) do que as duas concorrentes somadas, hoje é 30% menor. A fatia da brasileira nas importações totais da China caiu de 22%, em 2012, para 18%. As concorrentes, por sua vez, passaram de 59% para 64%.

Agora, além de S11D, a Vale começou, no ano passado, a explorar uma nova área em Carajás, com 30 milhões de toneladas de capacidade, a N4WS. Na ponta do lápis, segundo o banco Goldman Sachs, BHP e Rio Tinto ganham dinheiro com o minério acima dos 34 dólares a tonelada. A linha de corte da Vale é de 39 — e pode chegar a 31 nós próximos anos, segundo o banco Itaú BBA.

Com o minério na casa dos 50, todas continuam ganhando dinheiro, mas não como há três anos. Na Vale, o faturamento caiu 13% em 2014; e o lucro operacional, 36%. Na BHP, o lucro caiu 86% no último ano, o que derrubou em 40% a remuneração de seu presidente, Andrew Mackenzie. Pode parecer loucura investir em expansão enquanto o preço e a demanda por minério estão em queda.

Mas presidentes de grandes mineradoras não pensam em anos, e sim em décadas. S11D, por exemplo, começou a sair do papel em 2004. E, dentro do jogo de forças da mineração global, a expansão faz cada vez mais sentido. As três maiores mineradoras investem para tirar do jogo as concorrentes menos eficientes.

A anglo-suíça Glencore perdeu 80% do valor de mercado por causa de dívidas que muitos investidores consideram impagáveis. A Fortescue, terceira maior da Austrália, vai começar a perder dinheiro se o minério ficar abaixo de 53 dólares, segundo o Goldman Sachs. O banco UBS calcula que as mineradoras médias já tenham deixado de vender 150 milhões de toneladas anuais à China.

As mineradoras chinesas, por sua vez, já cortaram a produção em 80 milhões de toneladas. No Brasil, mineradoras pequenas da região de Serra Azul, em Minas Gerais, também estão com o pires na mão por não conseguir competir com o novo padrão de custos do mercado.

Juntas, Vale, BHP e Rio Tinto nunca abocanharam um pedaço tão grande das importações chinesas quanto agora — chegam a ter 82% do mercado, ante 40% no auge da euforia com o crescimento chinês, quando empresas de mais de 60 países vendiam minério à China. “Os ciclos sempre se repetem. Quando o mercado estava favorável, todo mundo ganhava dinheiro.

Quando as coisas apertam, sobram os eficientes”, afirma Murilo Ferreira. O cálculo das três maiores mineradoras é que ainda há muito mercado a ser ganho. Apenas na China, as mineradoras locais produzem mais de 1  bilhão de toneladas de minério por ano, em geral com um produto com menos de 50% de pureza.

BHP e Rio Tinto conseguem mais de 60% de pureza em seu minério e a Vale obtém, em Carajás e em S11D, mais de 66%. “O mercado vai se concentrar cada vez mais. E a Vale está se preparando para esse novo cenário”, diz Joel Rennó, ex-presidente da Vale. Reservas não devem faltar.

Atualmente, a empresa opera as cinco minas com mais reservas do planeta (uma delas, a de Samarco, em Minas Gerais, em sociedade com a BHP). E também tem nas mãos alguns dos principais campos ainda não explorados.

A exceção é a mina de Simandou, na Guiné, que tem estimados 5,5 bilhões de toneladas de minério e cujos direitos de exploração pertenciam à Vale, mas foram retomados pelo governo local em 2014. As joias da coroa estão no sudeste do Pará. Além da mina S11D, a região de Serra Sul tem outros 45 campos mapeados. Na Serra Norte, onde está Carajás, há mais nove campos a ser explorados.

No total, a região sudeste do Pará tem mais de 50 bilhões de toneladas de minério, segundo estimativas de especialistas. O total equivale a 150 anos de produção da Vale no ritmo atual — e o suficiente para pelo menos dez novas minas do porte de S11D. É o bastante, em suma, para manter vivo o sonho da Vale muito tempo depois que o pesadelo atual passar.

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