O que esperar dos candidatos à Presidência do Peru

Nas últimas semanas da eleição no Peru, finalistas defendem responsabilidade fiscal e controle da inflação — nem parece campanha na América do Sul.

São Paulo — A julgar pelas declarações beligerantes de alguns peruanos ilus­­tres, o país corre o sério risco de entrar em colapso dependendo do resultado do segundo turno das eleições presidenciais em 5 de junho. O Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa não cansa de dizer que a vitória da candidata Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, será um grande retrocesso.

Hernando de Soto, economista local que costuma figurar nas listas dos mais influentes do mundo, responde dizendo que Vargas Llosa, que perdeu a eleição presidencial de 1990 para Fujimori pai, “não vive há muito no Peru, já é um escritor espanhol-peruano e está mais no mundo de Hollywood”. É verdade que Keiko e seu oponente, Pedro Pablo Kuczynski, conhecido pelas iniciais PPK, têm suas diferenças.

Keiko, de 41 anos, é carismática e conservadora em temas como a união de pessoas do mesmo sexo. Comanda a Força Popular, atualmente com maioria no Congresso, e tem inclinações populistas. Vargas Llosa sempre se refere a ela como “a filha do ex-ditador”.

O pai de Keiko presidiu o país com mão de ferro durante a maior parte da década de 90 e hoje está preso, cumprindo pena de 25 anos por corrupção e violação dos direitos humanos. Já PPK tem 77 anos, carisma quase zero, é um liberal clássico em temas como liberdade civil, um economista formado na Universidade de Oxford e está à frente do Peruanos pela Mudança, um pequeno partido que criou.

Filho de um médico alemão e de uma suíça, é primo do cineasta Jean-Luc Godard, com quem mantém contato. Keiko é a candidata preferida na região norte e nas áreas mais pobres e rurais. PPK é mais forte nas regiões central e sul e na metade de cima da pirâmide social. Os dois estão tecnicamente empatados. Segundo a última pesquisa do instituto Ipsos, ela conta com 51,5% das intenções de voto; ele, com 48,5%. 

Mesmo com tantas diferenças entre os candidatos, o mais incrível no caso das eleições peruanas é o que une os dois campos. Na reta final da campanha, o debate econômico destoa do padrão que domina a América do Sul há anos. Ninguém fala na necessidade de criar uma nova matriz econômica com a mão forte do Estado.

Tanto Keiko como PPK apoiam políticas fiscais responsáveis, controle da inflação e investimentos externos. Segundo a previsão da maioria dos relatórios de bancos estrangeiros, independentemente de quem esteja na frente nas pesquisas próximas às eleições, o valor do novo sol, a moeda local, não deve variar — alguém aí precisa ser lembrado de como foram as últimas eleições no Brasil e na Argentina?

De 1998 a 2007, o Peru foi o país da América do Sul que mais cresceu — média anual de 4,1%. Embalado pela venda de minérios durante o boom de commodities provocado pela fome por matérias-primas da China, o ritmo do crescimento do PIB de 2008 a 2013 foi ainda maior, média anual de 6%. Nesse mesmo período, o país protagonizou uma radical redução no número de pobres.

A população abaixo da linha de pobreza passou de 55% do total para 22,5%, a maior queda da América Latina. Até aqui a história recente peruana se parece com a de vários países da região — com a do Brasil, inclusive. A diferença do Peru é que tudo isso aconteceu com uma política fiscal responsável e um rígido controle da inflação.

Nos últimos 15 anos, o índice de preços subiu, em média, 2,8% por ano, dentro da banda que vai de 1% a 3%. Hoje a dívida pública equivale a 24% do PIB — no Brasil pós-pedaladas, o percentual é de 66,5%.

“A sociedade peruana não dá espaço para ideias mirabolantes na economia porque sofreu muito na crise dos anos 80. Entra e sai governo e a política econômica é mantida. O debate tem sido maduro”, diz o eco­nomista brasileiro Marcello Estevão, chefe da missão do Fundo Monetário Internacional para o Peru.

Nova estratégia para crescer

Para entender o que diferencia os planos dos dois candidatos, EXAME ouviu, nas duas últimas semanas, Elmer Cuba, principal assessor econômico de Keiko, e Alfredo Thorne, responsável pelo time econômico de PPK — ambos cotados para assumir o Ministério da Fazenda. Os dois concordam na essência, mas divergem na margem.

Primeiro, ressaltam que a conjuntura mudou. Com a queda no preço das commodities, o ritmo de crescimento do PIB diminuiu — 2,4% em 2014 e 3,3% no ano passado. Ambos também dizem que vão centrar esforços na melhoria da infraestrutura. A maneira como pretendem fazer isso é que é diferente.

Keiko promete aumentar o investimento na construção de estradas, escolas e barragens em 1 ponto percentual do PIB no primeiro ano. Quer dar uma espécie de empurrão na economia. Para isso, diz que vai usar recursos de um fundo estatal e a emissão de dívida. “É uma medida transitória”, diz Cuba.

A meta depois é tentar atrair a iniciativa privada. PPK tem um plano da ordem de 70 bilhões de dólares que prevê parcerias público-privadas desde o começo. “É preciso conseguir novas fontes de crescimento”, diz Thorne. Embora o debate econômico seja um exemplo para a região, a campanha também tem seu lado novela mexicana.

Um figurão do partido de Keiko acabou de ser acusado de ligação com o narcotráfico. Ela jura, mas nem todos acreditam, que não dará um indulto ao pai caso eleita. Esses temas é que provocam brigas, como a de Vargas Llosa e De Soto. São esses assuntos que deverão definir o pleito — não a economia.

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