“O Uber não é solução para o trânsito lento”

Para Philipp Rode, diretor do centro de pesquisa sobre cidades da London School of Economics, é preciso cobrar imposto de quem anda de carro nas metrópoles

São Paulo — Professor da London School of Economics, o alemão Philipp Rode é diretor executivo do centro de pesquisa LSE Cities, um dos mais respeitados do mundo sobre transporte urbano.

Rode dedicou os últimos anos a pesquisar as políticas usadas por cidades como Berlim e Londres para organizar seu sistema de transporte. Crítico da gestão das grandes cidades brasileiras, Rode concedeu a seguinte entrevista a EXAME.

Exame – Por que o senhor diz que as grandes cidades brasileiras estão longe das melhores práticas adotadas no mundo?

Rode – Todas as estatísticas mostram, de forma clara, que o transporte público eficiente é a melhor maneira de levar uma grande quantidade de pessoas de um ponto a outro. Poucas cidades grandes no mundo insistem na alternativa dos carros, como muitas no Brasil ainda fazem.

Exame – Como fazer a transição do foco no carro para outro no transporte público?

Rode – Uma alternativa é aumentar a malha do metrô, mas no caso do Brasil, que sempre preferiu os carros, priorizar ônibus e ciclovias seria uma alternativa mais rápida e viável.

Exame – O que o senhor quer dizer com “priorizar ônibus”?

Rode – Se você está em um lugar que não tem ônibus, fica prisioneiro do carro. É necessário ter alternativas viáveis, convenientes, frequentes e, principalmente, seguras.

Exame – Em várias regiões das cidades brasileiras, essa alternativa existe, mas parte das pessoas continua andando de carro. O que pode ser feito?

Rode – Em lugares onde a cultura do carro é muito forte, as pessoas precisam de um empurrãozinho. As cidades podem, por exemplo, cobrar impostos sobre o uso do automóvel. Quem usa carro produz mais poluição ambiental e sonora, além de ocupar mais espaço público.

Exame – Quais são os melhores exemplos de cidades que fizeram bem essa transição?

Rode – Em 1998, 45% das pessoas eram transportadas por carros em Londres. Hoje, o percentual é de 33%. O número de motoristas no centro de Londres na hora do rush caiu de 137.000, no ano 2000, para 64.000, em 2014. E a quantidade de ciclistas aumentou de 12.000 para 36.000.

Exame – A bicicleta é realmente uma alternativa?

Rode – Claro. As pessoas precisam parar de achar que a bicicleta é apenas para atletas ou pobres. É o meio de transporte ideal para distâncias de até 6 quilômetros. Mas melhorar a infraestrutura para incentivar seu uso, como São Paulo tem feito, não é suficiente. As prefeituras devem mudar a cultura, com um Dia Livre de Carros, por exemplo.

Exame – O Uber diz ser uma solução para o trânsito pesado nas cidades. O que o senhor acha?

Rode – Os carros de empresas como o Uber não são uma solução para o trânsito lento nas grandes cidades. São uma unidade quase individual de transporte e consomem muito espaço público. Os carros-robôs, que devemos ver nos próximos anos, serão mais úteis.

Não vão precisar de estacionamento, já que não terão motorista e estarão sempre em circulação. Mas estimamos que essa alternativa atenderá somente até 15% das viagens diárias de uma cidade “saudável”. No futuro, assim como hoje, a solução é mais transporte público e mais bicicletas.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s